Precisamos falar sobre o doping

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Precisamos falar sobre o doping

No esporte de alto rendimento, além da mentira e da hipocrisia, reina o que se chama de Omertà, um pacto de silêncio; os caras sabem quem são os caras que tomam, mas ninguém fala sobre isso

Controle no Tour de France Foto: ASO

Controle no Tour de France Foto: ASO

Do Bikemagazine/ Por Marcos Adami
Foto de divulgação

Abordar o tema exige coragem. É um assunto sempre cercado de muita hipocrisia. Esporte de alto rendimento e drogas sempre caminharam juntos. A vida de um atleta profissional não é nada fácil, a carga de treinamento é brutal. Ciclistas arriscam a vida todos os dias e no Brasil a realidade é ainda pior, com baixos salários e falta de respeito no trânsito. O flagrado será sempre chamado de trapaceiro e desonesto. E é mesmo, afinal, fez algo ilegal. Em tempo: o fato de alguém não ter sido flagrado não significa que não tenha feito uso de substância proibida.

Todo fanático por ciclismo vibra quando um atleta exibe força nas escaladas ou nas chegadas em sprints a quase 80km/h. Milan-San Remo, Paris-Roubaix, Tour de Flanders e Liége-Bastogne-Liége fazem a alegria dos apaixonados pelas clássicas. No cross country é emocionante ver seu atleta engolir paredões íngremes e cruzar sozinho segurando a bike no ar. Mas é importante não ser ingênuo e nem hipócrita e saber que não existem super-homens.

Nas Olimpíadas de Sydney, numa enquete anônima, a maioria dos atletas afirmou que faria qualquer coisa – sim, qualquer coisa – para conquistar uma medalha.

É bom lembrar a origem bélica do esporte. Muito antes de existirem jogos olímpicos, entre uma guerra e outra, os guerreiros tinham que se manter. Antes da batalha, valia ingerir qualquer coisa para liquidar o inimigo, de ópio a haxixe. Desde quando o mundo é mundo é assim.

A primeira reação do atleta flagrado é negar e dar uma desculpa criativa. Culpar o creme de depilação, o remédio para asma ou o bife que comeu no jantar, como fez Alberto Contador em 2010, quando foi pego por uso de clembuterol e culpou o boi.

Que fique bem claro: substâncias ilegais são usadas em todos os esportes. Até jogadores de xadrez e videogame usam e nem precisa fazer exame para saber que tem algo muito errado com jovens nadadores com mãos e pés gigantes, fora do comum, ou com corredores quenianos e jamaicanos que se dão ao luxo quebrar recordes mundiais várias vezes por ano. Olímpiada sem quebra de recorde não dá tanta emoção e nem audiência. Não vamos fingir que não é assim.

O ciclismo, talvez por sua dureza extrema e insana, sempre vira manchete quando casos como o de Lance Armstrong vem à tona. Quem leu o livro “A corrida secreta de Lance Armstrong” sabe do que estou falando. Quem não leu, deveria ler. Dá arrepios saber o que os caras fazem com o próprio corpo. O esporte neste nível é tudo, menos saudável. Armstrong mentiu bastante, mas foi bem honesto quando afirmou que é impossível vencer uma prova como o Tour sem usar drogas. Quem tem o mínimo de conhecimento deste esporte sabe disso. Existem muitos interesses e as marcas querem retorno do investimento no atleta. Ninguém investe milhões porque é bonzinho.

Já cobri muita corrida e vi ciclista babando uma saliva branca e espessa ao cruzar a linha de chegada. Era óbvio que havia algo errado e tempos depois a lista da UCI confirmou o positivo. Já entrevistei mulher praticante de Ironman com voz grossa, barba e bigode (disfarçados com clareadores de pelos). Numa corrida por etapa, vi o sprintista vencedor enrolar o quanto pode até entrar no carro e pedir na cara dura para o motorista ir o mais devagar possível até o local da coleta de urina. Os mais espertos sabem o que tomar para mascarar o exame. Estive também na casa de um ciclista com equipamento hospitalar para fazer transfusões e conheço campeão brasileiro que hoje tem a saúde severamente comprometida por conta de abusos no passado.

A situação é ainda pior em provas amadoras. Sejamos honestos: se existe o problema em provas Pro Tour, que tem controle rígido, passaporte biológico e visitas de surpresa, imagine em provas sem qualquer tipo de controle. Toma-se até as tampas, como se diz. Muitos se entopem para ganhar corridas que não têm a menor importância, a não ser para o próprio ego. Voltar para casa com mais um troféu é o objetivo de muita gente aos domingos.

No alto rendimento, além da mentira e da hipocrisia, reina o que se chama de Omertà, um pacto de silêncio. Os caras que tomam sabem quem são os caras que tomam, mas ninguém fala sobre isso. Isso vale em qualquer lugar do mundo e em qualquer esporte. O mesmo princípio funciona com as drogas recreativas ilegais. Quem consome cannabis sabe reconhecer quem consome e não se fala sobre isso.

O atleta que usa uma substância ilegal sabe muito bem o que está fazendo e está ciente dos riscos. Tenho por princípio respeitar todos os atletas. Os limpos, os flagrados, os suspensos e os banidos. Alguns são pegos, outros não. Quem quiser tomar querosene de aviação na veia que tome. O problema não é meu. Respeito também os alcoólatras e os que dizem que bebem socialmente, os viciados em comida e em chocolate, os craqueiros da minha rua. Evito este assunto. Precisamos, mas tenho horror de falar sobre doping.