O maravilhoso e estranho mundo das bikes fixas

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O maravilhoso e estranho mundo das bikes fixas

Bikes de pinhão fixo viram mania no mundo e já ganha adeptos no Brasil

Texto de Marcos AdamiFotos de Gabriel Rodrigues

Publicado com autorização da revista Bike Action

Nos últimos anos um grupo diferente de ciclistas tem crescido como nas grandes metrópoles mundo afora. São os adeptos das bicicletas de pinhão fixo, também chamadas de fixed gear, ou simplesmente fixies para os mais íntimos. A principal diferença de uma bike fixa em relação a todas as demais é a catraca, que gira em conjunto com a roda traseira, como nas bikes de pista.

A cultura das fixas nasceu e cresceu entre os bike couriers (bike mensageiros) de cidades como Londres e Nova York, que têm relevo relativamente plano e dispensam bicicletas com marchas. As fixed gear são a mistura perfeita de total simplicidade com baixa manutenção, já que são despojadas de praticamente tudo, inclusive até de (pasmem!) freios.

Um quadro, garfo, mesa e guidão, duas rodas, uma relação. Basicamente isso é tudo que os mensageiros precisam para driblarem o trânsito maluco. Do mundo das entregas expressas dos bike couriers, aos poucos a febre das fixies contaminou ciclistas de Tóquio, Madri, Santiago, Varsóvia, Los Angeles e, mais recentemente, o contágio chegou a Pequim, na China, onde é possível comprar uma fixa pelo equivalente a R$ 275.

Longe das entregas, as fixas são usadas para ir ao trabalho, nos deslocamentos urbanos, para ir a baladas, em cicloviagens e até para jogar bike polo, esporte praticado com fixas e que tem crescido bastante.

No Lycra, Yes color
Mais que um modismo, o conceito de bike fixa tem toda uma cultura própria com atitudes bem distintas dos demais ciclistas. Os integrantes dessa tribo se diferenciam pelo visual rebelde e descolado que destoa totalmente daquilo do estereótipo do ciclista tradicional, vestido com bermuda de lycra montado numa bicicleta com um montão de marchas e freios a disco.

Os apaixonados por fixies, ao contrário, pedalam bikes bastante despojadas e na maioria das vezes bem coloridas. A cor está presente em componentes como aros, rodas, selins, guidões, pneus, manoplas etc. Em geral, bikes fixas não têm freio, e a frenagem é feita pelo ciclista usa o peso do corpo para fazer a ação de contrapedal do ciclista, numa manobra conhecida como skid, que literalmente significa derrapagem.

A geometria pode ser a clássica ou a freestyle, de apelo mais radical, de acordo com o gosto e do uso de cada um. Outro detalhe interessante é o cubo traseiro Flip Flop, que tem rosca dos dois lados e oferece a possibilidade de montar um pinhão em cada lado, um fixo outro livre, ou ambos fixos, mas com número de dentes diferentes para aumentar a versatilidade da bike em relevos mais acidentados.

MANOBRAS
Track Stand – Consiste em se equilibrar sobre a bike sem por os pés no chão.
Skid – É a derrapagem da roda traseira produzida pela força aplicada pelo ciclista nos pedais

No Brakes, No Laws
O bom gosto nas artes é outro diferencial, seja na música, nos filmes de divulgação e no design dos sites dos grupos de fixies, na comunicação visual dos posters de divulgação de eventos que abusam da língua de Shakespeare e também no vestuário.

O visual de um amante das fixas é bem distinto, com corpos tatuados e com piercings vestidos de bermuda ou calça jeans com uma camiseta que normalmente com algum tema referente a bike, calçando tênis. O capacete é ignorado por muitos. Aliás, desafiar perigos faz parte da atitude que exibem por meio de adesivos ou estampas nas camisas, posters ou nos sites, caveiras, cartas de tarô, números cabalísticos, pentagramas e outros símbolos, digamos, macabros.

“Andar de bike sem freios e à toda velocidade no meio dos carros é desafiar a morte, e muitos curtem essa ideia de rebeldia”, garante Flavio Nonato, paulistano de 31 anos que trabalhou 10 anos como bike courier em Londres e criou São Paulo a sua própria marca de bike fixa.

No Rio de Janeiro, com o slogan “No Brakes, No Rules, No Laws” (literalmente: Sem Freios, Sem Regras, Sem Lei), foi realizada em outubro a pedalada noturna Night Ride de Los Muertos, com todos os bikers vestidos em fantasias que tinham a morte como inspiração. Simplesmente arrepiante.

People & Places
A cultura das bikes fixas chegou no Brasil há alguns anos e foi ganhando adeptos principalmente nas grandes cidades. Há grupos organizados em São Paulo, Curitiba e mais recentemente no Rio de Janeiro, cidade que já conta com três times de bike polo. O número de total de fixies no País é incerto, mas estima-se mais de mil bikers. Em São Paulo são cerca de 500 pessoas que usam a fixa por curtição e como meio de transporte urbano, já que esse tipo de bicicleta não caiu no gosto dos couriers, que preferem as mountain bikes tradicionais.

Na capital paulista a tribo das fixas se junta para roles noturnos, partidas de bike polo e eventualmente para baladas que incluem animadas disputas de sprint indoor em rolos fixos que levam nomes sugestivos como Rock’n’Rollo ou Roller Race. Nesses encontros, normalmente realizados em bares com música mecânica ou ao vivo, ciclistas são distribuídos em chaves e vão se enfrentando mano a mano, cada um em seu rolo. Vence aquele que percorrer em menor tempo determinada distância, que pode ser 150 ou 400 metros, aferida por meio de um aparelho – analógico ou digital – que vai acoplado à roda traseira do rolo. “A maioria das vezes é muita zueira”, afirma Nonato. Em São Paulo, essas baladas promovidas pela Tag And Juice, na Vila Madalena, acontecem a cada 90 dias mais ou menos.

Já as pedaladas noturnas, chamadas de Night Rides, Night Session, Fixed Ride etc, são nas noites de quarta-feira, com saída às 20h30 da Praça do Ciclista, na esquina da Rua Consolação com a Avenida Paulista. Às terças e quintas é dia de jogar bike polo nas quadras do Parque Ibirapuera das 21 até a meia-noite.

“Como usamos as quadras de futebol, é comum a gente ser interrompido para dar lugar ao pessoal do futebol de salão”, conta Flavio Nonato, que integra o Under Dogs, time que representou o Brasil no Chile e voltou para casa com o título vice-campeão sul-americano de bike polo. “Tem uma entidade, a Associação Sócio Esportiva SPX, está trabalhando para que a gente tenha um horário fixo e só nosso para jogarmos no Parque do Povo, no Itaim”, conta Nonato.

A presença das fixas em Curitiba também é forte. “Estimo que tenha mais de 100 ciclistas de fixa na cidade. Umas 20 são mulheres”, conta Victor Gollnick, um dos responsáveis pelo site http://fixacwb.wordpress.com

O ponto de encontro na capital paranaense é no Paço da Liberdade todas as sextas-feiras no início da noite. O grupo também promove pedaladas na estrada e sobem a Serra da Graciosa. As baladas “Rock’n’Rollo” também são comuns e servem para juntar a galera e esquentar as noites frias de Curitiba.

Outro evento freqüentado pelos fãs das fixas é o Alley Cat, uma competição informal que lembra muito o modelo do Atravecity. Nessa competição, disputada com trânsito aberto e muitas vezes em horário de rush, a ideia é de que o participante cumpra determinadas tarefas passando por cinco ou seis check points. Ganha quem cumprir as tarefas em menos tempo. Dados os riscos, essa modalidade dispensa publicidade justamente para não chamar a atenção das autoridades, já que oferece riscos aos participantes.

Fixie Olympics
Além do bike pólo, existem outras disputas específicas para a bike fixa. Algumas, como a Alley Cat tiveram origens no serviço de bike couriers, outras, como o Mini Drome e o Sprint, nasceram no velódromo. No ano que vem o Brasil terá a primeira edição da Fixie Olympics, com várias modalidades.

Mini Drome

CONHEÇA ALGUMAS:

  • Skid Competition – é uma prova onde o vencedor é aquele que faz a frenagem mais longa, arrastando pneu traseiro
  • Freestyle – Como no BMX, são disputas individuais de manobras, e pode ser vert, flat, street etc
  • Mini Drome – É um velódromo em miniatura, podendo ser oval ou redondo, com uma pista com menos de 20 metros de extensão. Lá fora, a Red Bull promove eventos em mini dromes
  • Sprint – São disputas mano a mano em rolos fixos. Os inscritos são divididos em chave e vão eliminando uns aos outros até chegar a grande final. Os rolos têm acoplado um sistema (analógico ou digital) que marca quantos metros foram pedalados. Em geral as disputas ficam em torno dos 150 a 400 metros, sempre com muita animação
  • Uphill – Subidas de ladeira
  • Arrancada – Partindo do zero, o competidor tem que percorrer determinada distância
  • Alleycat –  Nessa competição realizada com trânsito aberto e muitas vezes em horário de rush, o participante tem que cumprir determinadas tarefas passando por cinco ou seis check points. É como se fossem entregas de bike couriers. Ganha quem fizer em menor tempo. Dados os riscos, essa modalidade dispensa publicidade justamente para não chamar a atenção das autoridades
  • Bike Polo – Jogo bonito de se ver e que tem ganhado mais aficionados a cada dia. Exige muita habilidade e domínio da bike

O Bike Polo – Fotos de Gabriel Rodrigues – www.gabrielrodrigues.com.br

A modalidade criada na Irlanda em 1891 é o esporte preferido pelos ciclistas de fixas. O Rio de Janeiro já tem três equipes, e São Paulo outros três: Under Dogs, Unity Eleven e Little Pigs. O bike pólo brasileiro já conseguiu emplacar seu primeiro resultado internacional. No final de outubro, o time Under Dogs, formado por Flávio Nonato, Gabriel Rodrigues e Wagner Carvalho voltou do Chile com a medalha de prata no Sudamerican Polo Rockers, uma espécie de Campeoanto Sul-Americano da modalidade.

“Empatamos em 4 a 4 no tempo normal, mas perdemos no Golden Gol”, conta Nonato. No ano que vem o campeonato será em Buenos Aires e em 2013 será no Brasil.

O bike polo, ou cycle polo, foi criado pelo ciclista aposentado Richard J. Mecredy e era bem similar à versão com cavalos. O bike polo tradicional é jogado em campos de grama com 150 x 100 metros e seis jogadores de cada lado. A modalidade esteve nos Jogos Olímpicos de Londres de 1908 como esporte de demonstração e a medalha de ouro ficou com a Irlanda e a prata com a Alemanha. O pico da popularidade do esporte foi nos anos 30, quando surgiram as ligas nacionais na Grã Bretanha, França e também nos Estados Unidos. Com a II Guerra Mundial o esporte entrou em e ficou reduzido a poucos praticantes.

Mas, a partir de 2007, o bike polo ganhou fôlego novamente e passou a ser jogado em quadras de cimento, com equipes de três jogadores de cada lado. O urban bike polo como é também conhecido, atualmente é praticado em muitos países da Europa e também pelo Canadá, Estados Unidos, Austrália e países asiáticos como Índia, Paquistão, Sri Lanka, Malásia e Indonésia. Chile e Argentina, essa última potência no polo a cavalo, vai sediar no ano que vem o Sul Americano.

As bikes mais utilizadas são as de geometria freestyle, mais adequadas para encarar o esporte pela sua agilidade. Muitos jogadores, como Flávio, preferem trocar o pinhão fixo pela catraca livre e há também quem opte por instalar uma alavanca de freio do lado esquerdo do guidão que aciona simultaneamente ambas as rodas. A bola é a mesma do street hockey e os tacos são feitos pelos próprios jogadores a partir de bastões de esqui com uma cabeça feita de tubo de PVC. O capacete pode ser o mesmo do lacrosse ou do hurling, esportes quase que totalmente desconhecidos no Brasil. O jogo é disputado em “períodos” de 10 minutos e uma partida pode ter de dois a seis períodos.

REGRAS BÁSICAS DO BIKE POLO
Taco no taco, Bike na bike, Corpo no corpo
O jogador não pode tocar o pé no chão. A pena é ir até a lateral e tocar o taco no centro da quadra na linha que divide a quadra

Made in São Paulo
O paulistano Flávio Nonato viveu na pele a experiência de trabalhar como bike courier em Londres durante 10 anos e em 2010 criou a marca Tre3e (pronuncia-se Treze), que produzia quadros feitos a mão na capital paulista. O nome é uma alusão a duas marcas européias de fixas que ele admira: a italiana Dodici (12 em italiano) e a 14 Bike Co.

Flávio tem um visão que está pelo menos um década à frente dos demais nesse mercado. Além das bikes feitas sob medida, sua empresa comercializa quadros importados e monta as bicicletas de acordo com o gosto e necessidade do cliente, com total possibilidade de customização. Flávio recomenda a instalação de freio na roda dianteira, acionado por meio de um pequeno manete. “O grande lance da cultura fixie é cada um fazer a bike do seu jeito, começando do zero mesmo. Não sai uma bike igual a outra.

Inclusive, convidamos o comprador a vir participar da montagem da bike. Acho legal estabelecermos esse vínculo”, explica Nonato.

Bikes com relação 46-17 ou 46-18 são ideais para iniciantes e para cidades como São Paulo, é recomendado o uso de pneus 700 X 28, mais largos e resistentes.

A FIXA NO CINEMA

Rush It – Estrelado por Tom Berenger e Judy Kahan foi rodado em 1979 e é o primeiro filme que mostra o universo dos bike messengers em Nova Iorque. Em clima de romance, conta a disputa entre dois bikers pelo amor de uma garota.

Premium Rush – O filme dirigido por David Koepp conta a história de um bike courier nova iorquino que é perseguido por um policial corrupto. Tem muita cena de ação e perseguições.

PRODUTOS

Suporte Bikes & Books – 

Bolsa mensageiro Chrome
A marca preferida dos bike couriers já pode ser encontrada no Brasil. O modelo Citizen é feita de Cordura impermeável de alta resistência, tem capacidade de 26 litros, divisórias internas e até compartimento estanque. 

Cubo Flip Flop – Permite montar um pinhão em cada lado

Calça Levi’s 511TM Commuter – especialmente criada para os ciclistas urbanos, tem cós especialmente projetado para guardar a trava da bicicleta, bolso traseiro para iPod, reforço no cavalo, bolsos traseiros e passadores da cintura, aplicação de faixas refletivas 3M e tecido strech que aumenta a mobilidade. Custa R$ 290 na Tag and Juice.

Specialized Langster – Feita de alumínio com garfo de carbono, vem de fábrica com relação 42×16 e prontinha para curtir.

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