Sagan: Não existe almoço grátis na vida de um campeão mundial

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Sagan: Não existe almoço grátis na vida de um campeão mundial

Peter Sagan encara selfies, pedaladas promocionais, entrevistas e, visivelmente cansado, repete que uma medalha nos Jogos Rio 2016 não é para ele. Diante da insistência, só faltou desenhar

Peter Sagan chega para a coletiva de imprensa em São Paulo Foto: Marcos Adami

Peter Sagan chega para a coletiva de imprensa em São Paulo Foto: Marcos Adami

Marcos Adami / Do Bikemagazine

A carreira de um campeão mundial não é nada fácil. Sofrer para conquistar o título é apenas parte do processo. O pior talvez venha depois. São mil compromissos, muitas milhas aéreas, sessões de fotos, selfies e mais selfies, falta de vida pessoal.

Na coletiva de imprensa em São Paulo nesta quarta-feira (27 de janeiro), o eslovaco Peter Sagan, conhecido pela irreverência e bom humor à flor da pele trazia o cansaço estampado no rosto. Era claro o saco cheio com as perguntas fora de contexto, algumas bem estúpidas por sinal.

Mal terminou o Tour de San Luis, na Argentina, e o dono da camisa arco-íris voou para o Rio de Janeiro para pedalar no percurso olímpico, sempre acompanhado de uma horda de ciclistas. “Vi o Cristo de longe. É uma cidade linda, com muito verde, montanhas e praias, mas vim a trabalho e talvez eu volte um dia como turista”.

O ar de lamentação é fácil de entender. Fora todo o cansaço, no dia anterior Sagan comemorou seu aniversário de 26 anos longe de casa e da bela esposa Katarina Smolkova, com quem se casou no dia 13 de novembro.

Não existe almoço grátis*. Os patrocinadores querem retorno pelo alto investimento e fazer propaganda da bicicleta é só uma parte do contrato milionário estimado em 4 milhões de euros anuais (cerca de R$ 18 milhões).

Alberto Contador, que visitou o Brasil em novembro de 2013, também exibia os mesmos sintomas da carga de compromissos fora do pedal. Leia mais aqui

Sagan na pedalada em Riacho Grande Foto: Fabio Braga

Sagan na pedalada em Riacho Grande Foto: Fabio Braga

A bike chegou bem antes do atleta e dava até para montar, posar para fotos, sentir o peso. Cedinho, Sagan pedalou em Riacho Grande, em São Bernardo do Campo, passou no hotel, ficou preso no trânsito e, 50km depois, chegou com duas horas de atraso no local da entrevista, em Pinheiros.

Uma entrevista coletiva tem tempo contado. Foram 31 minutos para os veículos impressos, outros tantos para a TV, e tchau, fim. O assessor de imprensa controla o fluxo de perguntas. O atleta fica atrás de uma mesa, rodeado de microfones e sob a mira de muitas câmeras. Ao lado de Sagan, um membro da Tinkoff se mantinha atento e o patrocinador de olho em tudo.

Logo de cara, Sagan não gostou de ter que repetir tudo o que havia dito no dia anterior. Risos quebraram o gelo e o campeão novamente fez questão de deixar bem claro. “O percurso do Rio não é para mim. É para escaladores puros.” Mais transparente do que isso impossível. Só faltou ele desenhar numa lousa. “A medalha de estrada do Rio de Janeiro não será para mim, entenderam?”

Ainda assim muitos insistiam no tema. “Você vai mudar seus treinos para o Rio?”

Sagan deixou claro que não vai mudar nada a preparação deste ano. Ele tem foco nas Clássicas de Primavera e depois no Tour de France. A prova de estrada do Rio será 13 dias depois do término do Tour num desafiador percurso de 256,3km e 4 mil metros de ascensão. Não vamos estranhar se Sagan não completar a prova olímpica. Ele terá no máximo a ajuda de um companheiro da Eslováquia e, se perder o grupo principal numa das duras subidas, a corrida já era. Ele sabe disso.

Certamente Sagan tem todo o potencial para ser campeão olímpico no futuro, mas não em 2016.

Quando perguntaram quem seria então os favoritos ao pódio olímpico, Sagan escorregou na resposta e, em vez de apontar seu companheiro Contador, ou Rafal Majka, ele preferiu se incluir na disputa pelo título. O cara da Tinkoff se mexeu pela primeira vez e cochichou algo no ouvido do campeão. Apontar seus companheiros de equipe seria a resposta comercialmente correta.

Outras perguntas visivelmente foram respondidas meramente por boa educação, afinal, ele estava na casa do patrocinador, os caras que pagam o “almoço”. “Ciclismo não é como um jogo de tênis, que tem sempre a mesma raquete, a mesma quadra e a mesma bolinha. Tudo pode acontecer numa corrida de bicicleta. Não tenho que pensar muito sobre isso durante a corrida”.

Fim da entrevista, Sagan assinou uma pilha de camisetas, posou para mais fotos e selfies e ainda foi visitar duas lojas, antes de passar no hotel, tomar banho, juntar suas coisas e encarar o trânsito para Guarulhos, debaixo de um temporal típico de verão paulistano.

Hoje, em Mônaco, onde vive, deve ter desfrutado de um almoço com a esposa enquanto espera os próximos compromissos, entre uma pedalada e outra.

*A teoria de que não existe almoço grátis é uma forma de resumir o conceito do “custo de oportunidade”, que significa que tudo no mundo econômico tem um custo, mesmo que pago por terceiros. Saiba mais

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