Contrarrelógio: saiba o que é a prova de crono

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Contrarrelógio: saiba o que é a prova de crono

Conheça a modalidade em que o ciclista supera seus limites

Texto: Rodrigo Bini – Felipe Pivetta Carpes – Fernando Diefenthaeler

As três principais competições de ciclismo do calendário anual, o Tour de France, o Giro d’Itália e a Volta da Espanha, possuem pelo menos uma das etapas no modelo contrarrelógio individual, também conhecido no Brasil como prova de crono.

Embora esta seja apenas uma das etapas, e que o desempenho do atleta ao longo de toda a competição é que irá definir se ele será ou não o campeão, especial atenção é dada ao treinamento e configuração da bicicleta para esta etapa em especial.

Em geral, nessas provas, o grande vencedor da geral será o ciclista mais regular, com desempenho forte tanto na montanha quanto na crono individual.

Um interessante documentário sobre a vida de Lance Armstrong produzido pela Discovery Channel mostrou grande preocupação da equipe de apoio do ciclista quanto a dois aspectos, a aerodinâmica do ciclista e a sua capacidade fisiológica.

A literatura científica descreve há alguns anos que a aerodinâmica é a maior resistência que o ciclista pode enfrentar ao pedalar em ambiente aberto. Devido à proibição do uso do vácuo, a prova de contra-relógio individual adquire um caráter decisivo sobre a performance e a capacidade física do ciclista.

Na década de 90 foi quantificado o quanto de energia o ciclista economiza, em média, ao pedalar atrás de um ciclista ou atrás do pelotão.

Representação esquemática da energia economizada ao pedalar atrás de um, dois, três ciclistas, atrás do pelotão de cinco ciclistas ou atrás de um caminhão em velocidade de 32 km/h. Figura extraída do livro High-Tech Cycling (1996) de E.R.Burke.

É possível observar que um ciclista economiza mais de 25% de energia ao pedalar atrás de apenas um outro ciclista. Este dado pode parecer óbvio, mas comprova mais uma vez a importância de otimizar a aerodinâmica do ciclista na pedalada. Outro dado interessante é que o atleta de ciclismo pode reduzir entre 27 e 30% de energia pedalando acima de 40 km/h utilizando o vácuo de outro ciclista.

Se pensarmos no caso do triathlon olímpico, ou mesmo no Ironman, onde o vácuo no ciclismo é proibido, o que o triatleta deve atentar para otimizar a aerodinâmica?

Em seu livro, Edmund Burke (1996), destaca que a posição em que o atleta aproxima os braços e cotovelos do tronco e tangencia com os joelhos o quadro da bicicleta, pode melhorar a penetração aerodinâmica (figura 2), ou seja, com isso o atleta “fura” o ar com mais facilidade e economiza preciosa energia.

Muitas vezes a adoção de uma posição mais aerodinâmica torna-se desconfortável e pode aumentar o custo energético por maior exigência dos músculos posturais.

O britânico Chris Broadman ao ser questionado como conseguiu percorrer 56.375 metros em uma hora de ciclismo em pista, respondeu que conhecia uma série de ciclistas que possuíam capacidade fisiológica de fazer este feito, no entanto, nenhum deles conseguia permanecer por tanto tempo em uma posição tão desconfortável. Talvez o grande feito de Broadman foi conseguir manter esta posição.

A associação de uma melhora da posição sobre a bicicleta com uma estratégia adequada de variação da velocidade na prova de contra-relógio, pode permitir que o atleta obtenha um desempenho diferenciado. A estratégia de variação da velocidade durante uma prova de exigência constante (vento e inclinação do terreno) é adquirida com treinamento, segundo os estudos observados na literatura científica.

O pacing, como é chamado pelos pesquisadores, tanto no ciclismo como na corrida é adquirido e otimizado com a experiência de treinamento do atleta.

A jornada é longa para um ciclista e não somente uma bicicleta com quadro e acessórios aerodinâmicos irá bastar para um efetivo incremento no desempenho. É preciso treinar a posição aerodinâmica, desenvolver treinamentos planejados para este fim.

Para o ciclista que compete em estrada, mas não possui um perfil profissional, existem estratégias de baixo custo para otimizar a aerodinâmica, como por exemplo o uso de uma mesa um pouco mais comprida ou o uso de guidão clipe. Com isso o posicionamento se torna mais aerodinâmico sem aumento no peso da bicicleta. Fora isso, o treinamento fará sua parte, auxiliando inclusive no ajuste do posicionamento.

Chegamos então a conclusão de que o treinamento da posição mais aerodinâmica e o condicionamento e auto-conhecimento do pacing são importantes para o atleta saber controlar o nível de esforço na prova contra-relógio e obter desempenho ótimo e muitas vezes essas características virão somente com a prática efetiva.

O GEPEC, Grupo de Estudo e Pesquisa em Ciclismo, agradece a todos os atletas e admiradores do ciclismo que fazem contato com o Grupo por e-mail, telefone ou até mesmo carta, e reitera que está a disposição para ajudar, no que for possível, a desenvolver este esporte em nosso País.

GEPEC – Grupo de Estudo e Pesquisa em Ciclismo – www.ufsm.br/gepec