No caminho do Rali Paris-Dakar

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No caminho do Rali Paris-Dakar

Confira o relato de quem percorreu mais de 7 mil km em 10 semanas na rota do Paris-Dakar

Todo mundo já ouviu falar do famoso Rali Paris-Dakar, agora chamado apenas de Rali Dakar. Durante muitos anos, todo mês de janeiro, desde 1979, era dada a largada do rali com destino a Dakar, capital do Senegal. São carros, motos, quadriciclos e também caminhões. A edição 2007 do rali de carros começa no dia 6 de janeiro.

Desde os tempos em que a prova tinha início na Europa e percorria boa parte do continente africano, a corrida sempre atraiu ciclistas, que percorriam por própria conta e risco, a enorme distância da competição. No ano passado, a Bike-Dreams, uma empresa holandesa decidiu organizar a primeira edição do Paris-Dakar By Bike, com largada sob a Torre Eiffel, em Paris, e chegada na capital do Senegal, Dakar.

Acompanhe abaixo o relato de Rob van der Geest da Bike-Dreams.

Texto: Rob van der Geest – Bike-Dreams
Fotos: Divulgação | Tradução livre de Marcos AdamiBikemagazine

Mais de 7.200 km de bicicleta em 10 semanas. Uma jornada por culturas fascinantes, paisagens de tirar o fôlego e climas extremos. Pedalamos das passarelas de Paris até as pequenas cabanas sob os baobás* no Senegal. Sol escaldante, morros, dunas de areias, rodovias esburacadas, chuva torrencial, noites no deserto com temperaturas congelantes, montanhas íngremes, ventos que sopravam de todas as direções, cascalhos macios como seda, intermináveis retas, descidas espetaculares, desertos infinitos. Enfrentamos tudo.

Um grupo de 27 pessoas de 11 países diferentes alinharam numa manhã de domingo ensolarado sob a Torre Eiffel. Desde então, um monte de coisas aconteceu. Saímos tranqüilamente de Paris e entramos no ritmo de pedalar, comer e dormir. Logo na primeira semana, durante sete dias seguidos, pegamos muitas subidas. Tivemos dias de descanso em Gorges du Tarn e em Carcassonne.

Mais tarde, as subidas se transformaram em montanhas e as montanhas se chamavam Pirineus, mais especificamente Andorra. Era o ponto mais alto de nossa viagem, mas não para todo mundo, já que alguns encontraram um atalho escuro num túnel e pegaram carona num caminhão. As pessoas que passaram o topo do Port D’Envalira (a 2.408 metros) dizem que enfrentaram não o ponto mais alto, mas também o mais frio de nossa viagem.

Um dia depois, eles tiveram que mudar de opinião imediatamente. Foi um dia marcante. Um dia com neblina, nuvens, chuva e frio no Col. Del Cantó, uma passagem a mais de 1.700 metros de altitude. O downhill foi terrivelmente frio e todo mundo, exceto os caras mais rápidos, terminaram o dia num bar espanhol para tentar se aquecer novamente com um café espresso, e com todo mundo tremendo de frio, o café foi logo terminado. Duas horas mais tarde, nós conseguimos conversar normalmente de novo, sem tremer, e pudemos voltar à estrada para Ager, onde teríamos nosso merecido descanso.

A Espanha foi difícil, com suas noites e manhãs frias, tardes quentes, rodovias tranqüilas, subidas e montanhas sem fim e, de vez em quando, uma suave brisa nos refrescava o rosto. Mas a Espanha também ofereceu vistas espetaculares, rochedos fascinantes e cidades históricas como Ceuta, Ronda e da Alhambra, em Granada, maravilha da cultura Moura.

Os caras fortes, como Little Rob, Big Rob e Erik – da equipe Hawaii Express, dos Balcãs, passaram a maior parte do tempo juntos. Às vezes havia um ataque ou algum deles pegava a estrada errada. A maioria dos participantes conseguia terminar a etapa todos os dias. Esse grupo tomava café, Coca ou sorvete ao longo da estrada e continuava no seu próprio ritmo até o acampamento ornamentado com as bandeiras da Bike-Dreams.

Na África, não foi apenas a paisagem que mudou, mas também a cultura. Nós não tínhamos que tomar cuidado só com os carros, mas também com os burros, camelos, macacos e cabras, com os quais tínhamos que dividir a estrada. A medina* com os labirintos de becos estreitos, pequenos quarteirões e ruas imersas num mundo de cheiros, aromas, cores e sabores, nos deu a sensação de que tínhamos entrado em um outro mundo. Passamos a noite na Casbah* de Gorge du Ziz, onde o cuscuz foi servido ao som de música com percussão Beribéri, típica do Marrocos.

Algumas pessoas se consultaram com nossa médica Franziska, mas não havia nada para se preocupar. Escalamos o Col du Zad, no Meio Atlas e, mais tarde, o difícil Alto Atlas, com as passagens do Tizi-n-Tichka e do Tizi-n-Test.

Todas as passagens estavam a altitudes superiores aos 2 mil metros. Quase todo mundo pedalou todos os dias sem nenhum problema. Depois de alcançarmos a costa do Atlântico, em Sidi Ifni, a viagem se tornou ainda mais aventureira. As distâncias a serem pedaladas não eram mais previamente determinadas e nós acampamos em lugares lindos ao longo da costa. Um dia ao pé de uma duna de areia enorme, noutro, ao lado de um gigantesco platô rochoso que lentamente entrava literalmente dentro do oceano, ou numa vasta planície de areia no meio do Saara.

As condições da estrada e dos ventos mudavam todos os dias no Saara Ocidental, mas as temperaturas se tornaram incrivelmente elevadas. O consumo de água atingiu os níveis máximos e o calor estava quase insuportável.

Mais adiante, enfrentamos algumas tempestades de areia e até mesmo um dia chuvoso. Mas os ciclistas persistiram e não desanimaram. Eles queriam ir até o fim, em Dakar, sem perder um único centímetro do percurso.

Definitivamente, não era fácil, mas suas ambições eram mais fortes que o clima e que as condições das rodovias do Saara. Alguns dos participantes ainda estavam competindo e terminaram o trecho do dia – de 160 km – em quatro horas. Outros precisaram de mais tempo para completar a etapa depois, de tomar uma Coca, e nem por isso o esforço deles foi menor que os ciclistas mais rápidos.

Na última semana, na chamada “África Negra”, no Sul do Saara, as distâncias das etapas se tornaram menores e as temperaturas também. Os ciclistas relaxaram mais com as cabanas, pequenas lojas e pessoas que ressurgiram ao lado da estrada. Depois de um dia interessante em meio a verdes pântanos com lagartos, crocodilos e porcos selvagens, entramos finalmente no Senegal. Pedalamos os últimos dias nas savanas com enormes baobás, antes de terminarmos em Dakar, a maior e mais frenética cidade da África Ocidental.

A forte dupla da Estônia – Priit Salumäe e Margus Püvi – terminou na primeira e segunda colocação, respectivamente. O bravo holandês Rob Van Den Heuvel ficou em terceiro.

No final das contas, todos os participantes foram vencedores, desde o jovem Douglas Brain, de 23 anos, até Ruud Veken, de 62 anos.

Vale lembrar a ciclista holandesa Hanneke Breebaart, que também pedalou todos os dias, do começo até o final. Todos os participantes puderam olhar para trás com satisfação e muito orgulhos por tudo o que conseguiram realizar entre Paris e Dakar.

MAPA DO PERCURSO

GLOSSÁRIO

  • Baobá – Gigantesca árvore típica das savanas africanas, de tronco excessivamente espesso e rico em reservas de água;
  • Casbah – pequenas vilas muradas com as construções feitas de areia;
  • Medina – parte antiga das cidades árabes. Originalmente, o termo se refere à cidade de Medina, na Arábia Saudita.