Texto:
Marcos Adami
"Cada
dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse
o que lhe fosse necessário, não haveria pobreza no mundo e ninguém
morreria de fome" Mahatma Gandhi
– (1869 – 1948)
Eu já estava
indo embora quando Edivando Cruz, o campeão brasileiro de mountain bike
de maratona e de cross-country me chamou num canto para conversar. Vando é
uma das pessoas mais íntegras, educadas e sensatas que conheci na vida.
Seu olhar deixava
transparecer uma certa frustração e tristeza. Ele tinha sido informado
dias antes que sua equipe – a centenária Caloi – o havia
dispensado, juntamente com outros dois companheiros.
O campeão
acabava de estrear com vitória no Campeonato Interestadual, no mês
passado. Vando, líder do ranking nacional, que mora em Ilhabela, mas
já rodou o mundo com sua bike (inclusive representou o Brasil em Atenas),
recebeu o prêmio de R$ 400 pela dura vitória. A campeã do
feminino – a mineira Roberta Stopa, número dois do ranking –
recebeu risíveis R$ 250.
Em época
de Jogos Olímpicos, todos gostamos de ver nossos atletas conquistarem
medalhas para nosso País. De ouro, de preferência. Todos vibramos
muito com a atuação de Vanderlei Cordeiro de Lima, que deu um
show e conquistou um bronze com sabor de ouro. Todos se encantam com os vitoriosos,
inclusive os patrocinadores, que querem ter seus produtos no alto do pódio
e na TV.
MUNDO
PERVERSO
Qualquer marqueteiro
sabe que os consumidores associam a imagem vitoriosa do atleta ao produto. “Se
o tênis tal levou Vanderlei ao pódio, é sinal que é
bom para mim”. No mundo das bikes essa associação produto-atleta
é exatamente igual e esconde um mundo perverso.
Muitos atletas
de ciclismo e do mountain bike, por ignorância ou por falta de informação,
não têm a mínima idéia da importância que ocupam
nesse milionário mercado de marcas e componentes de bicicletas.
Em qualquer esporte,
qualquer mesmo, a peça principal são os atletas, os trabalhadores
do esporte. Sem eles não há jogo e não tem corrida. E,
sem corrida, não tem como patrocinador nenhum mostrar produto. Muitos
atletas, aliás, são tão dedicados ao esporte que deixam
erroneamente a vida financeira em segundo plano. Muitos trabalham em troca de
peças de bicicleta. Enquanto isso, muita gente ganha, e muito, com o
suor desses trabalhadores.
ABUSOS
No caso dos campeonatos
de mountain bike, em especial os organizados por entidades privadas, funcionam
como uma espécie de vitrine. Ali os atletas mostram sua força,
habilidade, técnica e os produtos dos patrocinadores estampados em belas
cores em suas camisas.
Há campeonatos
e campeonatos. Alguns prezam por uma boa premiação, já
que atraem atletas de Elite para seus circuitos, outros são bastante
honestos e não oferecem premiação em dinheiro, pois realizam
provas direcionadas aos aficionados amadores, que não vivem do esporte.
É importante
que cada atleta de Elite tenha a exata noção que, ao assinar o
nome na ficha de inscrição, está de acordo com as regras
impostas pelo organizador e com o valor da premiação. O empresário
está na dele. Vive de organizar provas e, quanto mais dinheiro em caixa,
melhor. O patrocinador também. Quanto mais seu produto aparecer, mais
azul será o balanço no final do ano. Os riscos ficam por conta
do atleta. Uma simples queda pode significar uma fratura e meses de afastamento.
E muitos não têm nem mesmo plano de saúde ou seguro de vida.
Se algo acontecer de ruim [e vira e mexe acontece] o atleta está desamparado.
Na semana passada,
encontrei na porta de uma loja em São Paulo um campeão mundial
[master] de mountain bike. Ele parecia preocupado com os rumos do mountain bike
nacional o tanto quanto eu. “Enquanto atleta não aprender a virar
as costas e a dizer não, os abusos vão continuar.
QUESTÃO
DE CARINHO
Como é possível
130 mil soldados britânicos dominarem 700 milhões de cidadãos
indianos?” era a pergunta que Gandhi fazia durante o domínio inglês
sobre a Índia. Os ingleses detinham o monopólio de tudo e até
do sal, elemento fundamental para a vida humana. Retirem o sal do mar, teçam
suas próprias vestes, mas não comprem mais nada dos ingleses;
e eles vão ter que negociar.
Movimentos organizados
por atletas de Elite já tomam forma em Minas Gerais, em São Paulo
e no interior paulista. Já passou da hora de nossos trabalhadores do
esporte começarem a voltar as costas e a tratar os organizadores de provas
e demais empresários do setor com o mesmo carinho e atenção
com que são tratados.
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