Artigo: Ídolos

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Artigo: Ídolos

O que Lance Armstrong e Jimi Hendrix nos ensinam sobre talento

Por Marcos Adami

Qual a diferença entre um bom atleta e um campeão e como se faz para saber quem tem talento para ser um grande campeão? Essas perguntas são bastante difíceis de serem respondidas e, mesmo os especialistas em treinamento desportivo e fisiologia do exercício, não têm uma resposta clara e conclusiva. Avaliações físicas aplicadas por profissionais competentes são um bom começo para distinguir o joio do trigo, mas também têm suas limitações.

Lance Armstrong

E na música? Como se descobre um cantor ou um guitarrista, por exemplo, de real talento?
Já faz algum tempo que acompanho o programa norte-americano “American Idol”, que o SBT agora apresenta no Brasil com o nome de “Ídolos”. A versão brasileira segue os mesmos moldes dos EUA e não fica nada a dever para os gringos.

Para quem nunca assistiu, o programa é um gigantesco concurso de calouros com eliminatórias em várias cidades do País, e tem como objetivo final revelar o melhor e mais talentoso cantor, ou cantora.

Já conversei com muitos e muitas atletas do ciclismo e outros esportes com bicicleta e todos os grandes campeões têm algo em comum: se destacaram desde muito cedo no esporte, logo na primeira ou segunda prova que disputaram. Muitos já estrearam na vida competitiva com vitórias implacáveis.

DESAFINO

No ciclismo é muito comum atletas que culpam a bike pelo mau desempenho numa corrida. “Fui mal porque minha bike é pesada” é algo que se houve com bastante freqüência entre os atletas do segundo escalão. Jamais vi um grande campeão fazer reclamação desse tipo; quando vão mal, simplesmente assumem o fato.

Paris Bennett

No “Ídolos”, cada candidato se apresenta perante quatro jurados (nos EUA são três) e canta uma música de sua escolha, sem microfone, só no gogó. Imagino que fazem assim para nenhum candidato culpar o microfone ou o sistema de som pelo desafino ou pela voz que desagradou aos jurados.

Lembro bem da apresentação de uma jovem negra de apenas 17 anos – Paris Bennett – no “American Idol”. Logo que abriu a boca e soltou o primeiro refrão de “Georgia on My Mind”, do genial Ray Charles, já deu para notar que a moça era especial. Eu notei, todos notaram.

De origem bastante simples, ela encantou a todos pela beleza da voz, desenvoltura no palco, polidez, escolha do repertório e simpatia. Paris foi aprovada com louvor e unanimidade, continua no programa e é bem cotada para vencer. Pode até ser que não vença, mas que é extremamente talentosa…ninguém duvida.

Muitos campeões têm a mesma origem simples de Paris Bennett. Marcio Ravelli, Janildes Fernandes e o próprio Lance Armstrong não nasceram em berço de ouro, mas não decepcionaram nos momentos decisivos.

DÁDIVA

No ciclismo, o talento pode ser medido pelos resultados e eles já acontecem no início da carreira dos grandes campeões. Assim como Paris Bennett, os grandes campeões do futuro começam a se destacar cedo.

Foi assim também com o guitarrista norte-americano Jimi Hendrix), que com menos de vinte anos já tocava com uma virtude inigualável e entrou para a história como um dos maiores guitarristas pop, senão o maior, de todos os tempos. O riff de “Purple Haze” e o solo de “Voodoo Child” vão ecoar para sempre.

Jimi Hendrix

Assim como a voz de Paris Bennet e os acordes inconfundíveis de Hendrix, o talento de um grande ciclista campeão é nato, veio ao mundo quando as mães deles deram à luz. Dádiva é o nome correto, e dádiva não se compra, nem se treina, nem se desenvolve.

Um grande cantor, guitarrista ou campeão têm algumas coisas em comum. Simplicidade e humildade só para começar. Vi candidatos, tanto no “Ídolos” quanto no “American Idol”, que estavam tão certos que eram os melhores que, de tão arrogantes, desrespeitaram os jurados. Ídolos e campeões de verdade não fazem isso.

Assim como na música não basta ter um belo rosto ou uma bela voz, no esporte também não basta ter resultados expressivos. Tem que ter outras tantas qualidades: pontualidade, comprometimento, disciplina, honestidade, bom caráter e educação são apenas algumas delas.

Mas o principal talvez seja entender a seguinte premissa: não se treina e nem se estuda para ser um Lance Armstrong ou um Jimi Hendrix, eles já nascem Lance Armstrong e Jimi Hendrix.