Raio quebrado

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Raio quebrado

Aprenda a substituir [ou improvisar] na hora da quebra de um raio

Por Marcos Adami

Bem no meio da trilha, você ouve um plec! Continua, achando que não houve nada, mas segundos depois nota um comportamento estranho na bike, como se a roda estivesse desalinhada? Pois é, quebrou um raio meu amigo. Pare imediatamente e vamos dar um jeito nisso.

Klaus Poloni (klauspoloni@bikerider.com), o lendário construtor de quadros em cromo nos ensina hoje como se faz para substituir o raio quebrado e como improvisar, caso você não tenha um raio de reserva.

Convém levar sempre com você pelo menos uma chave de raios e um raio correto na medida da roda de sua bike e um niple. Se preferir deixe este raio reserva juntamente com o niple, fixado em algum lugar (o tubo vertical é um bom lugar) no quadro de sua bike com fita adesiva.

Antes de explicar em detalhes como se faz a substituição, é bom entender alguns princípios, e saber um pouco como é feita a distribuição de forças em uma roda raiada.

INVENÇÃO ANTIGA

É uma das construções mecânicas feitas pelo homem mais antigas e resistentes que se conhece. A roda raiada de bicicletas, que conhecemos hoje, foi inventada no século passado.
Uma roda raiada de bicicleta suporta trezentas vezes o seu próprio peso.

Quando bem montada, a tensão contida em uma roda é de meia tonelada, e lateralmente ela suporta uma força de até 50 quilos.

Os raios da direita da flange de um cubo puxam o aro para a direita e os raios da esquerda puxam para a esquerda. Esse conceito é muito importante na hora de alinhar a roda. O conceito esquerda e direita, é sempre com o ciclista montado na bike.

Girando a chave de raios no sentido anti-horário você afrouxa o raio. No sentido horário você o aperta. Segurando a chave e apoiando a mão no raio para não girar do lado errado.

No caso de quebra, pare imediatamente a bike, pois teimar em pedalar vai detonar os outros raios, correndo o risco de fica a pé definitivamente.

Em 90% dos casos o raio se quebra no cotovelo junto a flange, onde ele é mais exigido. N maioria dos casos o raio da roda traseira é que se quebra, pois ela é responsável pela tração. A má notícia é a seguinte:

Na maioria das vezes o raio da roda traseira vai se quebrar do lado direito (lado da catraca) já que é onde passa toda a força da pedalada. Quebrando do lado direito, você não vai conseguir substituí-lo sem retirar a catraca, operação que exige ferramental próprio e perícia.

REPARO DE EMERGÊNCIA

Se você é um sortudo, seu raio quebrou na roda dianteira ou do lado esquerdo da roda traseira. Se você é um garoto esperto e traz com você um raio reserva, vá para o passo número 1, caso contrário vá para o passo 7.

1 – Identifique qual raio quebrou. Se for um raio traseiro do lado da catraca, vá para o passo 7. Vire sua bike de ponta cabeça, com o selim e guidão apoiados no chão. Se preferir não precisa nem mesmo retirar a roda da bike.

2 – Retire o raio da roda. Como? Basta desparafusar do niple. Se estiver um pouco duro, dobre-o e faça uma uma argola ou uma pega para poder girá-lo ao mesmo tempo em que você trava o niple com a chave de raios. Cuidado para não danificar o niple, pois você vai utilizar o mesmo para não precisar desmontar o pneu do aro. Se seu raio quebrou junto ao niple, você pode ter dificuldades para retirar o raio do niple. Nesse caso vá para o passo número 11.

3 – Coloque o raio reserva, passando a ponta que tem a rosca, pelo orifício da flange. Atenção para passar e cruzar corretamente o raio, observe como estão os raios vizinhos e faça igual.

4 – Para encaixar a ponta rosqueada do raio no niple, enverque o raio para que ele possa entrar dentro do niple.

5 – Com o raio já dentro do niple, comece a apertar o niple. Isso vai fazer com que o raio seja puxado e imediatamente você vai notar que o aro começa a endireitar.

Aqui vale aquele conceito: Com a chave de raios na sua mão, e o raio apoiado na palma de sua mão você vai girar a chave no sentido anti-horário para apertar o raio e conseqüentemente puxar o aro para a posição correta.

6 – Deixe a roda girar livremente e tome como base as sapatas de freio para ter noção do alinhamento da roda. Assim que perceber que a roda ficou alinhada, parabéns! Continue sua pedalada ou, se preferir, passe em outra ocasião em uma oficina para conferir o alinhamento.

Caso você não tenha um raio reserva ou o raio que se quebrou seja traseiro e do lado da catraca, paciência. O jeito é dar uma alinhadinha na roda, para tentar compensar as forças que se desequilibraram.

Lembrando os conceitos: Se um raio da direita quebrou, o aro vai entortar imediatamente para a esquerda. Cabe a você, suas habilidades de McGiver e à sua chave de raios trazê-lo de novo para o centro.

Não vai ficar alinhadinho, mas vai dar um equilíbrio nas tensões da roda e permitir que você volte para casa, com cuidado. Outros raios poderão se quebrar durante a pedalada de volta, portanto vá com cautela.

7 – Vire a bike com as rodas para cima, apoiando no guidão e no selim. Retire o raio quebrado sempre que possível, ou prenda-o com fita adesiva, pedaço de fio, enforca-gato ou enrole-o em outro raio. Também funciona.

8 – Fique com a cabeça fria e você vai sair com sucesso desta! Pense nisso: Os raios da direita puxam o aro para a direita e vice-versa. Se um raio da direita se quebra, você deve soltar os 2 raios vizinhos da esquerda e apertar os 2 vizinhos mais próximos da direita, para que a roda se desloque para a direita, entrando em alinhamento.

9 – Ao apertar ou soltar o raio faça pequenos movimentos com a chave de raios de ¼ de volta. Vá revezando, soltando e apertando os raios vizinhos. Lentamente o aro vai se endireitar o suficiente para você seguir viagem.

10 – Use as sapatas de freio como referência para o alinhamento.

11 – No caso do raio quebrar próximo ao niple, ou o próprio niple se quebrar, você precisará desmontar o pneu. Desloque a cinta do aro e retire o niple. Basta colocar um novo, aproveitando para encaixar com mais facilidade o niple na rosca do aro e pronto! Proceda como no passo 5.

12 – Nesses casos em que você não substituiu o raio, a roda está enfraquecida e precisa de cuidados especiais: Use apenas marchas leves para não forçar, evite buracos, pedras e devagar nas ondulações do terreno, escale devagar e não pedale em pé nas subidas.

DICAS DO KLAUS POLONI

Klaus Poloni alerta: Rodas que vivem quebrando raio com frequência têm algo de errado. Pode ser roda mal montada, material de qualidade ruim, mau uso ou mesmo uma roda que já tem seus raios com fadiga e devem ser substituídos. Todos!

Procure uma boa oficina com um bom mecânico para ele dar uma olhada.

“No Brasil, poucas pessoas sabem montar corretamente uma roda de bicicleta e até mesmo algumas empresas líderes no mercado nacional de bicicletas montam suas rodas de forma errada”, afirma Klaus.

Por fim Klaus ainda filosofa.

“Uma roda deve ser como uma boa esposa: não basta ser bonita e cheia de atrativos estéticos, tem que ser boa e equilibrada. Nem tudo o que é belo é o ideal”. Ele diz isso se referindo às novas invenções, novos materiais e lançamentos desenfreados da indústria ciclística. Ele adverte: “Na hora de comprar uma roda que está na moda na Europa e nos Estados Unidos, pense bem se quando você tiver problemas com ela, você vai encontrar partes de reposição”. “Não são poucos gramas a menos que vão fazer diferença grande em sua performance, o melhor é optar pela praticidade” explica Klaus Poloni.

DICAS FINAIS

Poloni ainda dá outras dicas:

  • Nem tudo o que é bom para o Lance Armstrong ou para o Rubens Donizete, é bom para você. Eles são profissionais patrocinados por grandes empresas e portanto têm como substituir peças quando elas se quebram
  • Não trabalhe com o câmbio cruzado para não forçar a roda e a transmissão
  • Não retire o disco protetor de plástico que vai entre a catraca e a roda. No caso da corrente raspar no raio, ele será prejudicado e terá vida mais curta.

TIPOS DE ENRAIAÇÃO

Cruzado a três: Cada raio cruza com outros três raios. É o mais utilizado nas bicicletas ao redor do mundo e é também o mais resistente esquema de enraiação. A área de contato dos raios com a flange é grande. Obrigatoriamente usado atrás do lado direito e também em rodas dianteiras com montagem de freio a disco.

Cruzado a dois: Tem efeito estético mais bonito. Não aconselhado para a roda traseira. Leva esse nome pois um raio cruza apenas com outros dois raios.

Radial: O raio sai direto da flange para o aro, não cruzando com nenhum outro raio. Efeito estético leve e bonito. Apenas para a roda dianteira.

Os cubos podem ser 12, 16, 24, 28, 32, 36 e 48 furos. Quanto mais furos, mais raios, mais resistente e mais pesada é uma roda.

Os raios podem ser de aço, aço inox e titânio e mais recentemente fibras flexíveis de kevlar e similares. Existem também raios que têm o seu formato achatado, buscando uma aerodinâmica (discutível, segundo Klaus) melhor.

E os aros podem ser de aço, aço inox, alumínio, cerâmica, fibra de carbono e por aí vai…