Bike teste: a Triban 540, a estradeira de Endurance da B’Twin

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Bike teste: a Triban 540, a estradeira de Endurance da B’Twin

Boa companheira para a estrada, exige apenas um pouco mais de paciência nas subidas; confira detalhes

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Confira a avaliação da versátil Triban 540

Especial para o Bikemagazine
Texto: Gabriel Vargas / Fotos: Edmilson Bernardi

O ciclista que estiver passeando pelos corredores de uma das lojas da Decathlon, a gigante rede francesa de material esportivo, certamente irá ficar surpreso – como nós ficamos – com a B’Twin Triban 540.

Montada com componentes Shimano 105 de 11 velocidades, rodas Mavic Aksium e um chamativo garfo de carbono, é preciso olhar duas vezes para acreditar na etiqueta do preço: por R$ 4.999,00 é possível levar para casa um conjunto que outras marcas nem sonham em oferecer por esse valor.

Restava saber se o quadro condiz com os componentes e como a bike funciona como um conjunto.

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Geometria menos agressiva própria para pedaladas com conforto

Durante três semanas, rodamos com um modelo tamanho L por algumas centenas de quilômetros em todos os tipos de asfalto (inclusive em alguns trechos onde o asfalto não existe). A Triban 540 é voltada para ciclistas iniciantes aqueles que priorizam o conforto, e não necessariamente procura a máxima performance. Ela encaixa na categoria Endurance, já comum na linha da maioria das marcas.

São modelos com geometria mais relaxada e menos agressiva, fáceis de conduzir e com várias soluções para tornar os (muitos) quilômetros mais fáceis e agradáveis. Importante salientar, há garantia vitalícia para quadro, garfo, mesa e guidão. A bike é vendida nos tamanhos P, M, L e XL.

Quadro e garfo
O quadro de alumínio 6061-T6 é formado por tubos com formatos acentuados, muito diferentes entre si. O tubo inferior tem seção quadrada próximo à direção e torna-se oval à medida que desce para o movimento central. O tubo superior é achatado e encontra uma frente alta – 200mm de headtube no tamanho testado.

Os seatstays têm um formato peculiar, de seção triangular, e terminam em uma gancheira robusta. A pintura fosca é muito bem feita e, embora sisudas, as tonalidades utilizadas são sóbrias e discretas.

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O leão de Flanders no tubo do selim; detalhe do ilhó para fixação do bagageiro

O quadro tem um visual quase industrial, típico das empresas do norte da Europa. Denunciado por um decalque com o famoso leão de Flandres no tubo do selim, o quadro é projetado e testado na região considerada como o coração do ciclismo europeu. A sede da Decathlon fica logo ao sul de Roubaix, bem próximo da divisa com a Bélgica, e já foi visitada pelo Bikemagazine.

O garfo, com pernas em fibra de carbono e espiga de alumínio, impressiona pelo espaço destinado a pneus largos e pelo belo acabamento degradê em trama 12k. Mas também chama a atenção pelas furações para bagageiros dianteiros e para-lamas, que também estão na traseira do quadro.

Movimento central Shimano

Transmissão: câmbio traseiro 105 de cage longo, cassete 11×28 e pedivela FC-RS500

Junto com a capacidade de quadro e garfo para pneus até 32mm, fica revelado o caráter versátil da bike, pronta para receber acessórios para transporte de bagagem e/ou encarar qualquer clima. Os cabos são externos, não há suporte braze-on para câmbio dianteiro e, como era de se esperar, o movimento central é do tipo convencional de rosca. A B’Twin certamente quis manter as coisas simples e objetivas, de forma condizente com a proposta e o nível da bike.

A primeira sensação ao rodar é de tremendo conforto. A bike recebe bem o ciclista e parece fazer desaparecer toda a vibração causada pelo asfalto abrasivo da primeira estrada que havia pela frente. Logo na primeira subida, veio a segunda sensação: o peso. A marca indica 1,9kg apenas para o quadro, resultando em quase 10kg para a bike inteira. Ao que parece, temos uma concessão nesse aspecto. Para que a B’Twin pudesse oferecer um quadro muito robusto, confortável e resistente a um bom valor, o peso certamente não poderia estar entre as prioridades. É uma troca justa, mas um dos pontos fracos justificáveis da Triban 540.

A geometria é um tema delicado na Triban. A bike foi projetada para ser fácil de guiar, transmitindo segurança e controle ao ciclista iniciante. E é exatamente isso que percebemos enquanto a média de velocidade estava entre 20 e 25km/h. A bike tem condução leve, simples, sem surpresas. A sensação é de segurança e até tranquilidade; Mas basta começar a pedalar forte para que a história mude.

A suavidade em velocidades menores significa instabilidade ao forçar o ritmo no plano, com a bike balançando de acordo com o movimento das pernas, e perdendo a sensação de tranquilidade acima dos 40 ou 45 km/h.

Pedalar em pé também é um pouco dificultoso, pois a bike tende mais a mudar a trajetória do que a tombar com o movimento do corpo. Mas esse é um ponto fraco relativo, justificável: a bike foi pensada para ciclistas iniciantes ou para aqueles que têm o conforto como prioridade. Competição e performance não são seu propósito.

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O conjunto do quadro de alumínio 6061 com o garfo de carbono 12k pesam 2,57kg

Assim, restou a impressão de que o quadro possui a traseira curta demais. A frente alta e os ângulos relaxados resultam em boa parte da distribuição de peso concentrada na parte traseira, o que precisaria ser compensado por meio de um chainstay 5 a 10mm mais longo, talvez. Isso tornaria a bike mais estável em velocidades moderadas, apesar de que possivelmente parte da leveza em velocidades baixas seria perdida. Como sabemos, perde-se aqui para ganhar ali, e sem dúvida os engenheiros franceses pensaram nisso.

A solução encontrada durante o teste foi substituir a mesa original por uma mesa mais longa e com ângulo negativo, que deixou o guidão mais baixo e avançado, o que acertou a distribuição de peso. A bike perdeu um pouco da posição confortável, mas ficou bem mais “na mão” para uma tocada mais forte. Como dito, o propósito da bike não é total performance, então essa é apenas uma questão de ajuste e um bom bike fit.

De toda forma, sua estrutura é firme, sem flexibilidade aparente ao pedalar forte em pé e, principalmente, sem torção ao deitar a bike na descida em curvas agressivas. O garfo de carbono é bastante rígido e ajuda muito a manter a trajetória da bike nas curvas. Felizmente, esse é um aspecto que compensa a geometria nos momentos mais radicais. Em geral, o equilíbrio entre conforto e firmeza em uma base de alumínio é um dos destaques da Triban. Porém, o quadro perdeu boa parte da capacidade de dissipar vibrações e pequenos impactos na parte dianteira quando os pneus foram trocados por modelos mais estreitos e duros.

Componentes fixos
São todos da própria B’Twin. O guidão possui geometria compacta (130mm de drop e 82mm de reach) e é muito confortável em todas as posições. O topo tem perfil ovalizado, o que é um enorme alívio para as palmas da mão. O canote de alumínio com indicações de altura é superfácil de ajustar. Seus 27.2mm de largura contribuem muito para o conforto da bike, flexionando e absorvendo impactos à medida em que a roda traseira acerta imperfeições do asfalto.

O selim Ergo Fit agradou em partes. A parte traseira é firme e ampla, com espuma densa que transmite muito conforto mesmo após algumas horas de pedal. Mas a porção central possui uma depressão com bordas anguladas que incomodou um pouco.

A fita de guidão em duas cores, preto na parte superior e branca embaixo, é perfurada e bastante elegante. A textura é agradável, mas não combina com mãos excessivamente suadas e as luvas são obrigatórias em dias quentes ou sob chuva. O plug nas pontas do guidão, do tipo expansor,  valorizam a bike.

Rodas, pneus e freios
As rodas Mavic Aksium são um dos destaques da bike. Suas 1.880 gramas não impressionam, mas estão 200 a 300 gramas abaixo de modelos mais simples que equipam bikes de valor similar e isso ajuda a compensar o quadro pesado.

Mais importante que o peso, as rodas são firmes, precisas, muito robustas e resistentes, mas sem serem excessivamente duras. Com rolamentos selados, 20 raios perfilados e aros de 24mm de altura, elas rolam bem no plano e respondem bem nas subidas, sem sofrerem com vento lateral. Infelizmente, os modelos Aksium não possuem a superfície de frenagem com o mesmo acabamento dos modelos Ksyrium, superiores, que contribuem muito para a qualidade da frenagem.

Frente alta: headtube de 200mm

Os tubos de alumínio têm perfis distintos; frente alta com headtube de  200mm

Um dos pontos fracos da bike são os pneus franceses Hutchinson Equinox 2. Com 25mm de largura, eles são responsáveis por grande parte do conforto da bike (desde que sem exageros na pressão) e tem excelente aderência em curvas. Mas, com 365 gramas cada, eles são muito pesados, rolam mal e seu talão de arame faz com que a instalação na roda seja uma luta com as espátulas. Com eles, a bike parecia presa, preguiçosa. Bastou trocar por um modelo 100 gramas mais leve cada, de maior qualidade, para que a bike ganhasse bastante vida.

Os freios B’Twin são, na verdade, Tektro R539 remarcados. Cada cáliper permite 47 a 59mm de alcance no ajuste dos cartuchos Tektro P420 (com refis, uma vantagem) e possui uma interessante trava de segurança quick-release, que permite abertura bastante ampla para uso com pneus mais largos. Ao frear, a sensação na alavanca é esponjosa e quase sem sensibilidade ou modulação. Isso acontece possivelmente devido a alguma diferença na taxa de atuação no cabo entre as alavancas Shimano e os cáliper Tektro. Como outros freios dessa marca funcionam perfeitamente com os STI Shimano, podemos acreditar que a escolha pelo modelo R539 é devido à capacidade de aceitar pneus largos e à possibilidade de instalar para-lamas e não pela qualidade do funcionamento. Esse detalhe não chega a comprometer a segurança, mas incomodou um pouco em trechos de descida mais técnicos, como em ladeiras com trânsito na cidade ou estradas com curvas sinuosas.

Câmbios e relação

Detalhe do movimento central

Detalhe do pedivela “coringa” da Shimano e da caixa do movimento central

Outro destaque da Triban, o conjunto Shimano 105 5800 de 11 velocidades é quase irrepreensível. Confiável, durável e preciso. Os trocadores STI têm acionamento levíssimo, tanto na atuação do câmbio traseiro quanto o dianteiro. As mudanças de marchas são fáceis agradáveis.

Um ponto fraco é a falta de retorno tátil na alavanca menor do lado direito (que desce dos pinhões maiores para os menores no cassete) e o ajuste muito delicado da posição do câmbio dianteiro (trim), às vezes difícil de acertar. Os câmbios, da mesma forma, funcionam de forma precisa e rápida.

A Triban 540 veio equipada com o pedivela Shimano FC-RS500, um modelo “coringa” da marca com BCD compacto e mesmo nível de qualidade e funcionamento do 105. As coroas são 52×36 e o cassete Shimano 105 vem na configuração 11×28.

Esse é o setup padrão para bikes de nível intermediário na atualmente, mas talvez esteja acima do esperado para essa bike. Coroas compactas convencionais (50×34) são mais condizentes com a proposta da Triban, talvez até em conjunto com um cassete de 30 dentes ou mais.

De toda forma, o câmbio traseiro tem cage longo e deixa a bike apta a receber um upgrade de coroas e cassete em virtualmente qualquer combinação. A corrente é a KMC X11SL, o que chega a surpreender, pois é um dos modelos mais refinados da linha. Tanto os elos externos quanto internos são vazados para ligeiro alívio de peso. As correntes KMC são reconhecidas pelo excelente funcionamento e durabilidade.

Conclusões
Levou alguns dias, mas logo começamos a entender que a B’Twin Triban 540 é uma boa companheira para a estrada. Uma bike fácil e agradável de conduzir, confortável e confiável para pedalar por horas e horas. Com o peso extra, ela apenas exige um pouco mais de paciência nas subidas, mas não é nada que vá atrapalhar a vida do ciclista para a qual ela foi projetada.

Embora bastante versátil, a Triban 540 não é uma bike recomendada para todos os ciclistas, mas certamente é bem acertada e muito generosa em configuração e qualidade para aquele nicho ao qual ela pertence. Nesse ponto de vista, ela é sem dúvida o melhor custo-benefício que podemos encontrar no mercado nacional atualmente.

Pontos positivos: Custo-benefício, rodas e transmissão, conforto, garantia vitalícia para o quadro, robustez.
Pontos negativos: Pneus pesados, freios esponjosos

Perfil recomendado

Perfeita para corredores de Audax

Perfeita para iniciantes, cicloturistas e corredores de Audax

Ciclistas iniciantes e iniciados que estão começando a encarar estradas e ruas, e que não se preocupam tanto com velocidade e ritmo. Cicloturistas e breveteiros de Audax possivelmente também irão gostar do conforto, versatilidade e robustez, especialmente por causa da furação para bagageiros e para-lamas. Os bons componentes da Triban 540 não compensam a proposta geral da bike para quem quer andar forte ou treinar – nesses casos é melhor partir para outras opções.

Ajustes e upgrades
Sem dúvida, o comprador da Triban 540 irá perceber muitos benefícios ao trocar os pneus originais por alternativas de maior qualidade, especialmente se mantidos os 25mm de largura ou até partindo para um 700x28C (ou acima). Freios que casem melhor com os STI Shimano também são algo a se pensar, embora esteja longe de ser uma necessidade. Se as subidas ainda estiverem duras demais, o câmbio traseiro de cage longo aceita cassetes maiores, com 30 dentes ou mais. Os demais componentes certamente irão satisfazer o comprador por muitos quilômetros.

Concorrentes
Na faixa de preço da B’Twin Triban 540, encontramos uma variedade de modelos. Ao contrário da Triban, as concorrentes têm concepção que prioriza a performance, com geometrias mais “fincadas” e quadros mais leves, mas com componentes bem mais simples.

Pelos mesmos R$ 4.999 da Triban 540, a Specialized Allez E5 tem a força da marca californiana mas apresenta apenas o simples conjunto Shimano Claris de 8 velocidades.

A Cannondale Optimo Claris tem preço ligeiramente menor (R$ 4.799) mas também apenas 8 velocidades. A Soul 3R1 (R$ 5.260) vem com o recente grupo Shimano Tiagra de 10 velocidades e rodas Shimano. A BMC Teammachine ALR01 ainda pode ser encontrada por aproximadamente R$ 5.500,00 e entrega um belo quadro equipado com o mesmo grupo Tiagra da Soul, mas com rodas e pedivelas mais simples.

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