Hernandes Quadri Jr., o ciclista no comando

HomeCompetições

Hernandes Quadri Jr., o ciclista no comando

Hernandes Quadri Jr., técnico da seleção brasileira de ciclismo masculino, revê a sua trajetória, fala sobre os Jogos Olímpicos e seus projetos

Técnico da seleção, Quadri Jr. fala sobre a participação do Brasil nos Jogos Olímpicos

Texto: Daniela Prandi

Hernandes Quadri Jr. não tira os olhos da corrida. A cada volta na pista, incentiva e torce pelos atletas da equipe que comanda, a Rossetti/Maxxis/Foz do Iguaçu/Itaipu Binacional, a antiga DataRo. Preferia estar no sprint? “Dá mais nervoso ficar do lado de fora”, desabafa, no término da prova Giro do Interior de São Paulo. O ciclista, que, no auge da carreira, rodava 30 mil quilômetros de bike por ano, alterna momentos de descontração e seriedade enquanto revê a sua história.

Com a experiência de 23 anos no esporte, Quadri Jr. é hoje o técnico da seleção brasileira de ciclismo masculino. Tem no currículo dois Jogos Olímpicos (Barcelona e Atlanta), além de mundiais, pan-americanos e sul-americanos a perder de vista. Despediu-se das competições na Copa América de 2009. Desde então, assumiu a função de técnico e, hoje, gosta de pedalar “sem compromisso”. “Antes, tomava conta de mim e pronto. Agora, cuido de muitos”, define.

Nas competições, um objetivo é identificar os potenciais ciclistas que podem vir a formar uma nova geração da elite, já com os olhos nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. Para os Jogos de Londres, Quadri Jr. diz que o Brasil tem três vagas garantidas no ciclismo masculino, mas os nomes ainda não foram definidos. Já para o futuro, faz planos: “Temos quatro anos para identificar, treinar e moldar atletas da sub 23 para a disputa no Rio”.

Para isso, movimenta-se em torno de um projeto de competições intercolegiais, com início em Curitiba, onde vive. “Se, de 350 jovens, 100 gostarem de pedalar e, desses, 50 seguirem carreira, vamos conseguir renovar o esporte”, contabiliza. Quadri Jr. vê uma evolução no ciclismo brasileiro, mas aponta a falta de categorias de base. “Tirando São Paulo, o Brasil está a zero… O Paraná mesmo, que já foi um celeiro de bons atletas, não tem nada.”

Na época da equipe do Ciclo Clube Romeo, em Curitiba

Natural de Santo Antônio da Platina, no interior paranaense, o técnico de 44 anos de idade gosta de lembrar que nasceu no Dia do Ciclista, 8 de dezembro. Mudou-se com a família, ainda criança, para Curitiba. A mãe, costureira, e o pai, motorista de caminhão, nem imaginavam que a trajetória do filho logo seria definida. Um dia, passou a frequentar a casa de Antônio Carlos Hunger, um ícone do ciclismo brasileiro, que, na época, integrava a lendária equipe da Pirelli. “Estudava com o irmão dele e vivia de olho nas bicicletas que havia por lá.”

Logo começou a pedalar, treinava à noite e passou a integrar a equipe Ciclo Clube Romeo, um dos grandes legados da Família Romeo ao esporte nacional. Quadri Jr. enfrentou a resistência da mãe, que não estava gostando dos rumos que a vida do filho tomava. “Na terceira corrida que participei, ganhei. E, aos poucos, minha mãe começou a me apoiar.”

Em uma viagem para a prova 9 de Julho, em São Paulo, havia lugares sobrando no ônibus e a equipe resolveu vendê-los para ajudar nas despesas. A família de Iverson Ladewig comprou quatro passagens. O hoje comissário da União Ciclística Internacional (UCI) estava acompanhado, entre outros, da irmã, Maria da Graça. Foi ali que Quadri Jr. conheceu sua futura mulher. “Na viagem de volta a gente engatou”, lembra. Da união nasceram dois filhos, uma adolescente de 17 anos e um garoto de 11. “Minha filha não gosta nada de bicicleta, ela gosta é de estudar… Meu filho gosta de ver as corridas, mas está na escolinha de futebol e está empolgado. É claro que vou apoiar o que ele resolver.”

Hernandes (em pé, o terceiro da esq. p/ dir.) na época da Caloi

É com uma certa nostalgia que Quadri Jr. lembra seus dias de ciclista. Na equipe Caloi, em que pedalou durante 13 anos, vivenciou vitórias e fez amigos para toda a vida. Em sua trajetória, alternou funções. “Quando entrei, sprintava; depois, comecei a ficar bom no contrarrelógio, a seguir, passei a defender e a trabalhar pelo time”, explica. “Éramos uma equipe tão afinada que a gente se olhava e já sabia o que fazer.” Em 2000, junto com alguns companheiros da equipe, foi chamado a integrar a recém-criada Memorial, de Santos. “Fiquei cinco anos, até que voltei para a Caloi por mais três anos, até a minha despedida”, lembra.

Apesar de especialista em ciclismo, um dia a Caloi o levou para disputar o Iron Biker, uma das provas mais duras do mountain bike, disputada na região de Ouro Preto, em Minas Gerais. “Nunca tinha andado de MTB. Fui para trabalhar para o Marcio Ravelli, da equipe. Larguei em terceiro mas, logo na primeira descida íngreme, uns 40 me passaram, gritando ‘sai ciclista’. Mas recuperei no final, em uma reta, e saí gritando ‘sai montain bike’. Terminei em nono lugar”, conta.

Durante sua trajetória, teve oportunidade de pedalar com alguns de seus grandes ídolos. Um deles foi o espanhol Miguel Indurain, cinco vezes vencedor do Tour de France no início dos anos 1990. “Estávamos no mundial de San Sebastian e a equipe dele estava treinando no circuito. Tivemos a oportunidade de treinar juntos depois que ele nos viu e disse: ‘Brasil, venga, venga’. Depois, nos convidou a ir ao hotel e, lá, tiramos fotos. Indurain é o the best, como pessoa e como corredor.”

Para Quadri Jr., um dos desafios do esporte é superar o que, em sua época, ele chamava de “ciclistas de dedinho cromado”. “Muitos atletas se prejudicam porque o negócio deles é ter bicicleta boa, material bom. O Mauro Ribeiro (ex-ciclista e ex-técnico da Caloi) vivia nos dizendo: ‘material bom é aquele que você ganha’. Os caras de hoje são bem diferentes dos de antigamente”, afirma.

Na equipe que comanda, uma semana por mês é dedicada a pedaladas junto com o técnico, de preferência em Foz do Iguaçu. “Dentro de Itaipu dá para treinar legal”, conta. As planilhas são passadas a cada um dos atletas, de acordo com os objetivos do período. Nas provas, faz reuniões para estabelecer estratégias e identificar oportunidades. “Às vezes dá certo, outras nem tanto…”