Seis dias no Caminho da Fé

HomeCicloturismo

Seis dias no Caminho da Fé

Biker de Campinas conta como é pedalar sozinho até Aparecida do Norte

Texto e fotos: Marcelo Perine – marcelo.perine@intesy.com.br

No início de março de 2007 comprei uma bike nova na loja Alberto Bicicletas, em São Paulo. É uma Giant NRS3, uma bela bike que eu queria testá-la assim que tivesse oportunidade.

Minhas férias vieram no final do mês e pensei em fazer minha primeira cicloviagem, pois seria uma ótima oportunidade de colocar a bike para rodar.

Pesquisei alguns relatos e cicloviagens na internet e achei interessante o Caminho da Fé. É um percurso de aproximadamente 425 km, que começa em Tambaú e terminando em Aparecida do Norte, no interior paulista, passando por várias cidades no estado de São Paulo e Minas Gerais.

Não encontrei ninguém que pudesse me acompanhar nessa cicloviagem então resolvi ir sozinho. O dia do início da cicloviagem estava chegando e a apreensão, ansiedade, nervosismo começam a vir em mente. Toda hora eu pensava nos preparativos, roupa, ferramentas, roteiro…

Percorrer é o Caminho da Fé não é apenas pegar a bike e sair pedalando. É um caminho com muitas dificuldades: muitas subidas intermináveis, descidas com valas e pedras soltas, sol, chuva, mato, cobras, barro, falta de água, fome, enfim, é uma aventura que não da para encarar se não estiver com o mínimo de preparo.

Conversando com o Alberto da Alberto Bicicletas, fechamos uma parceria onde ele ofereceu vários itens que eu iria utilizar na viagem. O Alberto está sempre incentivando o mountain bike e com sua equipe está presente nos principais eventos do MTB.

Por todo o caminho existem as famosas setas amarelas indicando por onde seguir. Várias vezes pensei estar perdido e logo encontrava a seta. Na sede da AACF – Associação dos Amigos do Caminho da Fé – é entregue junto com a credencial uma planilha com as cidade e as quilometragens entre elas. Esta planilha ajuda no planejamento do quanto vai percorrer no dia.

Enquanto percorria o Caminho, a gente pensa sobre muitas coisas e é legal pedalar meditando, orando ou cada um chama como quiser. Em vários momentos críticos a concentração, a calma e o autocontrole ajudam muito a manter o controle da situação.

Iniciei o Caminho da Fé no dia 6 de abril e terminei no dia 12 de abril. No dia 6, eu fiz apenas Tambaú – Casa Branca, pois queria ficar em Casa Branca para ver os amigos e parentes, então fiz a vigem em 6 dias e algumas horas. Como eu estava de férias, pude fazer o Caminho mais tranqüilo sem muita preocupação.

DICAS

  • Não subestime a quantidade de água a ser bebida. Sempre que puder, encha a caramanhola e/ou beba água no local e sem exageros
  • Planeje bem como prender a mochila na bike. No primeiro dia tive que parar pelo menos quatro vezes até encontrar alguma forma de prendê-la e não ficar caindo ou balançando
  • Leve pouca bagagem, apenas o necessário
  • Cuidado com as pomadas ou recipientes desse tipo, uma que levei furou e esparramou no bolso que ela estava melecando tudo. Coloquei dentro de um saco plástico e resolvido o problema
  • Cuidado também com objetos levados dentro de caixas. Levei meu óculos dentro da caixa dele e com o balanço da bike o óculos ficou pulando dentro da caixa. Alem do barulho chato, deu uma detonada nas lentes
  • A bike tem que estar em dia e o ciclista precisa ter noções básicas de manutenção de bike. Leve câmeras de ar, remendos, bombas de encher pneu (teste antes) e ferramentas básicas
  • Revisar a bike antes da viagem

Sexta-feira 06/04/2007 – Campinas-Tambaú

No primeiro dia, meu plano era ir apenas até Casa Branca, pois tenho amigos e parentes que moram lá. A viagem começaria oficialmente no sábado, dia 7 de abril. Acordei as 6h30 e fui para a rodoviária pegar o ônibus às 7h30 de Campinas para Tambaú.

Quando cheguei em Tambaú, ao meio-dia e meia, tirei a bike e vi que tinha outra bike no bagageiro e fui falar com o dono dela. Ele tinha concluído o Caminho da Fé e voltou para buscar o carro, em seguida seguiria para o Rio de Janeiro. Ele deu varias dicas sobre o percurso e que gostou muito.

Em frente à igreja do Padre Donizetti, na verdade na lateral, fica a AACF – Associação dos Amigos do Caminho da Fé que é onde faz a credencial.

Sexta-feira 06/04/2007 – Tambaú–Casa Branca

Velocidade máxima: 49 km/h
Distância: 32 km
Tempo pedalando: 2h17min
Velocidade média: 14,4 km/h

Credencial feita, parei em uma padaria, comi um pão, tomei iogurte e segui para Casa Branca às 13h30.

Passei pelo Portão do Caminho da Fé e no começo já tem uma subidinha no canavial, odeio canavial. Em seguida entra em um horto florestal muito legal, cheio de single tracks. Fui à loucura, mas fica um pouco complicado ‘brincar’ com a bike pesada na traseira por causa das bagagens.

Cheguei na divisa de cidades e nesse ponto tinha alguns tocos próximos da cerca e do portal. Achei que fosse para bloquear a entrada e seguir pela trilha e foi o que fiz, mas como não encontrei as setinhas amarelas resolvi voltar no portal. Até que… reparando bem vi as setinhas nos tocos e percebi que eles formavam uma escadinha que passa por cima da cerca. Muito legal… se não tivesse que ter que fazer isso com a bike pesada. Continuei pedalando, algumas paradas para fotos e passeio por um túnel que por cima dele tem um trilho de tem e quando parei em uma arvore ali próximo escutei um barulho de trem e corri para ver e fotografar.

Mais alguns quilômetros e cheguei à igreja do Desterro, em Casa Branca, por volta das 16 h. A pousada do Desterro é simples, mas é boa, tem chuveiro quente e é bem arrumada. O único problema foi no café da manha que ficou a desejar.

Sábado 07/04/2007 – Casa Branca-Vargem Grande do Sul-São Roque da Fartura

Velocidade máxima: 84 km/h
Distância: 63,93 km
Tempo pedalando: 5h14min
Velocidade média: 12,8 km/h

Saí de Casa Branca por volta das 8 h, não muito feliz com o café da manhã oferecido na pousada. Passei pelo horto florestal, peguei o início da estrada de terra entre Casa Branca e Itobí, entrei à direita e passei próximo do clube da AABB. Entrei numa fazenda e segui margeando a estrada de asfalto. Ao sair da fazenda, tem mais 6 km de asfalto sentido Vargem Grande do Sul. Nessa hora encontrei com um grupo a cavalo e uma charrete. Eles são de São João da Boa Vista, foram até Tambaú, dormiram no mato acampados e estavam voltando para São João. Dali para frente, continuei sem muito que contar.

Chegando em Vargem Grande, carimbei a credencial, fui até uma padaria para um lanche rápido e segui para São Roque da Fartura. Apesar de ter comido algo eu me senti muito mal alimentado.

Peguei uma pequena estrada de asfalto, atravessei a pista que vai para São Roque e entrei em uma estrada de terra horrível! Por essa estrada de terra passam muitos caminhões, tratores, carros e com o tempo seco eles levantavam muita poeira.

Algumas subidas e parei para bater papo com um pessoal de Ribeirão Preto. Eles estavam fazendo um trecho de carro e já fizeram o Caminho da Fé a pé três vezes. Disseram-me que logo começariam as subidas para São Roque. Eles iriam parar na pousada da Dona Cidinha, que fica um pouco mais à frente, e recomendaram eu almoçar na pousada e depois continuar, pois eram por volta de 11 h da manha e tinha bastante chão pela frente com muitas, mas muitas subidas.

Quando voltei pedalar, comecei a subir a serra e peguei uma subida onde tive que descer e empurrar, pois é muito íngreme e tem muitas pedras soltas. No final dessa subida de cerca de 2 km, passei próximo da pousada da Dona Cidinha e, como eu tinha comido uma barra de cereal, eu estava sem fome e então segui viagem.

Começou uma seqüência de muitas subidas e as poucas descidas eram curtas. Não tinha muito sol, mas estava bastante calor e o corpo já começava sentir cansaço. Finalmente cheguei em um trecho de asfalto e pensei que fosse até São Roque mas a alegria durou pouco, seguindo as setinhas amarelas entrei novamente para a trilha.

Nessa hora a coisa complicou bastante, pois eram mais de uma hora da tarde e a fome bateu forte. Faltavam uns 10 km para chegar em São Roque mas eu não tinha mais forças para pedalar. Pedalava 50 metros e parava para descansar.

Encontrei um grupo de peregrinos que estavam fazendo um Miojo na beira da estrada debaixo de uma sombra. Parei para bater um papo e descansar um pouco. Despedi-me do pessoal e continuei pedalando com muitas paradas e quando pedalava estava em um ritmo lento. O calor também castigava bastante.

Finalmente cheguei ao asfalto, na placa de divisão de municípios entre Vargem Grande do Sul e São Roque da Fartura. Seguindo o asfalto, tem uma descida que bati meu recorde de velocidade com 84 km/h. Chegando em São Roque, fui para a pousada da Dona Cida por volta das 15h30. Minha panturrilha esquerda doeu bastante nesse dia e eu começava ficar preocupado com isso.

Exausto, fiz alongamento, lavei mãos e rosto e fui almoçar. Comi muito! A comida da Dona Cida é realmente muito boa. Sem falar do queijo fresco com doce de abóbora, quase acabei com tudo. Depois do almoço, sentei em uma poltrona e fiquei ali admirando a paisagem que é muito legal. Caí no sono. Depois de quase uma hora dormindo sentado eu fui para a pousada. Minutos depois caiu neblina densa no morro, eram 17h e ficou tudo escuro.

Chegaram também na pousada três pessoas muito simpáticas (Nadir, Vera e Aninha). Conversamos bastante e contaram algumas das aventuras pelo Caminho da Fé. Eles já fizeram o caminho varias vezes. O Nadir e sua esposa Vera fazem um trabalho muito legal. Eles pegam o carro, coloca alimentos, água, suco, enfim, e levam para as pessoas que estão fazendo o Caminho da Fé. Como eles conhecem os trechos críticos, eles encontram os peregrinos e oferecem os mantimentos.

Domingo 08/04/2007 – São Roque da Fartura-Águas da Prata-Andradas

Saí de São Roque por volta das 8 h. Bem alimentado e disposto, segui para Águas da Prata com o tempo fechado e o chão da estrada bastante molhado devido à chuva do dia anterior. Muitas descidas fortes, pedras soltas e plantações de café foram os destaques deste trecho. Ouvi algumas pessoas dizerem que esse é um dos locais mais perigosos do Caminho.

Certa hora grudou capim e barro nos pneus deixando a bike pesada e sem condições de pedalar, então parei varias vezes para limpar os pneus, tirar o capim das rodas e da relação. Duas horas depois eu estava chegando em Águas da Prata.

Dando uma volta próximo do balneário, encontrei um grupo de ciclistas que estavam indo para o Pico do Gavião, o mesmo rumo que eu também estava indo, peguei uma ‘carona’ com o pessoal e seguimos subida acima.

De longe dava para ver o Pico do Gavião, com algumas asas-delta e paragliders voando mesmo com o tempo não muito bom, fechado e prontinho para chover. Subindo, comecei a sentir novamente a panturrilha. Tava parecendo que ia travar com câimbra. Revezei pedalar em pé e sentado para tentar mudar a pedalada e aliviar um pouco a dor. Em uma pousadinha o grupo ficou para pegar água e porque tomariam outro rumo, despedi-me de todos e segui meu caminho. Segui no meu ritmo, a panturrilha deu uma aliviada na dor, e deu para continuar numa boa.

Cheguei num horto florestal muito show, um lugar que dava vontade de sentar, tomar uma água e ficar ali o resto do dia. Assim que saí do horto vi a chuva que estava para cair e logo um chuvisqueiro me pegou. Parei na pousada Pico do Gavião, pois eu não queria me molhar e muito menos a bagagem. Aproveitei para fazer alongamentos na panturrilha e pegar um pouco de água.

O chuvisqueiro passou e, na seqüência, peguei 600 metros de subida leve até chegar no asfalto. Era uma serra e, desde a hora que cheguei no asfalto, até Andradas, eu não dei uma pedalada. Foi uma maravilha!

A vista era muito show, mas não parei para tirar fotos porque eu tava curtindo demais a descida.

Cheguei em Andradas por volta das 13h30, debaixo de chuvisqueiro. Almocei em um restaurante muito bom (infelizmente não lembro o nome) próximo do hotel e fui para o Palace Hotel preocupado com minha panturrilha.

Conversando com algumas pessoas, me disseram que o Caminho correto não era eu pegar o asfalto e sim descer pela trilha. Acho que foi melhor como eu fiz, indo pelo asfalto, pois a panturrilha já incomodava muito.

À noite saí para comer pizza e comprar anti-inflamatório. Nesse trecho, eu não tenho os dados de quilometragem pois deu problema nas descidas esburacadas de Águas da Prata.

Segunda-feira 09/04/2007 – Andradas-Serra dos Lima-Barra-Crisólia-Ouro Fino-Inconfidentes-Borda da Mata

Saí de Andradas com o objetivo de chegar em Inconfidentes e sabia que o dia não seria fácil, pois amanheceu chuvoso e eu teria que encarar a Serra dos Lima. Embrulhei a bagagem em um saco plástico coloquei-a no bagageiro. Sai do hotel quase às 8h30, pois fiquei esperando a chuva dar uma brecha.

Já na estrada de terra, após ter pedalado 5 km, começou a chover forte. Pedalei quase uma hora debaixo de chuva até que finalmente ela parou. Estava frio e a bike estava pesada e a estrada com muito barro e poças de água.

Alguns quilômetros adiante, havia uma placa indicando o início da subida da Serra dos Lima, com aproximadamente 2 km. Sobe… pedala… empurra… Já não sentia mais frio e minha roupa estava quase seca. O visual subindo a serra é muito bonito, o que ajudava a ‘disfarçar’ a subideira, principalmente porque as nuvens da chuva estavam bem baixas, dando um visual bem legal.

A relação da bike estava muito ruim, fazendo barulho, cheia de terra e sem óleo, me obrigando a fazer uma rápida manutenção. Bike pronta, segui viagem.

Peguei uma descida muito forte até Barra e segui para Crisólia, onde parei novamente para tentar ajustar a relação da bike e almoçar no Bar da Zéti. Manutenção feita, novamente e segui para Ouro Fino chegando por volta das 15h.

Passei rapidamente por Ouro Fino, pois eu não queria perder o ritmo que eu estava pedalando e segui para Inconfidentes, a 8 km dali.

Chegando em Inconfidentes, eu já estava bastante cansado e panturrilha dolorida, apesar dos anti-inflamatórios que tomei na noite anterior. A relação da bike também estava apresentando bastante problemas, mas ainda assim resolvi ir ate Borda da Mata, que seriam mais 16 km.

Peguei uma subida não muito longa mas talvez pelo cansaço ela pareceu ser bem pior. Chegando no topo da subida, para minha surpresa, meu pneu traseiro estava murcho. Eram 17 h e começou bater o nervosismo, cansaço e o psicológico nessa hora vai pro beleléu se não tiver auto-controle. Calmamente tirei a roda da bike, remendei a câmera, enfim, fiz todo ou quase todo procedimento para troca de pneu. Só esqueci de uma coisa, na hora da pressa eu esqueci de verificar se o que furou a câmera ainda estava no fincado no pneu. Terminei de montar a roda, sentei na bike e o pneu murcho novamente. Grite meia dúzia de palavrões e dei risada. Novamente tirei a roda e dessa vez eu tirei o espinho cravado no pneu antes de montar a roda com a câmera.

Bike pronta, segui novamente para Borda da Mata. Poucos quilômetros mais à frente, cheguei na placa de divisa de municípios de Inconfidentes e Bordas da Mata. Peguei bastante descidas e algumas subidas leves. Exausto, cheguei em Borda às 19 horas.

Devo ter rodado uns 70 km nesse dia.

Terça-feira 10/04/2007 – Borda da Mata-Tocos do Moji-Estiva

Distância: 39 km
Tempo pedalando: 3h51min
Velocidade média: 10 km/h

O objetivo nesse dia era pedalar pouco, pois eu ainda sentia o cansaço do dia anterior e também porque para chegar em Tocos do Mogi tem muita serra. Fiz manutenção na bike novamente antes de sair e dessa vez pinguei óleo de motor de carro na relação. Foi um milagre! Não deu mais problemas.

O pessoal da pousada não me acordou no horário que pedi e acabei atrasando bastante para sair, eram quase 10 h.

Peguei a estrada e logo na primeira descida furou o pneu novamente. Provavelmente porque eu não enchi o suficiente e deu o que chamamos de snake bite (picada de cobra). Snake bite é quando bate com a roda muito forte em algum buraco e a câmera é furada pelo aro fazendo dois pequenos furos.

Depois de muitas subidas íngremes, cheguei a Tocos do Mogi e fui comer pastel no Bar do Zé Bastião. Dei uma descansada e segui para Estiva, foi quando passei por um pessoal e um cara gritou bem animador “Já, já começa o sobe desce novamente”. E ele tinha razão.

O dia estava muito quente e por isso pedalar nas subidas estava ficando complicado então diminui bastante o ritmo. Estiva não estava distante e eu não tinha pressa de chegar. Nas subidas intermináveis eu pensava em chegar em Campinas, ir na melhor churrascaria da cidade e comer uma picanha deliciosa.

Em alguns trechos a estrada é pavimentada para que os carros possam subir, tamanha a inclinação da subida. Empurrando bike morro acima encontrei com um filhote de cobra se esquentando no sol. Mais alguns quilômetros pedalando e cheguei em Estiva por volta das 16 h. Minha panturrilha ainda doía um pouco, mas já estava apresentando melhoras por causa do anti-inflamatório.

Quarta-feira 11/04/2007 – Estiva-Consolação-Paraisópolis-Luminosa-Campista

Distância: 83,07 km
Tempo pedalando: 7h59min
Velocidade média: 10,4 km/h

Este foi o dia de ralação! Comecei a pedalada bem cedo porque sabia que o dia seria longo com muita serra pela frente. O sol ainda estava bem fraco e tinha muita neblina impossibilitando ver o horizonte.

Comecei em um ritmo bom, mas logo tive que encarar a Serra do Caçador. Pedala… empurra… fotos… e assim venci a serra e logo cheguei em Consolação. De consolação a Paraisópolis foi bem Luminosa foi bem tranqüilo e, como estava muito calor, eu não via a hora de tomar um sorvetão. Depois do almoço fui ate a praça, comprei um pote enorme de sorvete e mandei ver.

Por volta das 14 h, e ainda calor, segui para Luminosa e chegando lá conversei com a moça da pousada e ela disse que não faltava muito até chegar em Campista, mas o caminho seria bastante puxado por causa da Serra da Mantiqueira. Como ainda estava no meio da tarde, decidi seguir até Campista.

Peguei um pouco de estrada plana e entrei em uma fazenda. E aí a coisa começou ficar mais séria e preocupante por causa das subidas. Estava cansado de pedalar o dia todo, já eram mais de 16 h e eu não estava nem perto de chegar em Campista. E o pior é que nesse trecho não tem casas, nem pessoas, nada. Apenas mato e subida, muita subida.

Minha sapatilha começou descolar a sola do pé direito, o que também já me causava preocupação, pois como uso taquinho do tipo Egg Beater, seria mais difícil pedalar sem sapatilha.

Empurra, empurra, come paçoca, tira fotos, toma água e empurra, empurra… Vi que Luminosa ficou lá embaixo e cada vez mais distante.

Passei por uma fazenda, vejo alguns homens a cavalo, perguntei se estou no final e me apontam para o próximo morro. No começo da próxima subida o estresse do corpo pesou forte e já não sentia fome, sede, nem dores, mas sim exaustão. Pedalava 50 metros e descia da bike para descansar e cada parada para descanso eu pensava em chegar em Campista. Eu tentava me concentrar e manter a calma.

O sol baixou totalmente e finalmente terminei esse trecho de subidas. Atravessei um pequeno horto florestal no escuro e cheguei no asfalto, que me levaria para Campista. O asfalto também tem subida, mas bem mais leve. Uma caminhonete quase me atropela fazendo uma curva, talvez o motorista não tenha me visto, pois já estava bem escuro.

Cheguei em um trecho de descida e não enxergava mais nada, apenas o breu do asfalto e a faixa branca na lateral. Avistei uma placa com a seta amarela apontando para a esquerda e segui para onde ela indicaria. Abri o portão, segui o caminho, vi algumas casas de madeira e pensei: “Pra onde vai esse caminho?”.

Quando cheguei na pousada, eu entendi que viraram a seta que era para descer o asfalto para induzir os peregrinos a entrarem na pousada. Como eu já estava no meu limite, estava completamente noite e frio, não me fiz de rogado e logo pedi um quarto. Tomei um banho bem quente, jantei muito bem e finalmente deitei para descansar.

Quinta-feira 12/04/2007 – Campos do Jordão-Piracuama-Pindamonhangaba-Roseira-Aparecida do Norte

Velocidade máxima: 69 km/h
Distância: 100,23 km
Tempo pedalando: 5h17min
Velocidade média: 18,9 km/h

Esse dia infelizmente não tem muito o que relatar. Praticamente só teve asfalto e eu não gosto.

Tomei café da manhã e segui para Campos do Jordão por volta das 9 h, pois quis dormir mais um pouco. Na cama quentinha, eu ainda sentia o desgaste do dia anterior.

Saí com frio e desci a serra até a divisa de município São Bento do Sapucaí e Campos do Jordão, e caí na trilha novamente. Ali começaram algumas subidas pequenas, passei por alguns bairros e logo cheguei em Campos do Jordão.

A descida da serra de Campos é muito legal, dá uma ou outra pedalada. Cheguei na entrada para Pindamonhangaba debaixo de sol muito forte e chegando na cidade parei para tomar água de coco, que um senhor vende na porta de casa. Recomendo, pois estava geladíssima, além da simpatia da pessoa.

Segui viagem e finalmente cheguei em Aparecida.

A igreja estava toda em reformas por causa da vinda do Papa. Até os bancos foram retirados de dentro da igreja.

Uma foto aqui e outra ali e segui para a rodoviária. Meu ônibus sairia às 17h10 e ainda eram 16 h. Sentei em um barzinho e tomei duas cervejinhas. Foi o bastante para eu viajar de volta para casa nas alturas…