Ciclocross, a modalidade do ciclismo que veio do frio

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Ciclocross, a modalidade do ciclismo que veio do frio

O ciclocross é praticado no Hemisfério Norte e agrega elementos do mountain bike cross country e das provas de critério

Texto de Marcos Adami / Bikemagazine
Fotos de divulgação

Quando termina a temporada de ciclismo, uma modalidade entra em cena no Hemisfério Norte. Trata-se do ciclocross, esporte que reúne corajosos ciclistas que enfrentam chuva, frio e até neve para manter a forma.

O esporte também é chamado de cyclo-cross, cyclocross, CCX, CX, cyclo-x ou simplesmente cross para os mais íntimos. A temporada começa no final do outono e se estende pelo inverno antes da temporada de ciclismo, que recomeça em fevereiro. O ciclocross é uma das modalidades mais completas de todo o espectro do ciclismo e agrega elementos do mountain bike cross country e das provas de ciclismo de critério.

As provas são disputadas em circuitos com obstáculos dos mais variados tipos e a tradicional foto do ciclista com a bike nas costas é a primeira imagem que vem à cabeça quando o termo ciclocross é mencionado.

Tem adeptos em praticamente todos os países do hemisfério norte onde o ciclismo é popular como Bélgica, Holanda, França, Espanha, Áustria, Grã-Bretanha, Polônia, Finlândia, Suécia, Noruega, Eslováquia e também Alemanha, Suíça, Turquia e Japão. Do lado de cá do Atlântico, a modalidade tem muitos adeptos nos Estados Unidos e Canadá. No hemisfério Sul, a Nova Zelândia é único país que aparece no ranking UCI da modalidade, na 19ª colocação entre 27 países.

Como o circuito não é muito longo e não exige trechos muito técnicos com grande diferença altimétrica, dá perfeitamente para a prova ser realizada numa área central e urbanizada de uma grande cidade. É comum em cidades grandes como Roma. Dá para fazer, por exemplo, no Parque do Ibirapuera em São Paulo, na Pampulha em Belo Horizonte, Lagoa do Taquaral em Campinas e lugares parecidos com esse.

HISTÓRIA

A origem do ciclocross é cercada de lendas. A mais aceita é que no início do século XX ciclistas europeus de pequenas localidades competiam uns contra os outros para ver quem chegava primeiro ao centro de determinada cidade. Valia o menor tempo, não importava o caminho. Assim, muitos cortavam caminho pelas fazendas pulando cercas, porteiras, atravessando rios e pedalando por trilhas e estradinhas de terra.

Esses rachas eram praticados no inverno, fora da temporada de competição, para manterem a forma e eles observaram que essa atividade, por conta do maior esforço físico, melhorava bastante o condicionamento para a temporada seguinte.

Não demorou até que a recém-criada modalidade ganhasse regras e competições próprias. O francês Daniel Gousseau organizou o primeiro Campeonato Francês, em 1902, e Géo Lefévre, tido como o pai do Tour de France, também é um dos pioneiros a organizar esses eventos. A modalidade atravessou a fronteira para os países vizinhos depois que Octave Lapize, campeão do Tour de France de 1910, declarar que a vitória só foi possível graças à preparação feita durante o inverno no ciclocross. Assim, o CX chegou à Bélgica, que realizou seu Campeonato Nacional em 1910, à Suíça, que fez o mesmo em 1912, em Luxemburgo em 1923, Espanha em 1929 e à Itália em 1930.

Desde 1940, o ciclocross está sob a chancela da UCI, que organizou o primeiro Campeonato Mundial em 1950, em Paris.

Nos Estados Unidos, a modalidade começou a se popularizar em 1970, mas só em 1975 foi realizada a primeira corrida, no estado da Nova Inglaterra. Após chegar à Califórnia o esporte ganhou impulso e popularidade a partir de meados dos anos 90.

A MODALIDADE

Não bastasse o frio e a chuva que normalmente dão o tom numa típica corrida de ciclocross, a corrida exige muito esforço e energia dos ciclistas já que os obstáculos estão por toda a parte. Trechos retos e planos são poucos.

Os circuitos têm metragem entre 2,5 e 3,5 quilômetros de extensão sendo obrigatório que pelo menos 90% seja pedalável. Longas subidas são evitadas e dão lugar a curtas paredes íngremes, que são transpostas a pé com a bike nas costas.

Além da dureza das intempéries, os ciclistas enfrentam também obstáculos naturais e também artificiais, com barreiras de até 40cm de altura, que podem ser transpostas saltando ou desmontando-se e carregando a bike. Fora isso, o circuito pode apresentar também single tracks, paredes íngremes, escadarias, valas, riachos, caixa de areia, curvas bem fechadas, funil em zigue-zagues, descidas íngremes, gramados, pedras, neve, trechos de calçamento e até seções de pista de BMX.

As corridas duram de 30 minutos a uma hora, dependendo da categoria. A alternância de ritmo é que torna essa modalidade extremamente desgastante e a duração é relativamente curta.

Como o circuito não é muito longo e não exige trechos muito técnicos com grande diferença altimétrica, o ciclocross é bastante versátil e pode ser realizado em parques, trilhas, bike parques, estações de inverno, florestas, lavouras, vinhedos e até em regiões desérticas. Na Europa é comum provas serem realizadas em parques urbanos de grandes cidades. A estratégia serve para atrair o público e facilitar o acesso de todos.

Uma das regras permite que o ciclista receba apoio mecânico e até que troque de bike durante a prova. Trocar a bike inclusive é uma estratégia comum e usada para que a equipe de apoio elimine o excesso de lama e lubrifique a bicicleta, que sempre sofre com as condições severas do terreno. O mais comum é que todo ciclista tenha sempre mais de uma bike e um auxiliar pronto para essa tarefa.

CALENDÁRIO

As corridas começam em setembro e praticamente todos os finais de semana tem prova em algum lugar. O calendário da Copa do Mundo UCI para a temporada 2012/2013 tem oito etapas. A primeira etapa foi no dia 21 de outubro em Tabor, na República Tcheca, e a última será no dia 20 de janeiro em Hoogerheide, na Holanda, com passagem pela França, Bélgica e Itália. A etapa única do Campeonato Mundial está marcada será no dia 3 de fevereiro em Louisville, no estado do Kentucky, nos Estados Unidos.

A UCI promove transmissões ao vivo das etapas da Copa do Mundo que podem ser acompanhadas no site oficial da entidade.

Uma das provas mais interessantes da temporada foi a quarta etapa da Copa do Mundo UCI, realizada no lendário velódromo de Roubaix. Divididos em baterias, os pelotões largaram de dentro do velódromo e em seguida saíram para um circuito montado no entorno, com passagem por pisos enlameados dentro de uma floresta, e com uma subida de escada. A cada volta, os competidores passavam novamente dentro do velódromo e eram saudados pelo público.

Outra competição de prestígio é o “Giro D’Italia Ciclocross”, realizado pelos organizadores do Giro D’Itália. A última edição foi no dia 16 de dezembro na cidade histórica de Orvieto.

No Brasil, o ciclocross também existe e é praticado por uns poucos apaixonados. A cidade de Curitiba recebeu esse ano uma etapa realizada num bike parque e muitos competidores improvisaram com bikes de ciclismo adaptadas, já que no Brasil é difícil encontrar equipamento apropriado.

PROVA LONGA

Além da tradicional corrida em circuito há também provas de longo percurso. A mais famosa prova desse tipo é a “3 Peaks Cyclo-Cross” com 61km de extensão e realizada todos os anos desde 1959 no mês de dezembro no Parque Nacional Yorkshire Dales, na Grã-Bretanha. Nos Estados Unidos o calendário da Ultracross tem sete etapas realizadas de fevereiro a novembro com distâncias de até 100 quilômetros.

NOMES DE DESTAQUE

A chuvosa e fria Bélgica é a Meca da modalidade e lidera o ranking UCI por Nações e também no individual com nada menos que cinco atletas nas cinco primeiras posições do ranking da elite masculina. A liderança é de Steven Nys, um ex-piloto de BMX de 37 anos, que tem 2.270 pontos contra 2.229 de seu compatriota Kevin Pauwels de 29 anos. No feminino, a liderança é da norte-americana Katherine Compton de 35 anos que tem 2.180 pontos*. A segunda colocada é ninguém menos que a holandesa Marianne Vos, de 26 anos e medalhista de ouro na prova de estrada em Londres.

*Dados referentes ao ranking UCI no dia 4 de dezembro de 2012.

AS MÁQUINAS DA LAMA

As bicicletas de CX são muito semelhantes às bikes de ciclismo, inclusive com os tradicionais guidões curvos. Mas basta uma olhada com mais atenção para que as diferenças fiquem evidentes.

A diferença começa pela geometria. Uma clássica bike de ciclocross tem a caixa do movimento central mais elevada em relação ao solo para facilitar a passagem sobre obstáculos. Mais recentemente, entretanto, essa característica tem dado lugar a quadros com uma caixa de centro mais baixa para favorecer o equilíbrio e uma bike mais baixa facilita bastante nas manobras de montar e desmontar.

Os garfos são mais largos na parte superior para evitar o acúmulo de lama e os pneus são mais largos (700×25, 700×32 ou 700×35) e possuem cravos. Muitos praticantes preferem pneus tubulares, que têm uma rodagem mais macia, aderem melhor ao terreno e demoram a murchar após furarem.

Outra característica importante são os freios do tipo Cantilever, que são bem abertos e evitam o mau funcionamento por conta do excesso de barro. Os freios a disco já equipam algumas bikes.

O guidão é mais largo que o normal para facilitar a pilotagem e aumentar a estabilidade. Algumas bikes possuem um pequeno manete auxiliar de freio, que fica instalada na parte alta e horizontal do guidão alavanca e facilita a vida do ciclista na hora das frenagens.

O pedivela tem uma relação mais curta (normalmente 46×36 dentes) e atualmente há quem use uma única coroa. O câmbio dianteiro tem uma guia especial para evitar que a corrente caia fora da coroa. Outra diferença bem visível são os pedais de mountain bike, de preferência modelos que acumulam pouco barro, como os Egg Beater. O selim também é especial e possui a ponta anatômica para se encaixar no ombro do ciclista, já que a manobra de correr e carregar a bike é muito comum.

Os cabos de freio e de câmbio seguem um percurso diferente e acompanham o tubo horizontal para não atrapalharem na hora da bike ser carregada e também para ficarem o mais longe possível da lama.

Alguns ciclistas invertem a posição da manete dos freios e passam o freio dianteiro para o lado direito do guidão, já que a maioria dos ciclistas é destra e o freio dianteiro tem maior poder de frenagem e exige mais força. Como em qualquer outra bike de competição, quanto mais leve uma bike de ciclocross melhor, especialmente na hora de carregá-la nos ombros morro acima.

Freio a disco

A mais recente inovação no universo do ciclocross já chegou às pistas. Trata-se dos freios a disco. Durante o US Grand Prix de Ciclocross, em Castle Rock, no Colorado (EUA), não muito longe da sede da SRAM, o atleta Tim Johnson foi flagrado pedalando uma Cannondale equipada com um protótipo do freio a disco SRAM Red.

Uma das primeiras características que chama a atenção é o grande volume dos manetes, que trazem em seu interior o cilindro mestre na posição vertical. O freio tem pinças de dois pistões feitas de alumínio forjado e com algumas peças de titânio. O produto, que só deve chegar ao mercado em abril do ano que vem e deve equipar também as bikes de estrada.