Bikemagazine pedala nos belos cenários da Capadócia, na Turquia

HomeCicloturismo

Bikemagazine pedala nos belos cenários da Capadócia, na Turquia

Região conta com muitas belezas naturais e atrações históricas

Uma das muitas vilas. Na foto o belo Castelo de Ortahisar próximo a Goreme

Texto: Marcos Adami
Fotos de Marcos Adami e Mehmet Ozden

Publicado com autorização da revista Bike Action

Kapadokya, Cappadocia, Capadócia. Existem muitas formas de escrever o nome dessa região na Turquia que significa terra dos belos cavalos. Distante 600 quilômetros de Istambul e a 320km da capital Ancara, a Capadócia é a região compreendida entre as cidades de Aksaray, Avanos e Nigde e tem como principais cidades turísticas Goreme (Patrimônio Mundial da UNESCO) , Urgup, Nevsehir, Kayseri e também Avanos, além de um sem-fim de pequenas vilas e aldeias que parecem ter parado no tempo.

Montanhas da região atraem cicloturistas

Com uma altitude média de mil metros e localizada bem no centro do país, numa encruzilhada de rotas comerciais, a Capadócia é habitada há milhares de anos por várias civilizações e, por conta de suas terras férteis, sempre esteve na mira de vários invasores, tanto europeus – como  Alexandre – quanto outros povos da Ásia Central. Já foi capital do Império Hitita, há 3 mil anos, e também província romana.

O que chama atenção logo de cara entretanto, é a vasta paisagem de aspecto lunar que domina toda a região e, ao fundo, pode-se avistar ao longe o Monte Erciyes, de 3.916 metros, sempre coberto de neve.

As famosas formações rochosas conhecidas como “Chaminés de Fada” dominam o cenário e é o resultado da ação da natureza no solo, que é mole o bastante para ser facilmente escavado e ao mesmo tempo resistente para que se construa sólidas casas e até mesmo igrejas e castelos nessas formações típicas.

Ao fundo, o Monte Erciyes, de 3.916 metros, sempre coberto de neve

Esse cenário se completa com belos rios de água cristalina, cidades subterrâneas com até 100 metros de profundidade, vinhedos e pequenas propriedades rurais de cultivos diversos, pastores e seus rebanhos de ovelhas e cabras, florestas e profundos e extensos vales floridos, cada um mais bonito que outro.

Mas a melhor parte vem agora. Todo esse paraíso é perfeito para a prática do cicloturismo e do mountain bike e há trilhas e caminhos para todos os gostos e níveis de condicionamento físico.

Uzengi, riacho de águas cristalinas

Diversidade de trilhas e atrações
Com a companhia do experiente guia Atil Kamas, da Argeus Travel, pedalei três dias pela região e conheci as principais atrações e trilhas para mountain bike. Pouco asfalto e muito, muito single track, cada qual com sua particularidade e beleza.

No primeiro dia percorri um trecho curto de 20km, para adaptação à bike e ao terreno. Num dia bonito, de céu azul bastante intenso, começamos nosso pedal a poucos quilômetros de Urgup, no alto de uma encosta de onde se avistava um belo vale. Que delícia curtir um longo downhill em single track com 700 metros de desnível, sem muitas dificuldades técnicas, mas que exigiu atenção por conta do solo coberto de pedrinhas e traiçoeiro. Despencar morro abaixo não fazia parte dos nossos planos. Chegamos na localidade de Ortahisar com seu típico castelo escavado numa formação rochosa.

Após uma parada para curtir o visual e o almoço, iniciamos a subida por asfalto em  direção à Uçhisar, que tem como atração um gigante castelo que pode ser visto de praticamente toda a região e é um dos cartões-postais da Capadócia.

No dia seguinte, rodamos mais umas três horas e percorremos belas trilhas e estradinhas que cruzaram vinhedos e plantações de damasco, ainda a amadurecer no pé. No verão, estariam perfeitos para consumo.

Vales ao longo do caminho na pedalada pela Capadócia

Um dos pontos altos da pedalada foi pedalar dentro de um riacho de águas cristalinas, o Uzengi. O riozinho corre manso e com pouca profundidade sobre lajes de pedras. Diversão pura. Almoçamos num restaurante caseiro – uma cooperativa de mulheres, na realidade – na pequena localidade de Mustafapasa, uma antiga vila habitada no passado por gregos e que tem como atração uma antiga igreja ortodoxa ainda em atividade e casarões de madeira da época do império otomano.

Na parte da tarde, aprendi muito durante uma visita a uma fábrica de tapetes. Fui recepcionado por um turco casado com uma brasileira e que dominava muito bem o português. Pacientemente me explicou tudo a respeito de tapetes: quais os tipos, as tramas dos fios, materiais que são feitos etc. Mas o mais interessante foi observar como as tecelãs trabalham e fazem os pontos, um por um, se transformarem em obras de arte.

Uma maneira de conhecer os belos cenários é fazer um passeio de balão. Confira vídeo:

Mais uma pedalada, dessa vez por asfalto, e chegamos na Serihan Caravanserai, que é um tipo de construção bastante comum e que se estende da Turquia até a China. As caravanserai eram os abrigos fortificados que recebiam as caravanas que percorriam o longo caminho que ficou conhecido como Rota da Seda e eram espalhados em intervalos de mais ou menos 40km, distância média que um camelo percorre por dia de jornada. A Turquia ainda possui várias dessas construções, algumas forma transformadas em hotéis, outras estão tombadas pelo patrimônio histórico, mas infelizmente muitas estão em ruínas ou já não existem mais.

Dali, seguimos em direção a um vale espremido entre duas altas encostas, num caminho todo em single track, em meio a uma bela vegetação e muitas, muitas flores.

Mais um pouco de asfalto, sempre em subida, e encerramos o dia em Urgup. Para relaxar, nada melhor que um tradicional banho num haman, o tradicional banho turco numa casa de banhos coletiva, toda de mármore, e quente como uma sauna.

O sempre verde Vale de Ihlara é um dos mais belos lugares para se pedalar

No último dia, Atil me levou de carro até a cidade de Derinkuyu, onde descemos para conhecer a maior cidade subterrânea aberta a visitação. O local recebe diariamente hordas e hordas de turistas vindos do mundo todo. Encontramos muitos brasileiros e, como bom guia, Atil não perdeu a oportunidade de treinar seu português.

De volta ao carro, seguimos alguns quilômetros em direção à Selime, vila que serve de porta de entrada para o Vale de Ihlara. Com a bike nas costas, descemos em direção ao fundo do vale – na realidade, um longo e profundo canyon com mais de 100 metros de profundidade e cortado por um rio largo e de corrente forte.

[nggallery id=202]

A trilha de 18km é bem demarcada e exige que se desmonte para transpor alguns trechos sobre barrancos íngremes. Depois de uma hora de pedal (e carregando a bike…) paramos para comer uma típica torta turca recheada com queijo e espinafre, com um delicioso suco de romãs espremido na hora para acompanhar. A partir dali, a trilha se tornou mais pedalável e pudemos curtir o visual com o rio como companhia.  No alto das encostas, pequenas aberturas serviam no passado para a criação de pombos, que forneciam o fertilizante para a agricultura. Outra atração do vale são as muitas igrejas que foram cavadas e ainda hoje podemos observar ícones e imagens de santos católicos desenhados nas paredes.

Na região há trilhas e caminhos para todos os gostos e níveis de condicionamento

Seguimos a trilha, que tem pontes de madeira e cruza o rio várias vezes, até chegarmos no ponto de encontro onde nos esperava o carro para voltar a Urgup, onde encerramos a pedalada com um almoço inesquecível: cordeiro assado com purê de berinjelas assadas na churrasqueira e, para beber, um copo do saboroso ayran, uma espécie de iogurte salgado.

Como a região é grande e repleta de trilhas, estradinhas e muitas atrações turísticas e ciclísticas, deixei de ver muitas coisas. Pretendo voltar mais vezes e quem sabe, participar do Festival de Mountain Bike.

Pedalada pelas formações rochosas conhecidas como “Chaminés de Fada”

Festival de Mountain Bike
Uma iniciativa interessante que os operadores de turismo e amantes do mountain bike da região organizam todos os anos é o Mountain Bike Festival, evento realizado no mês de junho e que dura quatro dias. Organizado com recursos de patrocinadores, o festival percorre quatro roteiros diferentes nas trilhas da região, sempre com quilometragens entre 50km e 60km e com todo apoio logístico. Além das pedaladas, o evento tem também atrações musicais, artísticas e gastronômicas nos momentos de descanso.

O festival foi criado há quatro anos e começou com pouco mais de 30 ciclistas, hoje o número é limitado a 300 participantes e qualquer um pode participar, basta fazer a reserva com alguma antecipação. A hospedagem recomendada é num camping, que é a sede do evento e dos eventos musicais. O melhor de tudo isso? É bem barato, algo como R$ 150, com tudo incluído. Empresários brasileiros do setor ciclístico e turístico deveriam pensar a respeito e criar algo parecido no Brasil. Mais informações no site www.cappadociabikefestival.com

Biker passa por uma das inúmeras construções (igrejas) escavadas na rocha. História e diversão garantida para quem pedala pela Capadócia

Cidades subterrâneas
Não, não é possível pedalar lá dentro! Mas com toda a certeza merecem uma visita guiada.

Existem mais de 50 cidades subterrâneas na Capadócia, algumas com até 20 mil habitantes, que datam de 4.000 a.C, ainda na época dos Hititas. No século VII, com a perseguição dos cristãos no Império Romano, essas cidades foram novamente ocupadas e usadas como esconderijo.

Interligadas por túneis com até 3km de extensão, essas obras impressionantes da engenharia da antiguidade mais se parecem com formigueiros e alcançam até 100 metros de profundidade.

As mais famosas e abertas à visitação pública são Derinkuyu, Kaymakli, Ozkonak e Mazi. Estas cidades têm vários níveis — a de Kaymakli, por exemplo, tem nove. A temperatura é sempre na casa dos 15º C, perfeito portanto para a fabricação do vinho, uma das riquezas da região. As várias galerias funcionam como cômodos gigantes e são interligados por passagens que, às vezes de tão estreitas, podem apavorar os mais claustrofóbicos.

A ventilação é boa e feita por meio de canais que sobem à superfície e captam ar fresco para toda a cidade, que inclui estábulos, prensa de vinho e de azeite, padarias, escola, igreja, depósito de cereais e de água, enfim, todo o necessário para que seus habitantes se mantivessem a salvo e resistissem vários dias aos inimigos.

Marcos Adami e o guia Atil Kamas

Marcos Adami pedalou a convite da agência Argeus Tourism & Travel. Istiklal Caddesi 47, Urgup, Capadócia – www.argeus.com