O velódromo da discórdia: entenda como o Rio de Janeiro perdeu sua pista

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O velódromo da discórdia: entenda como o Rio de Janeiro perdeu sua pista

Construído para o Pan do Rio de Janeiro de 2007, instalação é alvo da especulação imobiliária e é desmontado

Texto de Marcos Adami – Bikemagazine
Fotos de divulgação
Texto publicado com autorização da Revista Bike Action

Em um país que se indignou contra a corrupção e saiu às ruas exigindo soluções e um futuro melhor para a nação, o ciclismo brasileiro mais uma vez dá sinais de que faltam políticos sérios e homens honestos no comando da modalidade. A luta por melhores condições no ciclismo é antiga e vai além de questões orçamentárias. Dinheiro é o menor dos problemas que o esporte enfrenta no Brasil.

No dia 28 de maio, uma reportagem exibida pela ESPN Brasil acendeu a ira de quem quer um futuro melhor para o nosso esporte, afinal, na matéria investigativa com uma hora de duração ficou evidente que não faltaram muitos milhões de reais destinados ao ciclismo. Mas foi revoltante constatar que o destino desse montante não irá reverter em benefícios ao esporte como um todo, muito menos aos atletas.

O Tribunal de Contas da União (TCU), em sua regional paranaense, investia há tempos na Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC). Segundo Gustavo Andrioli, secretário do TCU, a entidade é investigada por licitação fraudulenta na compra de 260 bicicletas para a iniciação esportiva e afirma que há indícios robustos de montagem de processos licitatórios e de superfaturamento em algumas compras, na contratação de serviços administrativos, empresas de fachada, e outras irregularidades.

Errado desde o início

Em meio a tantos escândalos protagonizados pela Confederação Brasileira de Ciclismo, a reportagem centrou fogo principalmente no velódromo do Rio de Janeiro. O episódio, sem dúvida, é um grande escândalo olímpico na história do Brasil e o custo para o bolso do contribuindo chega a 140 milhões de reais. A entidade está sendo investigada pela regional paranaense do TCU.

O Brasil tem pouquíssimos velódromos em atividade: Americana e Caieiras, em São Paulo, Curitiba e Maringá, no Paraná, são como oásis num deserto.

O do Rio de Janeiro, concebido para receber os Jogos Pan-Americanos em 2007, já começou errado em muitos aspectos. Sua construção, dentro do complexo do autódromo de Jacarepaguá, numa área supervalorizada no Sul da capital fluminense, desagradou a muitos, incluindo os fãs do automobilismo que perderam o circuito que já recebeu dezenas de corridas de Fórmula 1. E, infelizmente, a instalação olímpica da modalidade que rende o maior número de medalhas para um país (são mais de 50, para se ter uma ideia) foi usada de maneira inescrupulosa por autoridades que viram uma oportunidade de negócio.

Na época, o Comitê Olímpico e a Prefeitura da cidade queriam construir um velódromo desmontável a um custo aproximado de R$ 7 milhões. Depois de muita luta e manifestações – nada comparado ao que se viu em junho nas ruas de todo o Brasil, mas ainda assim houve mobilização de ciclistas – decidiu-se pela construção de um velódromo permanente a um custo de R$ 14 milhões. O velódromo permanente foi muito comemorado pela então presidente da Federação de Ciclismo do Rio de Janeiro, Ieda Botelho, e pelos ciclistas cariocas.

Apesar de moderno e de utilizar madeira siberiana própria para essa finalidade, o equipamento carioca não agradou. Semiaberto nas laterais, sofria com a ação do vento exterior – e isso num velódromo é inaceitável. Mas o problema maior sempre foi na pista de rolagem. Durante a montagem, a emenda das pranchas de madeira foi feita fora das travessas de sustentação, de maneira que a pista cedia com o peso dos ciclistas. Os reforços nas emendas, leia-se “gambiarra”, foram feitos, mas ficaram aquém de resolver o problema e de oferecer um andamento perfeito para ciclistas que buscam recordes na casa dos milésimos de segundos. Em fevereiro desse ano, o velódromo fechou as portas para demolição e deixou órfãos, além dos ciclistas, aqueles que acreditaram no projeto social.

Fora do padrão

A arquibancada, que tem 1.500 lugares, nunca lotou, nem mesmo durante o Pan, quando recebeu competições de países com muita tradição no ciclismo de pista como Colômbia, Venezuela, Cuba, Chile, Uruguai e Argentina.

Passados os Jogos Pan-Americanos de 2007, a verdade é que o velódromo do Rio de Janeiro foi sempre subutilizado. Sediou um campeonato aqui e outro ali e recebeu também projetos sociais com crianças das comunidades carentes do seu entorno.

Não bastasse o início atribulado e nada glorioso, o pior ainda estava por vir.

A notícia de que a cidade iria precisar construir um novo velódromo para receber os Jogos Olímpicos de 2016 caiu como uma bomba para a comunidade ciclística que, a princípio, não entendeu os motivos.

O velódromo do Pan, construído pela empreiteira Oriente Construção Civil, não poderia receber as provas dos Jogos Olímpicos de 2016 por estar fora de conformidade para os padrões exigidos numa Olimpíada. A reportagem da ESPN foi até a Holanda e entrevistou pessoalmente o arquiteto e engenheiro responsável pela construção do velódromo do Pan, Sander Douma, que é um dos maiores especialistas do mundo na construção de pistas de velódromo e já projetou 20 pistas, entre elas a do velódromo que recebeu os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

Segundo Douma, devido ao orçamento limitado para os Jogos Pan-Americanos, a estrutura que segura o teto teria duas grandes pilastras internas. Já a pista foi construída com madeira vinda da Sibéria, de árvores de crescimento lento e que oferecem uma madeira macia e com pouca dilatação, própria para países tropicais como o Brasil. Na estrutura física, ele se preocupou em deixar espaço suficiente para uma futura ampliação das arquibancadas caso a cidade ganhasse o direito de realizar os Jogos Olímpicos de 2016.

Mas o que sepultou de vez o velódromo do Pan foram justamente as pilastras internas e a capacidade limitada para 1.500 espectadores, além da falta de temperatura controlada. Após estudos, foi decidido que seria construído um novo velódromo, em um novo local.

Na entrevista, Douma diz que ficou surpreso quando pediram para desmontar uma pista em perfeitas condições, algo inédito em seu currículo. O arquiteto garante que com 6 milhões de Euros (R$ 17 milhões) seria possível adequar o velódromo existente com pilastras externas que sustentariam o teto e aumentar a capacidade para 5 mil espectadores, como exigido pelo Comitê Olímpico Internacional.

Planalto Central

O novo velódromo será construído dentro do Parque Olímpico, que ocupará uma área de 1,18 milhão de metros quadrados na Zona Oeste da cidade e tem previsão de conclusão para o segundo semestre de 2015. Com formato de capacete, o novo equipamento será uma das mais belas obras dos Jogos do Rio 2016. A questão toda é o preço astronômico do empreendimento: nada menos que R$ 147 milhões.

A nova pista deve ter madeira alemã, equipamentos de última geração para cronometragem e transmissão de imagens, além de temperatura controlada.

Para minimizar todo o prejuízo financeiro e o vexame do mal fadado velódromo carioca, o Ministério do Esporte resolveu doar o velódromo para a cidade de Goiânia, a 1.440 km do Rio de Janeiro.

O velódromo descartado será remontado perto do Estádio Serra Dourada, na capital goiana, num projeto que prevê a criação do Parque das Bicicletas, numa área com 34 mil metros quadrados. Mas há novos problemas à vista e novos sinais de corrupção no horizonte, já que a remontagem – caso fosse possível – exigiria quase R$ 35 milhões, sendo que só o custo do frete seria de quase meio milhão de reais. Para alguns especialistas, a remontagem em Goiânia é uma mera falácia, já que a pista de rolamento foi quase que totalmente destruída durante a desmontagem e apenas seriam reaproveitados de 12% a 15% do da madeira que sobrou, em sua maioria vigas e travessas. Além disso, a Prefeitura de Goiânia terá de providenciar toda a infraestrutura do prédio.

Segundo Luciano de Castro, secretário de Obras de Goiânia, o Ministério dos Esportes ajudaria a capital goiana com uma verba aproximada de R$ 13 milhões. Mas Castro não se mostra nada favorável ao projeto e admite que não tem conhecimentos técnicos para comandar tal empreendimento.

A questão imobiliária

Longe de Goiânia e com o coração partido pelo velódromo demolido, Claudio Santos, presidente da Federação de Ciclismo do Rio de Janeiro, acompanha tudo atentamente e sob um ângulo muito cruel.

Não é de hoje que a Barra da Tijuca, não muito distante da região do autódromo de Jacarepaguá, é um dos lugares mais prósperos do ponto de vista imobiliário da cidade. Condomínios de luxo e shoppings centers cada vez mais ganham espaço na região.

“Eles estão querendo maquiar uma situação para dizer que salvaram o velódromo do Rio. Se querem usar a área para a especulação imobiliária pelo menos que assumam isso”, diz o presidente, que, segundo a reportagem da ESPN, empenhou R$ 150 mil do próprio bolso para desenvolver o ciclismo de pista no Rio e fomentar e divulgar a modalidade para as novas gerações.

“Colocamos dinheiro e muitas noites sem dormir para desenvolver uma coisa pela qual a gente é apaixonado. Mas agora a gente sabe que o problema todo é o dinheiro. Aquilo ali vai virar um grande empreendimento imobiliário, com muitos apartamentos. Vão acabar com tudo o que a gente sonhou, com projetos, com atletas, com tudo”.