O segredo dos super-rolamentos de Cancellara, Contador e cia

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O segredo dos super-rolamentos de Cancellara, Contador e cia

Os super-rolamentos, que giram até 10 vezes mais, ainda são para poucos; conheça mais sobre a tecnologia que pode estar por trás do sucesso de alguns ciclistas

Marcos Adami / Do Bikemagazine
Fotos de divulgação

Enquanto comissários da UCI fazem raio x para procurar motor escondido (Leia mais), o segredo de muitas bikes pode ser uma  tecnologia de rolamentos de baixo atrito que tem sido usada por alguns ciclistas há algum tempo e que o próprio Alberto Contador deu a dica durante a entrevista coletiva após a 18ª etapa do Giro D’Italia. “A coisa toda sobre motores é uma piada, é do mundo da ficção científica. Podemos usar tipos diferentes de rolamentos ou rodas, mas são soluções que não têm nada a ver com motores”, declarou o espanhol, vencedor do Giro 2015 e na disputa do Tour de France (Veja matéria completa aqui).

Os super-rolamentos não ferem o rígido estatuto da UCI, portanto não são “doping” tecnológico e sim tecnologia, ainda disponível para poucos. Usar tecnologia de vanguarda é lícito, desde que não se quebre nenhuma regra da UCI, mas a entidade não estabelece valores mínimos de Coeficiente de Fricção (COF) para os rolamentos e quem faz ciclismo de ponta sabe disso, claro.

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Cancellara e o italiano Giovanni Cecchini, fundador de marca de rolamentos de baixa fricção

Um dos pioneiros no uso dos rolamentos “diferentes” é o suíço Fabian Cancellara que desde 2007 tem uma estreita parceria com o mecânico italiano Giovanni Cecchini, fundador da marca de rolamentos de baixa fricção Gold-Race. Basta navegar pelo site para ver Cancellara e outros atletas (tem atleta da Junior, Master, pisteiros, ciclista de maglia rosa, vale a pena ver a clientela). Um kit completo chega a custar mais de mil euros.

Cecchini foi mecânico da Saxo-Bank e de acordo com o jornal La Dernière Heure, o suíço usou rodas, movimento central e roldanas do câmbio traseiro equipadas com rolamentos Gold-Race na Paris Roubaix em 2010. Segundo especialistas, a tecnologia desenvolvida e usada por Cecchini reduz o atrito em até 10 vezes. Se é mesmo verdade, Cancellara teve uma economia de até 2,5 segundos para cada quilômetro. Veja reportagem aqui

Numa crono individual com velocidade média acima dos 53km/h, cada quilômetro é percorrido em 1min08s. Se o ciclista ganhar 2,5 segundos por quilômetro, significa que Cancellara teve 3,7% de melhora no rendimento com os componentes Gold-Race. Outro ciclista da época que teria se beneficiado dos super-rolamentos é Andy Schleck no Tour de France de 2011, mas a equipe Leopard-Trek negou. E não é segredo que Bradley Wiggins usou rodas com rolamentos low friction na conquista do recorde da hora no dia 9 de junho.

SUPER-ROLAMENTOS EM AÇÃO
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Num esporte em que a velocidade está diretamente ligada com o resultado final, qualquer redução de atrito é muito bem-vinda e uma bike com rolamentos com até 10 vezes menos atrito que a dos adversários certamente é uma vantagem e pode fazer diferença.

Nos Estados Unidos, o laboratório Friction Facts tem como objetivo oferecer dados de pesquisas e de testes de componentes que foram coletados em inúmeros testes com cubos, rodas, roldanas, movimentos centrais, correntes e grupos completos de transmissão.

Um vídeo comparativo de dois cassetes – um deles com rolamentos Gold-Race – girando lado a lado e outro vídeo com de um pedivela equipado rolamentos da marca provam a eficiência da redução drástica de atrito.

VEJA O VÍDEO
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RECEITAS SECRETAS

Numa bicicleta, esses super-rolamentos que, pelo menos em teoria, giram com 10 vezes menos atrito são usados com muitos benefícios no eixo do movimento central, nas roldanas do câmbio traseiro, nos  pedais e, principalmente, nos cubos das rodas. Menos atrito significa menos esforço e economia importante de Watts. Em longas descidas, uma bike que roda mais solta faz muita diferença e pode interferir no resultado de uma corrida.

Os super-rolamentos empregam redutores de atrito de última geração nas esferas, nas pistas de rolamento e nos lubrificantes. Cecchini usa uma secreta mistura de grafite e um óleo complexo derivado de duas substâncias e produzida de acordo com a temperatura e umidade ambiente. A receita é segredo de estado.

Sob certas condições, alguns materiais têm COF abaixo de 0,01 numa escala que vai de 0 a 1. Um exemplo disso é HOPG (grafite pirolítico) um material nanotecnlógico que tem COF menor que 0,01 e que pode ser aplicado no acabamento da superfície dos super-rolamentos

Rolamentos

Novos materiais e fórmulas secretas buscam reduzir o coeficiente de atrito ao mínimo

NANOPARTÍCULAS
Nos super-rolamentos, materiais como cerâmica, teflon, grafite, dissulfeto de tungstênio, nitreto de silício, sulfeto de molibdênio e lubrificantes a base de parafina e de outras fórmulas secretas buscam reduzir o atrito ao nível mínimo. Uma empresa japonesa desenvolveu o famoso acabamento “Kashima Coat”, uma camada película redutora de atrito aplicada muito usada em hastes de suspensões.

A empresa italiana Attrito Zero, criadora da tecnologia Durafosf, usa nanopartículas de 0,3 mícrons de uma substância secreta que promete até 90% de redução do atrito dos rolamentos e também da corrente. A fricção gerada entre a corrente e os dentes das engrenagens também é relevante e interfere, claro, no desempenho.

Já a empresa dinamarquesa Ceramic Speed comercializa uma corrente Shimano Dura-Ace “tunada” com um tratamento que promete uma economia entre 3 e 5 Watts. O detalhe: É só para clima seco e o tratamento dura no máximo 320 quilômetros.

Outro fabricante de componentes low friction é a belga C-Bear (www.c-bear.com), que oferece uma ampla linha de kits para praticamente todas as marcas e modelos de rodas e grupos do mercado.

Exemplo da tecnologia Durafosf em componentes ciclísticos:
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NOVO MERCADO
A batalha para reduzir o atrito chegou ao mercado e os principais fabricantes europeus já estão se mexendo. A italiana Fulcrum oferece as rodas modelo Cult, com “O menor coeficiente de fricção da história”, segundo o slogan da marca. A Ceramic Speed produz rolamentos com esferas cerâmicas de nitreto de silício  (Si3N4), bem mais duras (128%) e leves (79%) que o aço.

A empresa vende também ferramentas e lubrificantes para rolamentos de baixo atrito (10ml sai por 8 euros) e é patrocinadora oficial da Tinkoff, Specialized Racing, Qhubeka e da seleção dinamarquesa de pista, entre outras equipes.

Não será nenhuma surpresa portanto, se nas próximas grandes feiras do setor nos depararmos com lançamentos de “super-rodas” que prometem muito mais velocidade com menos esforço do ciclista. A nova Specialized Venge ViAS, por exemplo, virá equipada com o movimento central da Ceramic Speed (Veja matéria).

INVENÇÃO JAPONESA
O rolamento clássico de esferas é conhecido desde os tempos de Leonardo da Vinci e seu princípio de funcionamento se manteve praticamente inalterado, com evoluções graduais no formato das esferas e na utilização de novos materiais.

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A empresa japonesa Coo Space desenvolveu uma tecnologia chamada ADB (Autonomus Decentralized Bearing) que  dispensa a gaiola separadora das esferas, que rolam soltas na pista e não usam nenhuma lubrificação.

Outra grande diferença está na pista interna de rolamento, que recebe uma fenda (rebaixo) que faz acelerar a velocidade das esferas quando passam sobre o rebaixo. A gaiola num rolamento tradicional existe para que uma esfera não toque na outra e não gere atrito. No rolamento com tecnologia ADB, mesmo sem a gaiola, uma esfera não toca na outra e empresa garante que a tecnologia gera 90% menos atrito.

VEJA MAIS
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O inventor do ADB, Sosuke Kawashima, usa como exemplo um tubo transparente com um corte numa das faces. Dá para ver claramente que as esferas alteram o comportamento ao passar sobre a fenda. O rolamento ADB dispensa os retentores de vedação que contribuem para gerar atrito.

Segundo Kawashima, a patente já está em negociação com grandes empresas internacionais. Os rolamentos descentralizados podem ser empregados em tudo o que gira, de motorzinho de dentista a turbina de avião e, claro, nos rolamentos de bicicletas.

Sempre é bom lembrar que o atrito nos diversos rolamentos é apenas uma pequena parte das forças que uma bicicleta tem que superar. O atrito dos pneus com o solo é bem maior, sem falar da resistência do ar, que faz muita diferença sobretudo nas altas velocidades, como nas cronos e longas descidas.