Patagônia no pedal

HomeCicloturismo

Patagônia no pedal

Casal de Floripa pedala 4 mil km até o extremo sul das Américas

Texto e fotos de Gisella de Mello

No final de 2006, o casal catarinense Sérgio e Gisella de Mello, saíram de Florianópolis e rodaram 4 mil até a cidade de Ushuaia, no extremo sul da Argentina.

Confira o relato na íntegra.

Em dezembro de 2006 partimos de ônibus de Florianópolis (nossa cidade natal) rumo à cidade de Mendoza, na Argentina, de onde começamos a pedalar em direção ao Fim do Mundo, no extremo sul do continente americano.

Cruzando a Cordilheira dos Andes, chegamos ao Oceano Pacífico. Depois fomos para Santiago do Chile e continuamos pedalando rumo ao sul do Chile e Argentina. Após dois meses de pedal, chegamos ao extremo Sul da América, na cidade de Ushuaia, na Terra do Fogo.

Aprendemos muito nessa jornada, cometemos erros e acertos, mas todos os minutos pedalados foram de imenso prazer, visto as paisagens maravilhosas que a viagem nos proporcionou. Nesta matéria, destacamos as partes mais interessantes da primeira parte da aventura.

TRAVESSIA DOS ANDES

Partindo de Mendoza, onde iniciamos a expedição.

Optamos atravessar a Pré-Cordilheira dos Andes por uma estrada nada convencional, a Rota 52, ou seja, a estrada velha.

A estrada cruza a Reserva Natural Villavicencio com 70 mil hectares de área preservada e altitudes que variam de 900 a 3.200 metros sobre o nível do mar. Lá fica o Hotel Termas Villavicencio, uma linda construção em estilo Enxaimel que parece estar encravada na Pré-Cordilheira. A partir deste hotel, a Rota 52, até então constituída de retas intermináveis.

O trecho conhecido como Los Caracoles de Villavicencio tem 17 km de subida e 365 curvas, por isso é chamada de “La ruta de Un Año”.

Sabíamos que a estrada estava em reformas, mas não estávamos preparados para o primeiro contato com o “ripio”, um tipo de pavimento muito popular na Argentina.

O piso conhecido como “ripio” é constituído por pedras soltas (parecidas com a nossa brita) e uma areia grossa e fofa. Com isso o esforço em cima da bicicleta torna-se duplamente desgastante, além de favorecer as quedas e pneus furados.

Foram dois dias de pedalada para atravessarmos a Reserva. Acampamos a mais de 2.500 metros sobre o nível do mar.

O vento que soprava era tão forte que parecia querer arrancar a barraca do chão! O ponto alto desta etapa foi passar pela Cruz de Paramilhos.

Uma cruz construída pelos jesuítas no início do século XVII, a 3.200 metros sobre o nível do mar, com o Monte Aconcágua, como plano de fundo.

Depois disto, uma longa descida com um visual deslumbrante da Cordilheira nos levou até a cidade de Uspallata.

Partimos de Uspallata no dia de Natal. A estrada estava praticamente deserta e o dia de sol transformava a paisagem em uma verdadeira obra prima da natureza, como um cenário de filme pintado a perfeição.

O vento contra fortíssimo tornou-se um mero detalhe…

Acampamos em Puente Del Inca, cujo nome vem da existência de um monumento natural belíssimo, uma verdadeira ponte de pedra utilizada pelos Incas. Dali partem alpinistas rumo ao ponto mais alto das Américas, o monte Aconcágua.

Depois de pedalarmos 15 km em 4 horas devido ao fortíssimo vento contra, chegamos em Las Cuevas, outro vilarejo, com apenas 10 habitantes. Dormimos no albergue Arco de Las Cuevas, a 3.112 metros de altitude.

No dia seguinte, logo cedo, pegamos as bikes descarregadas e iniciamos uma pedalada até o Cristo Redentor de los Andes, na antiga Rota 7, localizado no Paso de la Cumbre, a 3.834 metros. O Cristo foi esculpido pelo artista Argentino Mateo Alonso em 1904 com quatro toneladas de bronze dos canhões do Exército Andino. Com imensa falta de ar, pedalamos 2h 30min para vencer os 9 km de subida de chão batido, em meio a paredões de neve de mais de um metro e meio de altura.

A 200 metros do cume, duas máquinas abriam o caminho, retirando a neve que ainda restava sobre a estrada. No topo, a visão maravilhosa deste símbolo de amizade entre os chilenos e argentinos, um Cristo de 12 metros de altura, localizado exatamente sobre a fronteira entre os dois países.

Ficamos pouco tempo lá em cima, o suficiente para registrar o momento com algumas fotos. Ventava bastante e fazia muito frio, apesar de estarmos em pleno verão.

A travessia da Cordilheira dos Andes propriamente dita, deu-se pelo passo Caracoles, um túnel que faz fronteira com o Chile, onde encontram-se os famosos Caracoles Chilenos, uma estrada asfaltada e sinuosa já bem conhecida por ciclistas.

PARQUE NACIONAL LOS ARRAYNES

Localizada a 92 km de Bariloche, a cidade argentina de Vila la Angostura fica às margens do lago Nahuel Huapi, no parque Nacional de mesmo nome. Sua arquitetura é linda, com casas de madeira de estilo rústico.

Deixamos os alforjes no camping e saímos para conhecer o Parque Nacional de Los Arraynes, na Península de Quetrihue (um Parque dentro do Parque Nacional Nahuel Huapi), por um caminho sugerido para mountain bike. Pagamos as entradas para o Parque e logo no início tivemos que carregar as bikes por uma subida forte com muitas pedras e raízes de árvores. Contudo, quando voltamos a pedalar, pouco a pouco a trilha se tornava a melhor de nossas vidas.

Com um pequeno grau de dificuldade, pedalamos por entre flores exóticas, vegetação nativa e troncos de árvores seculares derrubadas pela ação do tempo. De vez em quando a trilha margeava o Lago Nahuel Huapi, onde de podia-se observar sua beleza por entre as árvores.

Ao final da trilha de 12 km chegamos ao Bosque de Arraynes. Estas árvores com troncos cor canela atingem 25 metros de altura e podem viver até 600 anos. Estacionamos as bikes no local indicado e caminhamos por uma trilha de madeira que passa por entre as árvores, construído para proteger o bosque e contribuir para sua preservação. Nossa volta foi ainda mais prazerosa. Quase não precisávamos pedalar, pois a trilha era uma leve descida e subimos sem perceber devido a beleza incomparável do lugar.

Esperamos que as nossas dicas ajudem a todos os cicloturistas que se aventuram a desbravar as terras argentinas e chilenas. Para mais informações e fotos visite o nosso site www.euronopedal.th.com.br

Estamos sempre disponíveis para contato através do nosso e-mail: euronopedal@th.com.br

Gostaríamos de agradecer a todos os que colaboraram para a realização desta expedição, em especial ao Consulado Geral da Argentina em Florianópolis pelo apoio desde o início da execução do nosso então projeto.

Cicloabracos de Sérgio e Gisella