Ano Novo com pedal pela Estrada Real, entre Diamantina e Paraty

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Ano Novo com pedal pela Estrada Real, entre Diamantina e Paraty

Confira cicloviagem de Nestor Freire, que pedalou pelo Caminho dos Diamantes e Caminho Velho em 17 dias

O cicloturista Nestor Freire posa para a foto em cachoeira em Carrancas

O cicloturista Nestor Freire posa para a foto em cachoeira em Carrancas

1mapa-da-estrada-realPor Nestor Freire
Empresário, 47 anos, cicloturista apaixonado

Sábado, 6 de abril de 2013, 10h, Hospital São Luiz, São Paulo, eu entrava numa sala de cirurgia pra fazer dois procedimentos no joelho esquerdo que me causavam imensa dor ao pedalar. A famosa Síndrome da Banda Iliotibial, que afeta muitos ciclistas, foi agravada principalmente por um ligamento rompido.

Procedimento realizado com sucesso, ufa; a partir daí, seguindo rigorosamente a orientação médica e fisioterápica, consegui retornar a uma bicicleta ergométrica após três meses. Então, dando as primeiras pedaladas numa ergométrica, senti que minha recuperação estava no caminho certo e decidi que poderia comemorar a realização desse sucesso e a dor solitária ante, durante e pós-cirúrgica justamente me dando um presente, também solitário: realizar uma travessia longa de 1.050 km na Estrada Real entre Diamantina, MG e Paraty, RJ na passagem de ano 2013/2014.

Estabelecer metas e planejamento para atingi-las. Esse foi meu foco durante os cinco meses que antecederam a minha partida de ônibus de São Paulo para Diamantina.

Envolvi treze profissionais nesse planejamento, do ortopedista e ao cardiologista, da psicóloga e ao bike fitter.

Mãos à obra, cinco meses focado, muitas consultas e treinamento intenso quando finalmente chegou o dia 25-12-2013. Era um presente de Natal, eu ser levado de carona por uma grande amiga até a rodoviária de São Paulo. Ansioso, embarcamos para Diamantina, eu, dois alforjes e minha bike.

Preocupado com a previsão do tempo, com o excesso de chuvas que poderiam assolar a região nessa estação do ano e com todas as intempéries, cheguei a Diamantina justamente embaixo de chuva em 26-12 e um tanto preocupado pelas condições da estrada.

parati6Saí dia 27-12, às 7h, determinado a percorrer o Caminho dos Diamantes e Caminho Velho e chegar a Paraty 17 dias depois. Foi nesse dia e nessa hora que começou a experiência mais fascinante que já vivi.

1º dia, Diamantina – Serro: Depois de descansar uma noite da viagem de ônibus, saí de Diamantina bem cedinho com o objetivo de chegar a Alvorada de Minas, 80 km depois. Logo nos primeiros quinze quilômetros, notei uma coisa – quem determinaria o ritmo da viagem não seria eu, nem minha planilha e sim, a estrada. Passava por lugares maravilhosos, montanhas, cruzava com lagartos, gambás, quando cheguei à minha primeira parada. Milho Verde! Sim, esse era o nome da cidade, por sinal, muito simpática. Eram 11 horas da manhã e foi então que meu primeiro desafio apareceria, e me acompanharia até meu último dia, o calor. Parei para almoço num restaurante de comida mineira e continuei viagem até Serro, 66 km depois, onde minhas pernas me deixariam chegar. Serro é uma cidade pitoresca, rodeada por montanhas e com ótima infraestrutura turística. Cheguei tarde a Serro e escolhi ficar na Pousada do Queijo, nome dado a uma das coisas que a cidade produz de melhor, o queijo.

2º dia, Serro – Conceição do Mato Dentro: Logo cedo peguei estrada destino Conceição do Mato Dentro passando por Alvorada de Minas e Itapanhoacanga. Já em Itaponhoacanga se repara o estrago feito pela ação das mineradoras nas montanhas. Veio a chuva que lavou a estrada e foi quando no caminho me encontrei com dois cicloviajantes, um indo para a Bahia e outro seguindo na minha direção. Pedalei com um deles até Conceição do Mato Dentro e acabamos encontrando mais três cicloturistas.

3º dia, Conceição do Mato Dentro – Tabuleiro – Conceição do Mato Dentro: Fiquei um dia nessa cidade com um único propósito, descansar um dia para conhecer a famosa Cachoeira do Tabuleiro. A Cachoeira do Tabuleiro é a cachoeira mais alta, a mais linda que já conheci. São 273 metros de água em queda livre e uma paisagem deslumbrante.

parati14º dia, Conceição do Mato Dentro – Itambé do Mato Dentro: Fui avisado que esse dia não seria fácil. Passaria por uma cidade chamada Morro do Pilar, que só pelo nome já assusta e não é por menos, realmente é morro atrás de morro pra se chegar lá. Cheguei na hora do almoço, comi num excelente restaurante em frente à Polícia Militar e mais uma vez a chuva chegou, só que dessa vez não era chuva, era tempestade mesmo. Foram apenas uma hora de chuva intermitente. Revi meu estado físico, comprei mais 1,5 litro de água e decidi continuar viagem. Só não achava que meus próximos quilômetros seriam tão difíceis. A chuva desintegrou a estrada que me desafiava com morros atrás de morros. Há doze quilômetros do fim do meu trecho, completamente desgastado, sem água, empurrando a bike na subida e na descida de lama, encontrei peregrinos que me deram um pouco mais de água, mas não me animaram muito quando me contaram a quantidade de morros que eu ainda teria que enfrentar. Cheguei a Itambé do Mato Dentro no fim de tarde, nove horas de estrada e muito cansado. Fui muito bem recebido no Hotel Estrela com comida caseira fantástica. Por lá ficaria duas noites, descansando para continuar a jornada. Valeu a pena, pois foi tempo suficiente para conhecer as cachoeiras de lá.

5º dia, Itambé do Mato Dentro: Valeu a pena ficar um dia a mais em Itambé, pois foi tempo suficiente para conhecer as cachoeiras e degustar a culinária da cidade. Acabei reencontrando o cicloturista que pedalou comigo e iríamos juntos até Mariana.

6º dia, Itambé do Mato Dentro – Cocais: Dia 1 de janeiro de 2014, tive o prazer de ver o nascer do sol na estrada. Fomos acompanhados por montanhas maravilhosas iluminadas pelo vermelho do sol. Pedalamos juntos até Cocais, uma cidade histórica, arquitetura colonial e lá fiquei na pousada mais charmosa de todas que passei, a Pousada Vila Cocais. Passei muito calor esse dia, sensação térmica de 48 graus. Cheguei muito desgastado em Cocais, mas depois de um banho gelado e uma excelente refeição na própria pousada, foram o suficiente pra recuperar todas as energias para fazer uma caminhada para conhecer a cidade.

7º dia, Cocais – Catas Altas: Pedalei com meu companheiro de viagem ate Catas Altas, calor intenso, mas como pegamos grande parte da estrada de asfalto, conseguimos fazer uma media horária boa e chegar lá no começo da tarde para um excelente almoço. Ficamos numa pousada da artesã Letícia. Lugar muito charmoso e aconchegante. Catas Altas, ao pé da Serra do Caraça, tem várias cachoeiras, mas também é caracterizada pela exploração do minério de ferro. No dia da nossa partida, a Sra Leticia da pousada nos convidou a visitar seu atelier e nos presenteou com os mapas oficiais da Estrada Real.

1mariana8º dia, Catas Altas – Mariana: O trecho não foi tão longo, apesar de a subida final a Mariana judiar muito das pernas, a chegada a Mariana foi emocionante. Cidade histórica, barroca e cheia de graça, povo receptivo, fui recebido com um chá da tarde na pousada Getsêmani. Final do dia, fui conhecer o projeto “Chuva de Música”, o qual o clarinetista Paulo Cota toca para a cidade; simplesmente incrível.

9º dia, Mariana – Ouro Preto: No caminho, logo na saída de Mariana, parei na famosa Mina da Passagem, a qual se desce de trolley a 120 metros de profundidade. Trecho curto até Ouro Preto, mas com subida muito íngreme, 668 m de elevação. Ouro Preto é fascinante; depois de passar o dia e visitar diversas igrejas e o Museu da Inconfidência, fiquei deslumbrado com a beleza da Paróquia Nossa Senhora do Pilar. A atmosfera, as ruas de Ouro Preto me conquistaram pela sua história. Definitivamente, uma cidade que se respira história.

10º dia, Ouro Preto – Entre Rios de Minas: Saí de Ouro Preto às 6 h rumo Lavras Novas, mudando completamente meu roteiro, pegando um trecho do Caminho Novo sentido Ouro Branco com destino final em Entre Rios de Minas. De cara, uma serra de Ouro Preto a Ouro Branco com 8 km de ascensão e altitude máxima de 1.330 m. Muito calor logo cedo, parada estratégica em Ouro Branco pra reabastecimento de água e continuei direto até Entre Rios de Minas, 70 km depois, voltando ao meu roteiro planejado de descer pelo Caminho Velho. Entre Rios de Minas, uma cidade simpática, pequena e tranquila. Almoço delicioso no Restaurante Pratos de Minas e missa no fim do “Dia de Reis” na Igreja Nossa Senhora de Brotas.

11º dia, Entre Rios de Minas – Tiradentes: O meu primeiro destino era São João Del Rey pra conhecer um pouco da cidade. Com certeza a Igreja de São Francisco de Assis é uma das mais lindas de toda a viagem; parada estratégica para almoço, voltando a Tiradentes onde passaria a noite. Tiradentes é única, linda e cheia de natureza. Passeie de Maria Fumaça e vá à Gruta Casa de Pedra e se hospede no Pouso Francês.

parati512º dia, Tiradentes – Carrancas: Depois de 88 km cheguei a Carrancas. Trecho de natureza exuberante, estrada de terra, travessia de balsa entre Caquende e Capela do Saco. Nada fácil, a subida da Serra de Carrancas é dolorosa, mas você vai ser premiado com uma vista espetacular à 1294 m de altitude. Cuidado som os mata-burros na vertical.

13º dia, Carrancas: Descansei em Carrancas, ficando um dia a mais, cidade espetacular pelo número de cachoeiras. Almoce na casa da Dona Maria do Carmo, perto da Pousada Sena. Comidinha caseira tudo de bom.

14º dia, Carrancas – Caxambu: 90 km de pedal com trechos variados, passando por Cruzília para uma pausa para almoço. As paisagens começam a ficar mais urbanas. Vá ao Parque das Águas em Caxambu e tome um sorvete na pracinha.

14º dia, Caxambu, Vila do Embaú (Cachoeira Paulista): Pedalei 102 km nesse dia. Descida espetacular pela Serra da Mantiqueira ate Vila do Embaú. Atenção, pois existe uma ponte em construção em Vila do Embaú e uma pinguela para ser atravessada. Fiquei em Cachoeira Paulista, pois Vila do Embaú não tem infraestrutura turística.

15º dia, Cachoeira Paulista – Cunha: Você desceu a 500 m de altitude, tenha na cabeça que embora esteja em direção ao mar, você vai subir novamente, e muito. A Serra de Cunha é cruel e são 12 km de subida a 971 m de altitude. Cunha, a cidade dos artesanatos, calma, me recebeu com um belo arco-íris coroando meu penúltimo dia de viagem.

parati216º dia, Cunha – Paraty: Que maravilha, só descida! Mentira, você vai pedalar a 1405 m antes de descer. No Caminho pare na cachoeira antes de descer a serra e tome uma ducha, pois ela será uma das últimas que você terá oportunidade no caminho. Contemple Paraty de longe, a imagem da cidade no topo da serra já emociona. Paraty histórica, com suas ruas de pedra me deixaram encantado e realizado.

Interessante que quando comecei a pedalar na Estrada Real, logo no primeiro dia, reparei que quem iria determinar meu ritmo e as minhas paradas não seria eu, e sim a Estrada. Deveria pedir licença para ver suas belezas, sentir seu cheiro e ter muito, mas muito respeito para encarar suas oscilações e seus morros. Nunca me senti solitário, meu relacionamento com a Estrada Real foi harmônico e nesse período conheci lugares maravilhosos, cachoeiras divinas e muita gente hospitaleira e generosa. A Estrada Real me proporcionou isso, entrar num mundo com contato direto com a natureza e a cultura de nossos primórdios. Se sentir mais brasileiro e ver nossa história registrada em igrejas, minas, grutas e cachoeiras. Sem dúvida, a experiência mais fascinante da minha vida.

parati4Minhas Dez Dicas

Carregue estritamente o necessário. O peso que você leva é proporcional ao peso dos seus medos, ou seja, medo de ficar doente, passar frio, etc, assim lembre-se que numa viagem dessas você não precisa de muito para ser feliz.

Planejamento é fundamental, mas excesso aprisiona. Esteja aberto à mudanças, caso haja necessidade.

Tudo é muito intenso. Desfrute dos encontros com as pessoas que conhecer, lembre-se e deixa claro que estas foram importantes na sua trajetória. Sua felicidade não pode depender de ninguém, mas é bom saber que com algumas pessoas você ainda é mais feliz.

Seja humilde! Lembre-se que você está num lugar ermo e à mercê da natureza, logo, respeite-a. Lembre-se que sua vontade faz parte do contexto.

Hidrate-se muito! Em qualquer época do ano que você for, tenha certeza, vai estar quente. Lembra aquela garrafinha de água que você achou que não precisaria? Fique atento, pois nos últimos 5 km você pode precisar dela, e muito.

Coma à vontade, mas com consciência. Você vai precisar de muitos carboidratos, logo, balanceie a sua alimentação de forma que você esteja disposto no dia seguinte pra dar continuidade a seu pedal.

Bom humor! Tenha sempre! Situações de perrengue acontecerão e você necessitará dele para acalmá-lo e dar continuidade à sua viagem.

Lembre-se da coisa mais importante da sua viagem. Você mesmo! Cuide-se, pois sem você bem a viagem não acontece.

Cuide da sua bike, pois ela também tem necessidades e precisa da sua atenção para que sua viagem siga tranquila.

As suas escolhas constroem o seu caminho! Onde dormir, pra onde ir, quanto pedalar, enfim: o seu caminho é feito de escolhas, nem mais certas, nem mais erradas, mas determinantes e muitas vezes irreversíveis, assim, fique feliz, pois as suas escolhas fazem com que a trajetória seja só sua.

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