O mar que nunca chega: de Salesópolis até Caraguatatuba

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O mar que nunca chega: de Salesópolis até Caraguatatuba

De Salesópolis a São Sebastião pela estrada de manutenção da Petrobras

Texto e fotos de Marcos Adami

Em 2008 aceitei o convide dos amigos da Assessoria Desportiva VM3 para percorrer a famosa “Descida da Petrobras”, um caminho que começa na cidade de Salesópolis, no alto da Serra do Mar, e termina em Caraguatatuba, no litoral norte paulista.

Iríamos descer pela “Estrada do Limeira”, um percurso mais difícil que o caminho tradicional e que termina em São Sebastião. Eu, Affonso Alvim, Marcelo Franco e Marcelo Hendel, o responsável pela VM3, saímos cedinho de Campinas (SP) e por volta das 9 horas estávamos prontos para a empreitada até o litoral. Queríamos tomar um merecido banho de mar na chegada.

Eu já tinha ouvido horrores a respeito dessa pedalada. “Você vai ver o que é subida. Prepare-se”, diziam os amigos que conheciam o trajeto. A Estrada do Limeira era uma incógnita para todos nós, mas no fundo tínhamos a desconfiança de que se tratava de um trecho ainda mais duro e cheio de subidas que a descida para Caraguatatuba.

Mais tarde fiquei sabendo que o caminho é local de treinamento de ninguém menos que o Edivando Cruz, o paulista de Ilhabela dono de uma medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo. Como descobrimos no final de 8h30min de duras pedaladas daquele dia, a tal “Estrada do Limeira” realmente serve de treinamento para mountain bikers de nível olímpico.

ALTIMETRIA

DESCIDA PARA O ALTO

Chamar a “Descida da Petrobras” de descida é no mínimo curioso. Nos 85 km do percurso até São Sebastião, acumulamos 2.125 metros de ascensão, registrados em nosso GPS. A impressão que se tem é que estamos escalando uma montanha, dessas dignas da Serra da Mantiqueira em Minas Gerais, ou quem sabe uma serra catarinense.

A Estrada da Petrobras, como é mais conhecida, serve como acesso para os veículos de manutenção do oleoduto que liga o porto de São Sebastião às refinarias do Estado de São Paulo, como a Replan, na cidade de Paulínia, no interior paulista. Os dutos acompanham o roteiro o trajeto todo, ora pela direita, ora pela esquerda.

A beleza do percurso impressiona. Tão logo entramos na estrada de terra, a vegetação nos brinda com araucárias, pinheiros, fazendas e belos visuais. As subidas começam logo no primeiro quilômetro e são uma constante até os quatro últimos quilômetros do roteiro.

Pouco depois da passagem pela Pedra do Mirante, no KM 26, com suas antenas que podem ser vistas lá da Ilhabela e de onde se avista o mar ao longe, a estradinha para São Sebastião começa no KM 54,5, em uma curva para a direita.

Ali a estrada se estreita, a vegetação se adensa e as duras subidas se transformam em paredes. Em compensação, o visual e a beleza da trilha é inesquecível, inclusive com trechos de flores nas margens, como numa pintura.

O piso das paredes trechos mais íngremes é de concreto e de pedras, que ficam extremamente escorregadias em algumas partes e exigiu cuidado redobrado. Uma queda com fraturas nesse trecho deserto complicaria bastante a vida de todos.

Encontramos pouquíssimos veículos durante o dia todo. Um grupo de jipeiros foram os únicos seres que se atreveram a enfrentar a descida até S. Sebastião naquele dia.

À medida que avançávamos mais e mais subidas apareciam pela frente. Num determinado trecho, numa parede calçada de pedras, sentamos no chão, em meio a uma densa neblina, e lamentamos a nossa sina, enquanto recuperávamos as forças com um lanche de trilha.

SOBE, DESCE E SOBE

“Acho que estamos no caminho errado. Já pedalamos 70 km e nem sinal do mar”, concluímos todos, numa mistura de cansaço, ansiedade e… desespero pela noite que se aproximava. Nesse momento, nossos ciclocomputadores registravam 11 km/h de velocidade média. Teve subidas que superamos a não mais que 5 ou 6 km/h…

Pelo gráfico do GPS, notamos que ainda estávamos no alto da Serra, pedalando há horas entre as cotas 320 e 550 metros sobre o nível do mar.

A impressão que tínhamos era que, a cada metro que descíamos, subíamos outros dois metros logo em seguida. Nada de descida. Nada de mar até o momento.

Estávamos exaustos e tínhamos pouco mais de 20 minutos de luz do sol até a chegada, marcada para o centro de informações turísticas de São Sebastião, na Rodovia BR-101, a Rio-Santos, como é chamada nesse trecho.

Finalmente, depois de uma curva, a estradinha despenca a 4 km da chegada num downhill bastante íngreme de aproximadamente 3 km, num trecho calçado com pedras. Eu nem acreditei que estávamos chegando. Felizmente levei um farol, pois a noite nos pegou nos últimos quilômetros do caminho.

Eram 18h30 quando finalmente chegamos ao destino final. Era noite caída e não valia mais a pena ir até a praia e retornamos para casa sem ver o mar. Foram8h30min de pedaladas a 13,5 km/h de velocidade média, com um consumo de água que superou os quatro litros por cabeça.

O percurso Salesópolis-São Sebastião é um excelente treino de resistência para mountain bikers, seja para um atleta de Elite como o Edivando ou para competidores que desejam treinar para provas duras de maratona.

DICAS

  • Hidratação – Há poucos pontos de água no percurso, especialmente depois que se entra na estradinha para São Sebastião. É bom se garantir.
  • Pneus bons – Pneus bons vão garantir a tração nos trechos úmidos e vão evitar tombos nos trechos de lodo, bastante comuns nas áreas de sombra.
  • Primeiros socorros – É aconselhável levar um estojo de primeiros socorros, pois o trajeto local é bem deserto.
  • Prepare-se – Essa não é uma pedalada para iniciantes. Na dúvida, siga reto pela Estrada da Petrobras, até Caraguatatuba, que também não é fácil.

Marcos Adami viajou a convite da VM3 Assessoria Desportiva (www.vm3.com.br)