Nícolas Sessler, talento brasileiro agora no pelotão Pro

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Nícolas Sessler, talento brasileiro agora no pelotão Pro

Brasileiro que está há quatro anos na Europa estreia como estagiário de equipe Pro Continental de Israel, se destaca na 1ª competição e já se prepara para clássicas italianas em outubro

O brasileiro Nícolas Sessler é estagiário na Israel Cycling Academy

O brasileiro Nícolas Sessler estreia na equipe Israel Cycling Academy

Dani Prandi / Do Bikemagazine
Fotos de divulgação

Nícolas Sessler acaba de estrear na duríssima Pro Otztaler, em Sölden, na Áustria. Novo estagiário da equipe Israel Cycling Academy, o brasileiro surpreendeu ao finalizar a competição na 17ª colocação na classificação geral. Em entrevista ao Bikemagazine, o ciclista de 23 anos fala sobre a experiência, expectativas e seu objetivo de levar a bandeira brasileira às maiores corridas de todo o mundo “para mostrar que o Brasil não é só o país do futebol, mas que também temos muitas outras qualidades”.

Sessler no pelotão da Pro Ötztaler, em Sölden, na Áustria

Sessler no pelotão da Pro Otztaler, em Sölden, na Áustria

Como é o estágio que vai fazer na nova equipe? Há chance de contratação?
O estágio em uma equipe profissional pode ser considerado como um período de testes. A UCI permite que todos os anos a partir de agosto as equipes Pro Continental e World Tour testem alguns atletas “amadores” (que até então nunca tiveram um contrato profissional com nenhuma equipe) em determinadas corridas. Durante esse período esses atletas não são ainda considerados 100% profissionais e é permitido que sigam também correndo algumas provas com o seu clube/equipe de origem.  No final deste período de testes as equipes podem sim decidir por contratar o atleta em definitivo para as temporadas seguintes. No meu caso, portanto, farei até o final da temporada de 2017 algumas corridas com o Israel Cycling Academy e caso tudo caminhe bem e eles estejam satisfeitos com minha performance existe uma boa chance de que me contratem em definitivo para 2018 e 2019.

Como foi sua participação no Pro Otztaler?
Bem, honestamente, antes da prova eu não tinha a menor ideia do que esperar e muito menos se seria até mesmo capaz de terminar essa prova, que é considerada como talvez a mais dura clássica de todo o calendário. Pois não somente completei mas ainda fui capaz de estar junto com os melhores e finalizei com um 17º lugar, o que foi uma surpresa enorme não só para a equipe como para mim também.

Qual foi a estratégia para encarar a dureza da Pro Otztaler?
Foi com certeza uma prova muito dura, com 238km e 5.500m de desnível acumulado, o que mesmo para um ciclista profissional é realmente muita coisa! A prova começou muito rápido e subimos a primeira montanha a uma velocidade realmente impressionante até que se formou a fuga do dia. Para se ter uma ideia depois de apenas 40km éramos um grupo de somente 35/40 atletas no primeiro pelotão dos 150 que largaram. Depois a prova se tranquilizou um pouco e as equipes que tinham “perdido” a fuga começaram a trabalhar para controlar o tempo. Para mim, a estratégia era ajudar ao máximo José Manuel Diaz, espanhol que vinha como capitão da equipe, e tentar sobreviver como pudesse. Foi o que fiz… Consegui me segurar com o pequeno grupo dos favoritos até praticamente 15km para o final da última subida e depois seguir com o que me restava de forças até a chegada.

Como avalia a experiência?
Com certeza já pude perceber como tudo no ciclismo profissional é um pouco “mais” do que estava acostumado. As velocidades são maiores, são mais quilômetros, o nível dos atletas é mais elevado e não existe margem para erros. Foi uma experiência realmente indescritível e muito bonita, mas também com um aprendizado muito valioso para que eu possa seguir evoluindo e melhorando.

Nícolas Sessler está há quatro anos fora do Brasil

Nícolas Sessler está há quatro anos fora do Brasil

Quais seus planos no ciclismo?
Nunca se sabe o que o futuro nos reserva, mas posso dizer que meu objetivo principal e o que me motiva é subir em definitivo à categoria profissional e levar a bandeira brasileira às maiores corridas de todo o mundo. Para mostrar que o Brasil não é só o país do futebol, mas que também temos muitas outras qualidades! Gostaria muito também que, assim, ser capaz de ajudar a difundir mais a cultura do ciclismo em nosso país e motivar mais e mais gente a subir em uma bike.

Há quantos anos está fora do Brasil? Onde mora e como são seus treinos?
O ano de 2017 já é o meu 4º ano vivendo fora do Brasil. Mudei para a Bélgica no início de 2014 quando ainda estava no MTB e fui correr por uma equipe de lá. Vivi ali por 3 anos até o final de 2016 e este ano me mudei para a Espanha. Passei a correr pela Lizarte, que é uma das mais fortes e tradicionais do país, e também a equipe de desenvolvimento da equipe Movistar. Agora estou morando em Pamplona, no norte, perto da divisa com a França. É uma região muito propícia para a prática do ciclismo, com muitas estradas tranquilas e muita montanha. A cultura do ciclismo nessa região também é muito forte e com muita tradição com nomes como Miguel Indurain, Abraham Olano entre muitos outros.

Você começou com sucesso no MTB (Sessler  já foi duas vezes campeão brasileiro e chegou ao 7º lugar no ranking mundial Junior da UCI ). Pretende voltar ao cross country um dia? 
Deixar o MTB de lado foi uma decisão dura porque é o esporte em que comecei e que realmente está no meu coração. Nada se compara ao prazer de pilotar por uma bela trilha no meio da natureza sem nada ao seu redor. Porém, no momento, estou focado no ciclismo de estrada e percebo que tenho que colocar 100% da minha energia neste caminho para poder talvez atingir minhas metas e objetivos.

Como foi a mudança do MTB para o ciclismo?
A mudança de modalidades ocorreu um pouco por acaso. Quando me mudei para a Bélgica comecei a trabalhar também com um treinador de lá e foi ele que me incentivou a experimentar o ciclismo. Eu sempre fui um atleta com pouca explosão e sofria muito nas largadas das provas de MTB. Com isso em mente e conhecendo já um pouco mais de minhas características, esse treinador me sugeriu que fizesse algumas corridas de estrada como treinamento e para ver se eu me dava bem, já que, para ele, eu tinha mais potencial como ciclista de estrada do que como MTBiker.

E os resultados logo apareceram?
No final de 2015 participei de algumas corridas de ciclismo na Bélgica e na França e logo de cara gostei muito e me adaptei bem. Apenas em minha 7ª prova já conquistei uma vitória no Tour de La Dordogne, na França. Em 2016 fui chamado para correr com uma das maiores equipes Sub23 da Bélgica, a VL Technics. Sabia que uma oportunidade dessas não aparece duas vezes, decidi aceitar a oferta e ver até onde poderia chegar. Então 2016 foi minha primeira temporada de verdade como ciclista de estrada e, mesmo com uma curva de aprendizado muito grande, ainda fui capaz de obter bons resultados, como campeão da Volta a Valencia, melhor escalador na Volta Bidasoa e no Tour dos Pirineus, melhor jovem no Tour de Kreiz Breizh e também nos Pirineus e em Valencia. Isso me garantiu que a Lizarte me convidasse para compor a equipe em 2017.

Nícolas Sessler na Volta a Lleida

Nícolas Sessler na Volta a Lleida

Como foi o contato com a Israel Cycling Academy?
A Israel Cycling Academy, ICA, como eles costumam dizer, é uma equipe Profissional Continental israelita que ainda é relativamente nova, tem apenas 3 anos. Porém, eles são uma equipe muito forte na Europa e com atletas de diversos países, como Espanha, EUA, Canadá, Holanda, República Tcheca, Austrália e Nova Zelândia, entre outros. São 12 nacionalidades diferentes dentro da equipe (13 agora com o Brasil). Sua base está também na Espanha e boa parte do corpo técnico é também espanhol.

O que podemos esperar da equipe?
A equipe tem grandes ambições para o futuro e estão cada ano buscando evoluir em termos de estrutura, calendário etc. O grande objetivo é ser a primeira equipe israelita a disputar o Tour de France. Como estou correndo e obtendo bons resultados pela Lizarte, que é considerada a mais tradicional e melhor equipe amadora da Espanha, eles começaram a me “seguir” e desde algum tempo estamos já em contato. A ideia da equipe é chamar atenção, por meio do ciclismo, para as belezas de Israel e incentivar que mais gente vá visitar e conhecer o país. Eles buscam também que a equipe ajude a difundir a cultura do esporte dentro do país e que mais gente comece a praticar. Neste ponto temos objetivos muito similares, já que buscamos o mesmo para o Brasil.

Qual sua programação até o final da temporada?
No próximo final de semana correrei com a Lizarte a Vuelta a Cantabria, que é uma prova de nível “amador” de três dias. Depois volto a correr com “gente grande”, de novo na Israel Cycling Academy, em uma sequência de provas clássicas na Itália. Farei umas 5 ou 6 dessas que são chamadas as clássicas de outono e são muito tradicionais na Europa. Vão do dia 13 de setembro até o dia 3 de outubro.

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