Era tudo verdade: como a UCI encontrou o motor escondido

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Era tudo verdade: como a UCI encontrou o motor escondido

Doping eletrônico foi finalmente confirmado após muitas especulações na inspeção surpresa na bike da belga flagrada com motor acoplado no movimento central

A belga Femke Van den Driessche, cuja bike apontou doping eletrônico

A belga Femke Van den Driessche, cuja bike apontou doping eletrônico, na disputa em Zolder

Marcos Adami / Do Bikemagazine
Fotos de divulgação

No fim, era tudo verdade. Sim, pequenos motores elétricos foram, e pelo jeito ainda são, usados por alguns ciclistas profissionais. O doping eletrônico, que se desconfiava desde o episódio de Fabian Cancellara nas temporadas 2010 e 2011, foi finalmente confirmado pela UCI em Zolder, na Bélgica, na bike da belga Femke Van den Driessche, na disputa do título mundial de ciclocross da categoria Sub-23, neste sábado (30 de janeiro).

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O primeiro grande veículo de imprensa a levantar essa questão foi a Gazzeta Dello Sport, lá em 2010 (veja aqui). A bicicleta dopada de Cancellara teria sido usada em sua vitória na Paris-Roubaix daquele ano. Como não ficou nada provado, esse assunto foi ironizado por muitos da imprensa, lá de fora e aqui do Brasil também.

Era evidente que havia algo de muito errado nessa história, tanto é que a UCI instalou máquinas de raio X em provas importantes – Tour de France entre elas – e passou a verificar as bikes sistematicamente. Em 2014, fez, inclusive, um exame de endoscopia em bicicletas durante a Volta a Espanha, inclusive na de Alberto Contador (veja mais). A UCI sabia de algo, mas precisava provar.

Brian Cookson na entrevista à imprensa em Zolder

Brian Cookson na entrevista à imprensa em Zolder

Em março de 2015, o presidente da UCI, Brian Cookson, admitiu para a imprensa que motores elétricos nas bikes do pelotão profissional eram uma “possibilidade muito real” e a entidade incrementou as vistorias em busca desse tipo de trapaça nas principais provas de estrada do calendário.

No ciclocross, a inspeção surpresa no Mundial foi novidade, mas não vai parar por aí. “Temos testado diferentes métodos de detecção, mas não vou entrar em detalhes desses métodos”, contou Cookson na entrevista coletiva em Zolder, neste domingo. Especula-se que detectores de calor e de campo eletromagnético façam parte dessa estratégia.

Femke Van den Driessche em entrevista nega doping na bike

Femke Van den Driessche em entrevista nega doping na bike

Em Zolder, não foi raio X nem endoscopia. A bike de Femke Van den Driessche foi flagrada pelos comissários da UCI nos paddocks. No ciclocross o ciclista pode parar nos boxes para trocar de bicicleta – por uma outra mais limpa. À imprensa, chorosa, a atleta alegou que não usou a bike com motor na corrida, ou, ainda, que a bike não era dela e sim de um amigo. Mentiras mirabolantes sempre fazem parte do argumento de todo atleta flagrado.

Inicialmente a bike foi verificada pelos comissários com uma espécie de tablet, depois lacrada e levada pelos fiscais da UCI para uma verificação mais detalhada. Quando o selim foi retirado, apareceram fios saindo pelo alto do canote. Os inspetores tentaram retirar o pedivela, mas ele simplesmente não saiu. Ficou evidente que havia algo de errado e não demorou para que o motor fosse descoberto.

A Wilier Triestina, fabricante da bike, emitiu um comunicado à imprensa onde afirma estar “assombrada de ter seu produto manipulado de maneira vil” e lavou as mãos.

Motor da Vivax gira diretamente o eixo do movimento central

No sistema da Vivax o motor gira diretamente o eixo do movimento central

A tecnologia de micromotores elétricos que entregam até 250 Watts de potência existe desde 2004 e foi desenvolvida pela empresa austríaca Vivax. Ao que parece só alguns privilegiados tiveram acesso a essa tecnologia quando ainda era “secreta” e Cancellara pode ter sido um desses. A Vivax comercializa o produto em escala comercial desde 2011 e o preço pode chegar a 3.200 euros, dependendo do kit escolhido.

Não se sabe se foi esse motor ou outro semelhante o que foi usado no Mundial, mas era tudo verdade.

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