O melhor da nova Brasil Cycle Fair? Encontrar velhos amigos

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O melhor da nova Brasil Cycle Fair? Encontrar velhos amigos

Visita pela maior feira do setor revela um mercado despreparado para atrair clientes de bikes de até R$ 70 mil

No 1º dia da Brasil Cycle Fair, que foi aberto ao publico com ingresso a R$ 30,00

No 1º dia da Brasil Cycle Fair, que foi aberto ao publico com ingresso a R$ 30,00

Marcos Adami / Do Bikemagazine
Foto de divulgação / Roberto Furtado 

O melhor da terceira edição da Brasil Cycle Fair foi rever bons e velhos amigos que cultivei nesses quase 15 anos de andanças. Reencontrei amigos ciclistas, lojistas, mecânicos, donos de equipe, técnicos, organizadores de eventos, cicloativistas, importadores, fotógrafos, jornalistas, marqueteteiros e um montão de gente que ama ou ganha a vida graças à bicicleta.

O primeiro dia do evento foi aberto ao público em geral, que pagou R$ 30 pela visitação. Quem pagou e achou que iria poder adquirir produtos com desconto voltou decepcionado.”Achei uma perda de tempo e dinheiro”, postou um visitante numa rede social.

A verdade é que bastou um passeio pelos corredores para entender que muitos expositores ali não fazem a menor ideia do que se trata uma feira. Uma marca famosa mundialmente por seu óleo desengripante em spray lançou uma linha dedicada à bicicleta e distribuía amostras do velho óleo, mas não trouxe uma amostra sequer dos novos produtos. “O que esse cara veio fazer na feira?”, pensei.

Outros stands exibiam bicicletas, máquinas de soldagem de alumínio e produtos que seriam melhor divulgados em outros tipo de evento com foco em outro tipo de público. Na sala de imprensa, poucos expositores acharam útil deixar material de divulgação. Alias, a própria feira, tem pecado na divulgação, com raras informações relevantes.

Feira é muito mais do que um conjunto de stands, como se fossem vitrines cheias de novidade$ e com vendedores sentados com o talão de pedidos na mão torcendo para novos clientes aparecerem com talões de cheques a postos. Em alguns casos, faltou mesmo um approach decente e razoável por parte dos expositores, faltaram também sorrisos, gentileza e simpatia. Eu me pergunto se um importador aventureiro que traz uma marca desconhecida no Brasil acha que vai vender bikes de R$ 40 mil sem investir um real em publicidade. Boa sorte.

E o Demo Day? Não houve. Nas feiras mundo afora, as bikes e equipamentos em exposição têm pelo menos um dia dedicado ao teste do público. Quer testar a bike de R$ 70 mil para ver se é de acordo com seu estilo de pedalada? Quer dar um rolê de fat bike ou de bike elétrica para entender o produto e ver se é útil para os clientes de sua loja? Primeiro você compra, depois, qualquer coisa, converse com seu importador. Entendi.

Esse ano, o evento perdeu muito daquele brilho dos anos anteriores. Specialized, Merida, Bianchi, Caloi, Cannondale, GT e Pinarello não participaram. A centenária Caloi, que hoje integra o grupo canadense Dorel e está sob o mesmo chapéu da Cannondale e GT, promoveu um evento para seus representantes num hotel a poucos quilômetros dali. “Tem até transfer grátis para a feira”, contou-me um amigo lojista. A Caloi deixou de ser membro da Aliança Bike, a associação patronal que reúne mais de 80 empresas do setor e que, entre outras atividades, realiza a feira desde 2011. “Eles explicaram que não se sentiam representados pela nossa entidade”, revelou-me um conhecido, executivo da Aliança.

Mais uma vez, foi muito bom encontrar o Márcio May, um profissional educado e atencioso com a imprensa, que é quase exceção nesse mercado. May trata todo mundo muito bem, desde o curioso que nada vai gastar até o lojista que veio efetivamente tirar pedido de uma grande compra.

Deu gosto de ver a iniciativa do pessoal da “Handmade Bicycle Brasil”, que rateou as despesas e exibiu seus quadros e bikes artesanais num estande de 50 metros quadrados que encantou o público. De Porto Alegre veio Klaus Volkmann, que desceu no aeroporto e foi pedalando sua bike de bambu até o pavilhão. No stand coletivo, o paulista Klaus Poloni, um dos framebuilders mais famosos do Brasil, comentou. “É legal encontrar gente que pensa o ciclismo como algo bom para a saúde e para o planeta. O público está muito consumista e parece que ao mercado somente importa aquilo que é astronomicamente caro. Tem gente com mais dinheiro do que bom senso”, resumiu Poloni.

Já na saída, no caminho para o estacionamento, encontro mais amigos. Eram integrantes da equipe profissional de ciclismo da Ironage. “Marcos, lembra do perrengue que passamos no Giro do Interior?” Sim, passar perrengues nos carros de apoio durante a cobertura de voltas é um privilégio para poucos e estar junto desses amigos e ter histórias para contar não tem preço.