
Um roteiro de 12 dias, 1.040 km e
muito pedal na Bolívia, Peru e ChileTexto:
Manuel R. Terra - mretrra2000@yahoo.com

Um ano antes, e
inspirado pelo filme sobre o Che Guevara: "Diários de Motocicleta",
do diretor carioca Walter Salles, comecei a preparar a minha versão de
uma rota em bicicleta pelos Andes.
Estudei mapas
e idealizei o roteiro com vários croquis, ferramentas da internet, GPS,
fotos de satélite e guias de viagem. A “Expedição
Andes l” foi formada por apenas dois integrantes: Diego Gomes e eu, Manuel
Terra.
Pedalamos 1.040
quilômetros (450 aproximadamente por estradas de terra) em 12 dias com
de pedal, com uma média de 86,7 quilômetros diários, com
um dia de descanso.
Partimos do Rio
de Janeiro no final de maio de 2005. Depois de um desencontro no aeroporto (Diego
perdeu o avião), nos encontramos em Cuzco, a mais de 3.500 metros acima
do nível do mar.
Ali permanecemos
três noites, nos acostumando a altitude. Nesse interin fizemos um trekking
de dois dias até Pisac. Caminhamos oito horas e acampamos no Vale Sagrado
dos Incas.
PRIMEIRO
DIA
No
dia seguinte começamos a rota logo depois da foto comemorativa da partida,
na Plaza de Armas, em Cuzco. O dia transcorreu tranqüilo, porém
permanecemos muito atentos a tudo enquanto nos acostumávamos à
estrada e ao ambiente. Essa noite, enquanto ainda anoitecia, acampamos em um
bosque afastado da estrada a poucos quilômetros de Checacupe.
Depois de passar
a noite desmontamos as barracas cobertas de gelo e fomos tomar nosso primeiro
café da manhã andino: bife de coração de cordeiro
com arroz, ovos mexidos, Inkacola (uma bebida local) e café solúvel.
Depois de ter passado uma noite de geada no mato, a refeição foi
uma festa e um combustível necessário. Checacupe é muito
simpática e mostra sinais de um passado colonial importante.
SEGUNDO
DIA
Nesse segundo
dia de percurso cruzamos com falta de fôlego o passo de montanha Abra
la Raya (4,338 m). Depois de passarmos pela cidade de Sicuani, acampamos novamente,
mas desta vez sem barraca.
Águas Calientes é uma pequena estação de águas
termais, gerenciada precariamente por uma associação de Sicuani,
bem simples. Conversamos com o guarda, que nos permitiu dormir dentro de uma
das instalações cobertas por uns trocados. Tomamos banho a mais
de 30 graus em uma das piscinas de água mineral (lá fora a temperatura
estava abaixo de zero...), logo preparamos nossos sacos de dormir na beira e
tentamos descansar naquele canto.
TERCEIRO
DIA
A
terceira etapa de nossa aventura foi um pedal agradável e fluido, descidas
suaves com vento a favor por vales e pampas de bom asfalto e pouco trânsito
até Ayaviri (3.250 m), uma cidade pequena, porém maior do que
tudo que tínhamos visto desde Cuzco. Estava cheia de cyber cafés
e pequenos comércios. Ficamos no melhor hotel que encontramos.
Depois de duas
noites acampados, percebemos que o descanso de qualidade (chuveirada, cama e
comida quente) era muito importante para o sucesso de nossa travessia. Só
que o conceito de água quente nos Andes é bem relativo...
Passeamos de táxi
cholo (movido a triciclo), tiramos fotos, navegamos na internet e jantamos numa
"polleria" típica: frango assado.
QUARTO
DIA
Partimos
de balaclava de tanto frio que fazia no começo do quarto dia. A estrada
tinha piorado a estas alturas (é péssima e mais movimentada entre
este ponto e Puno). Paramos em Pukara, umas ruínas incas com vila colonial
ao lado. Lanche de bom queijo, com pão e “matesito de coca”,
o chá de folhas de coca, claro.
Animados, continuamos
por um desvio de terra logo depois.A paisagem tinha se transformado em Puna,
a uma altitude media de 3.800 metros, com vento forte e pequenos lagos.
O
Ichu, uma espécie de arbusto de altitude, domina a paisagem compartilhando
a terra apenas com a Quenhua, uma pequena árvore de altitude, e claro,
centenas de llamas, alpacas e vicunhas.
A região
que rodeia Lampa é particularmente bela e tem diversas aves (me chamou
a atenção a garça preta, com seus bandos que bebem nos
pequenos lagos). Depois de superar algumas colinas com bosques de Queñuas,
descemos para o vale.
Lampa é
uma cidade colonial, com um passado de extração de prata das colinas
que a rodeiam. Chamada também de cidade rosada, pois esta cor é
predominante na terra da região e as casas feitas de adube refletem a
luz com tons de rosa.
Não foi
fácil encontrarmos alojamento ali, pois turistas de Puno freqüentam
este destino pitoresco. Depois de muitas perguntas e cogitarmos a possibilidade
de acampar, encontramos um quarto na casa de uma família acostumada a
receber estrangeiros.
QUINTO
DIA
No
quinto dia seguimos por caminhos de terra entre bonitas regiões de Puna
conservadas por Cabana e Cabanilla até Sillustani, onde começa
o asfalto. O trânsito antes de Puno é bem movimentado e a estrada
esburacada. Por segurança, preferimos pegar um atalho pela antiga estrada
abandonada, que com os anos tinha se transformado numa trilha íngreme,
que apesar de ter sido muito difícil, no topo nos revelou o Lago Titicaca
pela primeira vez e com grande perspectiva.
Dalí, descemos
até Puno. A cidade tem certo movimento turístico, mas não
é tão desenvolvida e atrativa quanto Cuzco. Bem instalados, permanecemos
duas noites e aproveitamos para descansar e incrementar nosso vestuário
com lã de alpaca, pois a previsão de frio era assustadora. Também
nos abastecemos com comida para termos uma pequena autonomia, já que
a partir dali a rota seria mais exigente e isolada.
SEXTO
DIA
Partimos no sexto
dia de pedal (mais um descanso) beirando o Lago Titicaca e com a Cordilheira
Real ao fundo, rumo a Pomata. Passamos por Llave, onde conhecemos um grupo de
ciclistas locais. A próxima parada foi Juli, ainda na beira do lago.
Ficamos ali esta noite. Logo no jantar, ouvimos o dono do pequeno restaurante
comentar que tinha feito 15 graus negativos na noite anterior. Agora o frio
era uma questão de vida ou morte e nos preocupou. Os próximos
400 quilômetros da rota seriam por caminhos de terra entre a fronteira
do Peru com a Bolívia e o Chile. Uma terra de ninguém, maravilhosamente
isolada...
SÉTIMO
DIA
No
sétimo dia passamos brevemente por Pomata para almoçarmos uma
sopa histórica na casa de uma senhora e, logo depois, antes de Desaguadero,
viramos à direita (al sur!) por uma estrada de terra. Deixamos o lago
para trás e adentramos uma terra hostil, rumo à tríplice
fronteira.
Durante o caminho
a Huancullani viramos uma serrinha e encontramos uma espécie de feira
agropecuária. Huancullani é bem pequena e isolada, fica escondida
entre dois morros, refugiada dos fortes ventos andinos.
Apesar de não
termos encontrado nenhum hotel, fomos bem recebidos. Os vizinhos nos permitiram
pernoitar na sala de reuniões da pequena prefeitura. O frio aquela noite,
ainda cedo, era espantoso. Prestei muita atenção com o que as
pessoas locais nos comentavam sobre a região e decidimos adotar uma estratégia
mais conservadora de pedal. Menos quilômetros diários para que
assegurássemos a chegada aos destinos com uma margem de luz solar razoável
e sempre levando alimentos e água suplementares. A partir daí
subimos mais um pouco e nos situamos em um território a 4.400 m de altitude
média, até Parinacota, onde começaríamos nossa decida
ao Oceano Pacifico, atravessando o deserto do Atacama.
OITAVO
DIA
De
manha cedo fomos gentilmente convidados a tomar café da manhã
na casa da família Zabala (café da manhã andino, claro).
Logo depois começamos a nossa oitava jornada com certa serrinha, rumo
a Pisacoma.
Desta vez encontramos
uma pousada peculiar, uma senhora um tanto particular, professora do colégio
local, que alugava uns quartinhos de muros de pau-a-pique, telhado de palha
e chão batido. As galinhas circulavam livres pelas habitações
com muita normalidade. Por incrível que pareça foi uma das melhores
noites de sono da viagem...
NONO DIA
No nono dia começamos
severamente prevenidos sobre a serra que nos esperava e também pelo fato
de ser normal por aquelas bandas temperaturas abaixo de 20 graus (posteriormente
soube que a frente fria que castigou o Peru em 2004 fez menos 30º C pela
região de Kuelluyo). Subimos rumo aos 4.400 metros.
Já estávamos
aclimatados (apesar de arritmia respiratória noturna). Seguimos com destino
a Ancomarca completamente integrados nessa imensidão sul-americana. Em
Ancomarca não existia hotel, prefeitura e nem ninguém. A única
autoridade que encontramos nesse arraial (autodenominado "centro poblado")
foi o precário postinho da polícia de fronteira peruana.
Pedimos refúgio
e fomos acolhidos com simpatia e direito a jantar de carne de llama (muito dura
por sinal). Pernoitamos nesta isolada comunidade em beliches com cobertores
do exército, rodeados por diagramas de aviões chilenos nas paredes
na saleta com o rádio.
DÉCIMO
DIA
Partimos
cedo com salvo-conduto da polícia peruana. Na décima etapa contornaríamos
e inclusive entraríamos na Bolívia para sairmos de novo no Peru
e nesse mesmo dia entrar no Chile. E por isso o salvo-conduto.
As paisagens eram
inacreditáveis, vulcões e nevados em varias direções.
Nesse dia atravessamos a fronteira com o Chile, no marco da tripla fronteira,
e dormimos na cidade chilena de Visviri.
Saímos
de Visviri pedalando por terras chilenas rumo a Parinacota, que está
aos pés dos vulcões chamados de Payachatas (individualmente chamados
de Parinacota e Pomerape).
Sem dúvida
esta foi a nossa jornada mais dura física e psicologicamente. Pedalamos
mais de 90 km (sem escalas), com muito vento contra e num terreno muito arenoso.
No final, de noite, derrapávamos constantemente com as rodas da bicicleta
afundadas na poeira.
Chegamos por volta
das 21 h em Parinacota, totalmente desgastados. Percebemos então na pracinha
deserta que nossas garrafinhas de água estavam congeladas. Tocamos algumas
portas e um “pousadeiro” nos abriu (que visão maravilhosa
depois de tamanho perrengue).
Preparou-nos logo
depois uma magnífica sopa, nos hospedou num quarto com beliches compartilhado
com um casal de franceses uff...!
DÉCIMO-PRIMEIRO
DIA
No
11º dia pegamos o asfalto da pista La Paz-Arica cansados pela jornada anterior.
Pedalamos pouco até Putre, mas começamos o declive dos 4.400 m
em direção ao mar.
Putre está
situada em uma espécie de vale, a 3.800 m sobre o nível do mar,
uma fenda na pré-cordilheira, onde corre a água dos picos nevados,
engenhosamente aproveitada na lavoura, com pequenos canais, tornando a paisagem
verde.
Putre nos pareceu
mais simpática que Visviri, onde há trânsito de caminhões
de carga e tem certa burocracia. Esse dia nos premiamos com uma boa pousada
e nos preparamos para nosso último dia de pedal.
DÉCIMO-SEGUNDO
DIA
O décimo-segundo
e último trecho da nossa rota foi um fechamento de ouro. Iniciamos a
descida de praticamente quatro mil metros atravessando o Atacama, à toda
velocidade. Eram 145 quilômetros de descida, até o mar. Houve um
único trecho sem nenhuma lombadinha sequer, de 40 km, entre outros menores.
Desfrutamos privilegiados
de uma vista panorâmica espetacular e "ventilada" do deserto
mais seco do mundo. A estrada é extremamente perigosa em alguns trechos,
especialmente logo depois de Putre, com precipícios sem barreira e curvas
assustadoras.
O efeito da mudança
de altitude repercutiu no nosso desempenho. A partir dos 1.500 m, sentimos uma
leveza extraordinária! Chegamos em Arica, na costa Chilena, cientes de
termos deixado para trás um outro mundo...o mundo das alturas, dos Quechua
e dos Aymaras.
Não gostamos
muito de Arica e percebemos que os preços eram bem mais altos. Nesse
mesmo dia fomos direto para a rodoviária, onde pegamos uma lotação
(bicicletas amarradas no capô) até a cidade de Tacna, no sul do
Peru, a uns 50 quilômetros de distância.
Em Tacna, ficamos
num hotel legal e fizemos a festa, descansamos por três dias até
pegarmos um vôo pra Lima, onde ficaríamos mais uma noite e voltamos
finalmente para o Brasil.

Para ver
mais fotos da viagem, visite este link:
http://pg.photos.yahoo.com/ph/mrterra2000/album?.dir=/bde0
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