Restauração de bicicletas antigas

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Restauração de bicicletas antigas

Especialista em restauração dá dicas de como identificar e datar uma bicicleta antiga

Colaboração de Marcelo Afornali

Cena 1: Você está passeando por um mercado de pulgas e se depara com algo que algum dia foi uma bicicleta. A máquina do tempo da sua mente é ligada automaticamente e você vai parar em algum ponto do seu passado onde aquela bicicleta era nova e reluzente. O mercador que está expondo a “traquitana” te fala o preço – uma pechincha! E você leva para casa os restos mortais para trazê-los de volta à vida. Cai o pano.

Bicicleta alemã AGB - Amandus Glaser Berlin, modelo Super Elastic-Rad, de 1933

Cena 2: Morreu aquele tio querido daquela cidadezinha onde você passava suas férias na infância. Você era apaixonado pela bicicleta dele. Você telefona para a tia viúva para prestar as condolências. Ela está conformada pois o tio teve o merecido descanso. Ah! Lembra-se ela: Antes de morrer, ele disse que a bicicleta que você tanto gostava, deverá ser entregue pra você… Cai o pano.

Cena 3: Você adora antigüidades. Sua casa é decorada com dúzias de objetos antigos. Sua pressão arterial anda meio descontrolada e o colesterol idem. Aí vem a sentença do cardiologista. Sua vida sedentária vai te matar. Remédio urgente: atividade física.
Mal hein cara?!? Aí você lembra que gostava de pedalar quando garoto. Vamos unir o útil ao agradável.

Primeiro uma bicicleta moderna para começar a atividade física, mas resolve achar uma bicicleta antiga para restaurar e dar vazão à sua paixão por antigüidades… Cai o pano…

Se usarmos a imaginação, poderemos criar dúzias de cenas como essas, que justificam a paixão que muitos têm por bicicletas antigas. Seja qual for a forma de aquisição, é necessário definir qual será o processo renovador utilizado. Temos três possibilidades:

No passado eram comuns coroas personalizadas de cada marca, na foto uma Phillips

REFORMA: Processo pelo qual a bicicleta voltará a rodar. Para tanto, toda e qualquer adaptação ou utilização de peças modernas é válida e aceita. A repintura pode ser feita com qualquer tipo de tinta em qualquer cor sem restrições;

RECUPERAÇÃO: Aqui começa o compromisso com a originalidade. A substituição de peças por tecnologias diferentes, não é aceita. Se for necessária a substituição de um componente, o novo deve ser de preferência idêntico em tecnologia, forma e acabamento em relação ao original. A repintura deve sempre que possível conservar a cor original.

RESTAURAÇÃO: É um processo difícil e demorado, pois só são aceitos componentes de época. Um simples cubo fabricado posteriormente, mesmo que idêntico em tecnologia, forma e acabamento, descaracteriza a restauração. A repintura deve obrigatoriamente utilizar a mesma cor original e o mesmo tipo de tinta que se usava no modelo original.

Definido o processo, deveremos localizar a bicicleta em marca, modelo, espaço e tempo. Muitas vezes, a marca está visível. Quando o fabricante ainda existe, tudo fica mais fácil, pois podemos eventualmente contar com a ajuda do respectivo serviço de atendimento ao consumidor no processo de identificação e datação.

Selim inglês da marca Brooks

As dificuldades começam porém, quando não existem marcas ou ainda a marca identificada pertence a um fabricante que deixou de existir.

A identificação e datação, devem ser feitas sempre antes da desmontagem da bicicleta. A primeira providência, é fotografar a bicicleta. Se você só puder fazer uma única foto, prefira uma lateral direita, que é o lado da corrente e da coroa.

Idealmente, faça três fotografias: uma lateral direita, uma lateral esquerda e uma em perspectiva panorâmica.

Seja observador e não despreze nenhum detalhe, se algum detalhe chamar a atenção, fotografe-o tão perto quanto sua máquina permitir.

Selins são importantes elementos de reconhecimento. As coroas também, visto que era prática comum no passado os fabricantes terem modelos exclusivos de desenho de coroas.

Suporte de farol

Outro componente importante que pode auxiliar na identificação, é o suporte de farol, uma chapa em “L” que muitos fabricantes moldavam com padrões específicos.

Quadros antigos na quase totalidade, eram “cachimbados”, isto é, utilizavam uma técnica construtiva onde a junção entre os tubos era soldada a conexões trabalhadas (os cachimbos, ou “lugs”, em inglês).

Os cachimbos muitas vezes tinham desenhos extremamente artísticos e rebuscados. Se for o caso de sua bicicleta, tente fotografar também os cachimbos com o maior detalhamento possível.

Procure anotar toda e qualquer inscrição que possa encontrar em qualquer parte da bicicleta. As mais comuns são:

Cachimbo

– Número de Série: A maioria dos fabricantes grava o número do quadro na parte inferior da caixa de centro (a parte do quadro onde é montado o eixo central dos pedais).

A numeração é feita com punções de letras e números que ao serem martelados contra a superfície metálica, marcam-na em baixo relevo.

Se sua bicicleta tiver um número desse tipo, cole sobre ele uma etiqueta auto adesiva branca e esfregue grafite de lápis na etiqueta. Dessa forma, o número será decalcado na etiqueta. Remova a etiqueta cuidadosamente, cole-a num papel e guarde numa pasta. Daqui pra frente, toda a documentação que puder ser obtida, bem como as fotografias, serão guardadas nessa pasta;

Cubo Sturmey

– Marcas em peças: Observe atentamente os cubos, pedais, pedivelas, coroas, alavancas de freios, guidão, âncoras de freios, aros etc.

Se possuírem marcas ou inscrições em baixo relevo, decalque-as com a mesma técnica que foi adotada com o número de série. Algumas inscirções, só poderão ser decalcadas após a desmontagem. Deixe o decalque delas para depois, mas não se esqueça de executá-lo;

BRASÕES: Muitos fabricantes no passado, além do letreiro com o marca pintado ou adesivado, utilizavam ainda um brasão rebitado na parte frontal da caixa de direção. Alguns brasões eram pintados sobre a chapa, outros eram em relevo. Se forem do segundo tipo, também podem e devem ser decalcados.

Brasão Raleigh

Com toda a documentação em mãos, podemos iniciar o processo de identificação/datação. O primeiro passo, é procurar dados do fabricante na Internet através de um site de busca. Para fazer tal busca, utilize sempre uma palavra além do nome da bicicleta.

Exemplificando: A bicicleta é uma Goodyear, pesquise no Google as palavras goodyear bicicleta, para tentarmos achar algum material em português ou espanhol. A seguir, tente goodyear bicycle para obter resultados em inglês. A palavra “vintage” também é útil num site de busca, pois é o termo que os norte-americanos usam para denominar antigüidades.

Na primeira etapa, não despreze um site por mais irrelevante que pareça ser a informação obtida. Registre todos os sites visitados nos “Favoritos” do seu browser. Ao final deste texto, você tem uma relação dos sites mais importantes que tratam de bicicletas antigas. Se possível, imprima todas as informações que conseguir obter sobre a marca/modelo e coloque na pasta.

Encontrando ou não informações na Internet, uma das fontes mais importantes de informações sobre bicicletas antigas, ainda é a memória popular. Não tenha receio de perguntar para pessoas mais velhas. Não confie na sua memória. Tudo que ouvir, anote e coloque na pasta. Na primeira etapa, todas as informações são importantes. Visite bicicletarias antigas e tradicionais. Torne-se amigo dos proprietários e diga a eles qual é a marca da bicicleta que você está restaurando. Mostre as fotos, pois muitas vezes a foto vai trazer memórias à tona e você só tem a lucrar com as informações obtidas. Deixe seu nome e telefone nessas bicicletarias, pois muitas vezes, após algum tempo você é surpreendido com um telefonema de algum bicicleteiro que ao fazer uma faxina na bicicletaria encontrou peças que você pode precisar.

DICAS PARA COMPRA

Se você resolver comprar uma bicicleta antiga de alguém desconhecido, dê preferência a uma bicicleta bem conservada. O inconveniente maior de uma bicicleta bem conservada, é que ela fatalmente custará mais caro. Mas não faça loucuras. Por melhor que seja o estado geral, você terá de gastar dinheiro na restauração e quanto menos pagar por ela, menor será o gasto final. Controle a emoção se você encontrar uma bicicleta que procurava há muito tempo. Como se diz, “não dê bandeira”. Um vendedor mal intencionado ao perceber sua emoção, pode resolver aumentar o preço. Infelizmente em nosso país existe a falsa idéia de que preservação, colecionismo e antigüidades são hobbies de milionários…

Links Importantes

– Old Roads (www.oldroads.com): Site estadunidense repleto de informações sobre bicicletas antigas. Tem centenas de diagramas de montagem de componentes, galeria de fotos de bicicletas antigas e fóruns de discussões.

– Classic Rendezvous (www.classicrendezvous.com): Site estadunidense extremamente bem organizado. Divide as informações por nacionalidade e marcas. Fotos interessantes ajudam bastante em identificação e datação.

– Bike Cult NYC (www.bikecult.com): Site novaiorquino com belíssimas fotos de bicicletas antigas. A subpágina de coroas (“chainrings”) tem imagens valiosíssimas que podem auxiliar bastante na identificação de bicicletas antigas. Confira em www.bikecult.com/works/chainring.html

– Sheldon Brown (www.sheldonbrown.com): Um dos sites mais populares sobre ciclismo na Internet. Não é um site específico sobre bicicletas antigas, mas o “mago” Sheldon Brown, já falecido, dá dicas importantíssimas em restauração, principalmente dos cubos de marchas Sturmey-Archer.

– Bicicletas Antigas (www.bicicletasantigas.com.br): Site do brasileiro Marcelo Afornali. Fotos belíssimas. Um site muito bem organizado.