Vive La Velorution

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Vive La Velorution

Como as vélib revolucionaram a mobilidade urbana em Paris

Marcos Adami – com autorização da revista Bike Action

Só poderia vir da França a melhor notícia da integração das bicicletas no cenário urbano e na vida cotidiana das pessoas. No país onde a bike é quase sagrada, desde o mês de julho de 2007, um sistema de bicicletas coletivas Vélib (Velos en libre service em francês) promete revolucionar o sistema de transporte urbano na capital francesa e reduzir o trânsito urbano em 40% até 2020.

As simpáticas e ecologicamente corretas Vélib ganharam a simpatia e provocaram um frenesi entre os parisienses e, em pouco mais de 15 dias, o serviço alcançou um milhão de locações. Num domingo ensolarado foram registrados 62 mil deslocamentos com as bikes. O custo da implantação do projeto é estimado em US$ 90 milhões e gerou 400 empregos diretos. Esses números impressionantes já inspiram seguidores em outras cidades e países.

A REVOLUÇÃO MUNDO AFORA

A idéia já se espalhou para outras cidades. Toulouse, Rennes, Marselha e Lyon têm seus próprios sistemas de transporte por bicicleta coletiva, semelhante ao de Paris. Em Lyon, o sistema Vélo’V (foto abaixo) existe desde maio de 2005 e tem mais de 3 mil bikes e 350 estações.

O serviço parisiense começou a funcionar no dia 15 de julho de 2007 com 750 estações e quase 11 mil bicicletas. Até o final desse ano o número de estações vai dobrar e serão mais de 20 mil Vélibs em utilização.

A idéia é que o cidadão comum utilize a bike para pequenos deslocamentos urbanos em troca de um pequeno pagamento, bem mais barato que uma passagem de metrô ou ônibus. E é exatamente o que tem acontecido.

As bicicletas estão localizadas em bicicletários self service, chamados de estações, que estão distribuídas em intervalos de aproximadamente 300 metros umas das outras e funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. O sistema foi criado e implantado pela prefeitura de Paris e é explorado comercialmente pela empresa de publicidade JC Decaux, a segunda maior empresa de outdoor do mundo.

A JC Decaux patenteou o sistema sob o nome Ciclocity, em 2001, e em 2003 Gijón e Córdoba, na Espanha, e Viena, na Áustria, aderiram ao projeto. E, antes de chegar a Paris, as bicicletas da liberdade do publicitário Jean-Claude Decaux chegaram a Lyon e em Villerurbanne, em 2004. Até o final desse ano serão 3 mil bicicletas à disposição que cumprirão 20 mil trajetos diários.

Várias outras cidades européias como Estocolmo, na Suécia, Praga, na República Tcheca, Sevilha e Barcelona na Espanha e Londres, na Inglaterra, também têm bicicletas coletivas e o número de cidades não pára de crescer. Em Portugal, a cidade de Aveiro conta com um sistema bicicletas de bicicletas gratuitas desde abril de 2000, e em sete cidades alemãs, bicicletas comunitárias operadas pela própria ferrovia nas estações de trens garantem o último trecho da jornada até a residência do passageiro.

REVOLUÇÃO HIPPIE

A idéia de bicicletas coletivas ou comunitárias não é assim tão nova, mas é em Paris que ela encontrou condições para crescer com o amparo do governo. Na década de 60, o holandês Laurens Maria Hendrikus Schimmelpennink, na época com 25 anos, criou um programa experimental chamado “White Bicycles”.

Eram bicicletas comunitárias pintadas inteiramente de branco, idealizadas para serem pedaladas num determinado trajeto e então deixadas com outra pessoa para fazer o caminho de volta, tudo no espírito “Paz & Amor”, como mandava a revolução hippie da época.

Em pleno século 21 o programa criado por Laurens ainda é adotado em cidades da Dinamarca e da Finlândia, inclusive na capital Helsinque. Na Holanda, é possível alugar, sem custo algum, uma bicicleta branca para visitar o Parque Nacional Veluwe, inclusive tandems para deficientes.

Algumas iniciativas de bicicletas comunitárias fracassaram em outras cidades. Em 1993, 300 bikes foram roubadas no primeiro dia de operação em Cambridge, na Inglaterra, e o programa foi abandonado.

ECOLOGICAMENTE CORRETA

Igualdade, Liberdade e Fraternidade. O mote da Revolução Francesa cabe bem na filosofia da Vélib, dessa vez com o lema “Liberdade, simplicidade e sociabilidade”. O prefeito Bertrand Delanoë quer aumentar o número de parisienses que pedalam de 40 mil para 250 mil até o final desse ano e não poupa esforços para isso.

Desde 2001, quando assumiu, construiu 200 km de ciclovias, muitas vezes eliminando uma faixa dos carros. Outras obras de infra-estrutura viária, como lombadas e passarelas, foram construídas antes da chegada das Vélib e a velocidade máxima dos automóveis foi limitada a 30km/h em certas regiões.

Não é a toa que nesse período o trânsito de bicicletas aumentou 48% na cidade. Para usufruir do sistema Vélib, o usuário tem que ter mais de 14 anos e 1,50m de estatura no mínimo. Os créditos do cartão pré-pago custam € 1 para um dia ou € 5 para sete dias ou um plano anual extremamente vantajoso de € 29, menos de R$ 80. Um cadastro e um depósito de € 150 (R$ 400) são necessários nesse caso.

Um estudo mostrou que a grande maioria dos deslocamentos de bicicleta em Paris dura menos de meia hora. Pensando nisso, a bike é gratuita nos primeiros 30 minutos. Após a primeira hora de cada trajeto, é cobrado € 1 para a segunda meia hora, € 2 para a terceira hora adicional e € 4 a partir da quarta meia hora de utilização da Vélib. A idéia desse sistema de tarifas é fazer com que as bicicletas atendam ao maior número de usuários possível a custo próximo de zero. A prefeitura estima que cada bike seja utilizada de 10 a 15 vezes por dia.

Antes de entrar em operação, o sistema foi apresentado ao público por campanhas publicitárias abrangentes e os formulários de cadastro foram distribuídos até em padarias. As estações Vélib estão distribuídas em intervalos de mais ou menos 300 metros umas das outras e localizadas em pontos estratégicos, como estações de trem e de metrô, escolas e lugares de grande concentração.

São 12 estações só na margem do Rio Sena. Para se ter uma idéia, na região central de Paris já existe 4,4 vezes mais estações de Vélibs do que de metrô. Comércios menores, como bike shops, supermercados, padarias, floriculturas, bancas de jornal etc também podem solicitar à prefeitura a instalação de uma estação Vélib.

Para usar a bicicleta, basta inserir o cartão numa máquina leitora que opera em oito idiomas, digitar uma senha para ter a trava liberada e deixar a bike numa outra estação.

O sistema parisiense conta com 20 veículos ecologicamente corretos (elétricos ou a GNV) que cuida da manutenção e da redistribuição das bicicletas pelas estações. Todas as bikes são lavadas diariamente com detergente biodegradável e uma oficina flutuante foi montada numa barcaça que percorre o Sena com 11 mecânicos a bordo para os consertos mais sérios.

PORTUGUESA, COM CERTEZA

A Vélib nasceu nas pranchetas da própria agência JC Decaux e o direito de fabricação foi concedido à Cycles Lapierre e a Orbit.

Mas as Vélib são fabricadas em Portugal pela empresa Miralago-Órbita, em Águeda, a mesma que fabrica as VéloV, de Lyon. A empresa foi fundada em 1956 por Aurélio Ferreira e Manuel de Almeida e produz autopeças e componentes para a Yamaha. Atualmente, a empresa fabrica 45 mil bikes por ano, com capacidade para até 120 mil unidades.

Bastante robusta, a bicicleta da ‘Vélorution”, como vem sendo chamada, é equipada de fábrica com um sistema anti-furto infalível e indestrutível, segundo o fabricante.

No ano passado a Miralago-Órbita faturou € 7 milhões e pretende fechar 2007 com € 12 milhões de faturamento.

A bike tem um design bem peculiar e exclusivo para coibir furtos e roubos.

A Vélib tem aros 26”, é pintada na cor cinza e pesa 22 kg. O selim tem regulagem de altura e a bike vem equipada com faróis e luz vermelha na traseira, câmbio Shimano Nexus de três marchas, freios a tambor, pára-lamas, cavalete central, sistema antifurto e cesta para compras no guidão.

BIKE NO CELULAR

Um novo serviço de aluguel de bicicletas coletivas já funciona em cerca de 60 pontos da capital britânica. O sistema OyBike (FOTO oy_bike.jpg) começou nos distritos de Hammersmith e Fulham e se espalhou por outros pontos da cidade, com estações self service localizadas em locais estratégicos e de grande fluxo de pessoas, como estações de trem e metrô e em estacionamentos de automóveis.

O serviço é semelhante ao parisiense, com a diferença que o pagamento e a liberação das bikes nas estações são feitos pelo telefone celular do usuário, que envia um SMS para a central e recebe um código para desbloquear a bike escolhida. Os primeiros 30 minutos de utilização são gratuitos e os 30 minutos excedentes custam £ 2, e o dia inteiro sai por £ 8, cerca de R$ 16.

O OyBike é uma invenção patenteada pelo empresário britânico B. W. Hanning, que desenvolve o sistema desde a década de 1980. Para ter acesso às bikes, o usuário deve preencher um cadastro online e adquirir inicialmente £ 10 (R$ 40) em créditos, que serão abatidos conforme o uso. Um seguro opcional cobre roubo e acidentes e custa £ 10 por ano. O sistema ainda é pouco popular entre os londrinos, mas caiu no gosto dos turistas.

Na Alemanha, as cidades de Berlim, Frankfurt, Main, Colônia, Stuttgart, Munique e Karlslruhe dispõem de um interessante sistema de aluguel de bicicletas da própria ferrovia estatal, a Deutsche Bahn. O serviço tem o nome de “Call a Bike“ e funciona 24 horas. O usuário, devidamente cadastrado, liga para uma central (07000 5 22 55 22) e fornece o número de uma bicicleta disponível na estação.

Imediatamente, ele recebe um código pelo celular para destravar a bike desejada. Para devolver, é só travar a bike em qualquer lugar seguro, digitar o código gerado pela máquina e informar a central por telefone. Para se cadastrar no sistema o custo é de € 5 (R$ 13) e o minuto pedalado custa € 0,08 (R$ 0,20) ou € 0,06 para portadores do cartão da ferrovia. Em Stuttgart, a primeira meia hora é grátis.

OUTRAS CIDADES

ESTOCOLMO

Em Estocolmo, na Suécia, o projeto de bicicletas públicas de aluguel – as Stockholm City Bikes – começou no ano passado e já existem 40 pontos para se alugar a bicicleta coletiva e até o final desse ano serão mil bicicletas em operação. O sistema público-privado é explorado pela empresa de publicidade norte-americana Clear Channel Communications, que tem serviços também em Oslo e em Barcelona.

O cartão custa 200 coroas suecas (cerca de R$ 60) e vale de abril a outubro. Cartões diários custam 25 coroas suecas, cerca de R$ 7. O aluguel é limitado a no máximo três horas por cliente e funciona das 6 da manhã até as 21 horas e o idioma é somente o sueco nas máquinas das estações, o que limita bastante o seu uso.

BARCELONA

Em Barcelona, na Espanha, o sistema Bicing foi implantado pela prefeitura no dia 22 de março desse ano com 200 bicicletas e 14 estações e o sucesso foi imediato. No final de maio, o sistema já contava com 30 mil associados e alcançou 1 milhão de locações no final de julho. Atualmente, já são mais de 100 estações e 1.500 bicicletas do sistema Bicing, que operam das 5h à meia-noite. Às sextas e sábados o serviço é 24 horas. Para usufruir do serviço, é necessário fazer um cadastro e a tarifa custa € 24 (R$ 63) para um ano ou € 1 por semana.

LYON

A cidade de Lyon foi a pioneira no sistema de bikes públicas, desenvolvido e patenteado pela JC Decaux e inaugurado no dia 19 de maio de 2005, com 350 estações na Grande Lyon. As estações estão dispostas 300m umas das outras e funcionam 24 horas por dia, todos os dias da semana. A primeira meia hora de utilização é gratuita. Deslocamentos de até 90 minutos custam € 1 ou até metade disso para portadores de cartão pré-pago de longa duração.

AVEIRO

A Câmara Municipal da cidade de Aveiro, em Portugal, implementou em abril do ano 2000 as BUGAS (Bicicletas de Utilização Gratuita de Aveiro), um programa sem fins lucrativos que emprega 200 bicicletas espalhadas por 33 pontos daquela cidade. Em dois anos e meio após a implantação, o serviço beneficiou cerca de 50 mil pessoas.

A bike tem um desenho peculiar (para coibir roubos e furtos) e três marchas, de acionamento no punho. As Bugas são fabricadas pela empresa M. Caetano Ltda, com certificação ISO 9002. Todos os gabaritos e ferramental para a produção das bikes são de propriedade do município de Aveiro, que, aliás, abriga grande parte da indústria ciclística de Portugal. As bikes podem exibir material publicitário como fonte de receita.

Para pedalar uma Buga, basta ir até uma das estações e introduzir uma moeda de € 1 na ranhura vermelha na traseira da bicicleta para destrava-la. Ao travar a bike novamente noutra estação, o usuário tem a moeda devolvida, sem o preenchimento de qualquer documento ou cadastro.

SITES PARA MAIS INFORMAÇÕES:

www.velib.paris.fr – Site das Vélib. Seria bom uma versão em inglês e espanhol mais completa
www.velov.grandlyon.com – O sistema de bikes coletivas de Lyon
www.bicing.com – Portal do sistema de bikes coletivas de Barcelona
www.callabike.de – Site das bikes de aluguel operadas pela ferrovia alemã via celular
www.oybike.com – Portal das Oye Bikes que funcionam por telefonia celular
www.cyclocity.be – O sistema Cyclocicy da Bélgica, criado por JC Decaux
www.citybikewien.at – Sistema de bikes coletivas de Viena, na Áustria
www.stockholmcitybikes.se – Portal das City Bikes de Estocolmo
www.rouelibre.fr – Rede de locadoras de bikes francesas, própria para pedaladas de longa
duração e turistas
www.germany-tourism.de/cycing – Ótimas dicas e roteiros detalhados para cicloturistas
www.evanscycles.com – Rede de bike shops britânica