Tour em Belleville

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Tour em Belleville

Um desenho animado frânces para os fãs da Volta da França

Texto: Daniela Prandi | Imagens: Divulgação

A bucólica imagem dos pais, enamorados em cima de uma bicicleta, faz com que o garoto órfão sonhe com a infância perdida e inspira a avó a lhe comprar uma bicicleta para, então, arrancar um sorriso do fundo da alma. O enfado da vida que ainda nem começou, e que não passa nem mesmo após a chegada do cão, o melhor amigo do homem, é esquecido durante as pedaladas. O apito da avó marca o ritmo dos treinos e “As Bicicletas de Belleville” começa a ganhar um gosto a mais para aqueles que, além da sétima arte, perseguem, mesmo que seja nos sonhos, o Tour de France.

O filme de Sylvain Chomet, com desenhos que mais parecem aquarelas, repleto de pinturas envolventes do artista Evgeni Tomov, não tem em seu nome original nenhuma bicicleta. É, na verdade, “Les Triplettes de Belleville”, e o trio, no caso, é composto por três adoráveis cantoras que marcam a cadência da história e, ainda, o derradeiro desenrolar da trama, com direito a lances mirabolantes, perseguições ensandecidas pelas ruas da cidade grande onde a lei é “no money, no burguer”, como bem ou mal aprende Madame Souza, a avó que persegue o neto raptado durante o Tour de France por um mafioso sonolento.

Mas são as bicicletas, neste caso, que interessam. Ou quem as pedala. O órfão, que treinou e treinou, por subidas e descidas tão íngremes que desafiam a lei da gravidade, apresenta-se com um corpo distorcido, onde coxas e panturilhas desfiguradas são a força que o move para o sprint final.

No Tour, as subidas são lendárias e, às margens das estradas, a população, chamada a acompanhar o evento pelo próprio presidente, comparece munida de histeria. O órfão, a certa altura, sem o apito da avó a lhe marcar o ritmo, perde-se na concentração e acaba encarcerado, vítima do próprio erro.

Mais adiante, o ciclista passa a ser a força-motriz que interessa à cobiça dos jogos de azar, ou sorte, dependendo de quem ganha ou perde. A avó, obstinada, não intimida-se com a cidade grande, com a modernidade que transfigurou sua casa, e parte em busca de seu maior tesouro.

O desenho animado, que concorreu a dois prêmios Oscar, nas categorias Canção e Animação, termina como terminam os desenhos animados. Tudo nos conformes. A força das pedaladas anuncia o retorno vitorioso para casa e, quem sabe, para novos treinos em busca do próximo Tour de France. Mesmo que a bandeirada final não passe de uma ilusão.

TRAILER

PS – Apesar da censura livre, “As Bicicletas de Belleville” não é um filminho padrão Disney e há cenas que podem levar a certos constrangimentos. Um exemplo: um bando de homens transfigura-se em macacos famintos pela saia de bananas de uma bailarina africana que, ao final, perde suas vestes e balança os peitos desnudos.