Mecânicos com história e só com hora marcada

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Mecânicos com história e só com hora marcada

Profissionais que cuidam das bicicletas mais sofisticadas contam como chegaram lá

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Conheça nomes da seleta “old school” de mecânica de bicicletas do Brasil

Por Marcos Adami / Do Bikemagazine
Fotos de arquivo pessoal
Publicado com autorização da Bike Action

No Brasil, uma seleta “old school” de mecânica de bicicletas reúne profissionais com serviços tão especiais quanto a tecnologia usada nas novas bikes. Num momento importante do crescimento do mercado ciclístico, com inovações a cada dia, é fundamental a valorização dos profissionais que zelam por máquinas que não poupam sofisticação. Os mecânicos, munidos do que há de melhor em ferramental, só atendem com hora marcada e sob indicação.

O conhecimento tem seu preço e o valor da mão de obra de um profissional como esse chega a surpreender. Alguns cobram até R$ 150,00 por uma lavagem ou sangria de freios, ou perto de R$ 400 por uma revisão completa. Há aqueles que só aceitam a bike limpinha.

A seguir, seleção de cinco profissionais que contam um pouco de sua história e especialidades

Ulisses Dupas

Ulisses Dupas: “Comecei a ir atrás de conhecimento técnico para dar manutenção nas bikes de amigos”

ULISSES DUPAS
O campineiro Ulisses Dupas começou a mexer em bikes ainda na infância quando corria de BMX. “Havia pistas em Campinas, Indaiatuba, Salto, Cosmópolis e outras cidades paulistas”, conta. Aos 15 anos já fazia a manutenção das bikes dos amigos e a paixão pela mecânica de bicicletas foi crescendo.

Além de bicicross, Dupas já correu cross country e também downhill, modalidade que ele cultiva uma paixão especial até hoje. Com o surgimento das mountain bikes com suspensões no início dos anos 90, Dupas identificou uma oportunidade de crescimento profissional, já que essas bikes exigiam manutenções frequentes por conta de vazamentos de óleo ou ar, regulagens, trocas de óleo etc.

“Comecei a ir atrás de peças de reposição, ferramentas e conhecimento técnico para entender o funcionamento e dar manutenção nas bikes de amigos”. Além do mountain bike, havia também o triathlon, que viveu um boom no Brasil nos anos 90. Nessa época, Dupas foi o mecânico oficial da triatleta Carla Moreno, que representou o Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg (1999) e nos Jogos Olímpicos de Sydney (2000). Hoje, o perfil da clientela mudou bastante e é formada basicamente por mountain bikers e, mais recentemente, Dupas trabalha também com suspensões de motocicletas de competição, on e off road.

Dupas teve loja própria em Campinas e gerenciou bike shops na cidade. Sobre o cenário atual do mercado de profissionais de mecânica, comenta: “Lojas que pagam pouco ao mecânico não estão dando o real valor ao profissional que têm em casa. Hoje existem bikes bem caras, com componentes e tecnologias que precisam de um cuidado muito especial”.

Um dos diferenciais da oficina de Dupas é a qualidade do ferramental e dos insumos. “Tenho muito investimento em equipamentos, insumos e ferramentas. Lubrificantes, graxas e produtos de limpeza são em sua maioria importados e existe a preocupação com o meio ambiente, com produtos biodegradáveis. Assim que percebo que uma ferramenta está marcada e apresenta um mínimo sinal de desgaste, eu compro outra, pois uma chave Allen ou chave de boca desgastada podem danificar um parafuso e gerar prejuízo para o dono da bike”, explica.

FICHA TÉCNICA
Nome: Ulisses Dupas
Idade – 44 anos
Cidade – Campinas, SP
Especialidade – Suspensões e amortecedores
Experiência – Mais de 30 anos
Contato – www.conexaodupas.com.br

Marcello Lovece: “Quanto mais você mexer em bikes top, mais especializado você será”

Marcello Lovece: “Quanto mais você mexer em bikes top, mais especializado você será”

MARCELLO LOVECE
O paulistano Marcello Lovece foi o primeiro brasileiro a pôr as mãos num grupo eletrônico Shimano Di2 7900, ainda nos primórdios da novidade, em 2003. Lovece, que se define como mecânico artesanal, investiu bastante em conhecimento e hoje atende sua clientela somente com agendamento. Todo mês de setembro, o paulistano costuma ir para a Itália onde faz reciclagem de conhecimento nas lojas de amigos que cultiva naquele país.

“Sou de origem italiana e minha família é de Bari, mas eles nada têm a ver com ciclismo. Na realidade, o meu pai é doceiro”, explica. Os contatos na Europa renderam a Lovece a oportunidade de trabalhar em eventos internacionais como as ultramaratonas de mountain bike Transalp e Cape Epic, onde tinha contato direto com tecnologia de última geração. “Quanto mais atualizações você fizer, melhor você fica”, afirma.

Atualmente, Lovece e outros três funcionários atendem até 300 bikes por mês numa pequena oficina de 200 metros quadrados em São Paulo. “Apesar do espaço físico, somos o 10o vendedor de Magura no mundo”, orgulha-se. Lovece trabalha com produtos da marca alemã Magura há 18 anos e dá treinamentos periódicos para revendedores brasileiros que comercializam bikes que venham com componentes da marca. Lovece deu treinamento também ao pessoal da Caloi e para os mecânicos da rede de lojas Centauro.

“Quanto mais você mexer em bikes top, mais especializado você será”, ensina o profissional que capricha nas bikes dos clientes com graxas e lubrificantes importados e uma oficina com o que há de melhor. “Sei que 80% do mercado cobra abaixo do que deve ser cobrado. As minhas revisões seguem o padrão que aprendi lá fora. É um pouco mais demorada, pois desmonto toda a caixaria no capricho”, conta Lovece.

FICHA TÉCNICA
Nome: Marcello Lovece
Idade – 42 anos
Cidade – São Paulo, SP
Especialidade – Mecânica artesanal, atualização Di2, produtos Magura
Experiência – 26 anos
Contato – www.webike.com.br

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Johnny Lin: “Não pego mais trabalho do que consigo entregar, pois isso compromete a qualidade”

JOHNNY LIN
João Lin nasceu em Moçambique e trocou a ex-colônia portuguesa por São Paulo em 1977. Mais conhecido como Johnny Lin, o profissional de 41 anos trabalha às portas fechadas numa oficina bem montada na região da Vila Olímpia/Itaim e basicamente atende uma clientela selecionada somente por indicação.

Lin é o brasileiro que mais vezes participou da Race Across America, a insana corrida com 5 mil quilômetros de extensão que atravessa os Estados Unidos de Oeste para Leste todos os anos. Foram 13 vezes como mecânico ou staff e uma vez como ciclista num quarteto. “Já fiz de tudo na RAAM. Já corri em quarteto, fui mecânico, chefe de equipe, motorista, navegador e cozinheiro. Trabalhei com o Mauro Ribeiro, João Paulo Diniz, José Carlos Secco, Michel Bogli e muitos outros”, relembra. Lin trabalhou também em duas edições da ExtraDistance 800K, várias corridas de aventura e de uma edição do Ecomotion no Nordeste.

Em 2013, ele fez um curso de reparos de quadro de carbono na Calfee Design, nos Estados Unidos, para aprender a técnica. “Achei o curso muito legal. Desde 2003 os caras já fizeram quase 10 mil consertos de quadros. Mas, no Brasil, essa atividade é complicada. Os produtos para o reparo são difíceis de achar e o material importado sai bem caro”, conta.

O forte mesmo de Lin é a manutenção de bikes de triatletas e entusiastas do ciclismo, incluindo alguns que curtem provas longas do tipo Granfondo e L’Etape.“Não pego mais trabalho do que consigo entregar, pois isso compromete a qualidade do meu serviço”, explica.

Lin gosta de lembrar que toda essa expertise tem seu valor. “São Paulo é uma cidade cara. Não há como investir horas de trabalho numa bike e cobrar R$ 20 ou R$ 30, pois o investimento em ferramentas é bem alto. A cada coisa que surge, precisa-se de uma ferramenta específica para aquele componente. Um torquímetro, por exemplo, para apertar o pedal Garmim custa US$ 140. Existe também o lado do cliente que não reconhece o valor de nossos serviços. Há clientes com bikes de R$ 30 mil ou R$ 40 mil que se queixam de pagar o valor justo de uma revisão completa”, lamenta Lin.

FICHA TÉCNICA
Nome: Johnny Lin
Idade – 41 anos
Experiência – 24 anos
Cidade – São Paulo, SP
Especialidade – Principalmente bikes de triathlon e estrada
Contato – [email protected]

Zé Mecânico: “Eu era mecânico por hobby e competia de cross country"

Zé Mecânico: “Eu era mecânico por hobby e competia de cross country”

ZÉ MECÂNICO
O cearense de Tabuleiro do Norte José Maria Maciel, ou simplesmente “Zé Mecânico”, é o exemplo do self made man, um guerreiro que contou com o próprio esforço para se tornar referência nacional quando o assunto envolve suspensões, amortecedores e freios hidráulicos.

Foi a paixão pelas bicicletas que trouxe Zé para São Paulo aos 16 anos. Foi na capital paulista que ingressou no mundo das competições de mountain bike e nunca mais saiu.“Eu era mecânico por hobby e competia de cross country. Uma vez, numa corrida em Sorocaba, tive um problema e não havia nenhuma barraca ou mecânico para me ajudar.

Foi nesse dia que percebi que havia espaço para mecânicos trabalharem em eventos nos finais de semana”, lembra. “Meu primeiro trabalho foi na construção civil, durante quase um ano. Nesse meio tempo fui visitando e conhecendo lojas, tentando vender meu trabalho”, resume.

Pouco tempo depois, trabalhou na rede de lojas Ciclovia, ia a corridas e passou a conhecer de perto sistemas hidráulicos, suspensões e freios e ajudou a Vanguarda Sports na tarefa de trazer e dar manutenção oficial nas suspensões Manitou.

“Eu sempre li e pesquisei muito. Gastava uns R$ 3 mil por ano em revistas e literatura técnica. Hoje, a internet ajuda. Por conta da minha dedicação, fiquei 14 anos sem ver meus familiares no Ceará”, conta.

Atualmente, Zé Mecânico trabalha em tempo integral para a concept store Pedal Urbano, na Vila Madalena, em São Paulo, “A loja é Concept Store da Specialized, mas a oficina é multimarcas e trabalho com todo tipo de bikes, até aro 20”, resume.

FICHA TÉCNICA
Nome – Zé Maciel
Idade – 42 anos
Experiência – 26 anos
Cidade – São Paulo, SP
Especialidade – Mountain bikes no geral, suspensões e freios hidráulicos
Contato – www.pedalurbano.com.br[email protected]

José Wellington Vasconcelos, o Baiano: “Comecei sozinho na mecânica de bikes. Foi igual a dirigir, fui olhando e aprendendo”

José Wellington Vasconcelos, o Baiano: “Comecei sozinho na mecânica de bikes”

BAIANO
O simpático sergipano radicado no Rio de Janeiro José Wellington Vasconcelos, o Baiano, é um dos mais conhecidos mecânicos de bikes de competição do Brasil. Nos tempos do serviço militar, Baiano praticava atletismo, com especialidade em corridas de fundo e meio-fundo. Anos depois, ingressou no ciclismo e correu para o Flamengo e para o Vasco. Em 1985, porém, sofreu um acidente de motocicleta na região de Saquarema e quase perdeu uma das pernas. Depois de 47 cirurgias e muita superação, Baiano passou a se dedicar à mecânica de bicicletas no início dos anos 90.

“Comecei sozinho na mecânica de bikes. Foi igual a dirigir, fui olhando e aprendendo”, conta o profissional que já foi a 10 campeonatos mundiais de mountain bike, fora quatro edições do Roc D’Azur, na França, além de feiras internacionais e muitas outras competições consagradas.

Parte dos conhecimentos, Baiano adquiriu na passagem pelo famoso Barnett Bicycle Institute for Bicycle Mechanics, em Colorado Springs, nos Estados Unidos. Como não fala inglês, o brasileiro participava das aulas teóricas como observador. “Só falo carioquês e baianês. Mas eu aprendi muita coisa só olhando os caras fazerem”, garante.

Após o curso, manteve a amizade com o paulista Daniel Aliperti, que também fazia o curso e teve um ótimo aproveitamento. “Eu e Aliperti somos amigos e mantemos a amizade. De vez em quando eu visitava o amigo em São Paulo e me reciclava”, conta.

Baiano atende a clientela formada por ciclistas de estrada e mountain bikers em seu apartamento, numa famosa rua do bairro de Botafogo. O atendimento é com hora marcada e Baiano exige que a bike já venha lavada pelo cliente. “Uma oficina é um hospital de bikes, e uma bike suja infecciona as outras bicicletas que estão internadas”, diverte-se.

Sobre valores de serviço, Baiano se lamenta. “O pessoal aqui do Rio chora muito no preço. Sei que em São Paulo os valores do serviço de mecânica são mais elevados. Mas o meu preço para uma revisão completa é bem honesto”.

FICHA TÉCNICA
Nome: José Wellington Vasconcelos, o Baiano
Cidade – Rio de Janeiro
Idade: 70 anos
Experiência: Mais de 35 anos
Especialidade – Mecânica geral de Road e MTB
Contato – (21) 2226-7679