Testamos a Elite E-Vibe, a mountain bike elétrica da Caloi

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Testamos a Elite E-Vibe, a mountain bike elétrica da Caloi

Rodamos quase 200 km em diferentes terrenos e a conclusão é que a bike surpreende e certamente permitirá que muitas pessoas explorem novas aventuras, mas será que vale o que custa?

Testamos a Elite E-Vibe em diversas situações; canote e selim utilizados no teste e aparentes na foto não são originais do modelo

Do Bikemagazine
Texto e fotos: Gabriel Vargas

Ela não é uma das novas mountain bikes all-mountain/enduro para descidas cascudas que usam a ajuda do motor para retornar ao topo da montanha. Sequer é uma confortável e prática bike de mobilidade urbana. Recebemos a Caloi Elite E-Vibe para o período de testes com bastante curiosidade: do que essa bike é capaz? E o mais importante, para quem ela se destina?

Quadro e os componentes se saíram bem em todos os terrenos percorridos

O primeiro contato foi positivo: a bike era mais leve do que o esperado e mais bonita pessoalmente do que pelas fotos de divulgação. Começamos com percursos na cidade, depois a levamos para trechos de estrada de terra em ritmo de passeio. Ao longo dos dias seguintes, forçamos a E-Vibe em estradas de terras mal conservadas, muito cascalho solto, um pouco de lama e, finalmente, encaramos uma pista de XCO com muitas raízes e algumas pedras sem a menor piedade. (In)felizmente, só não passamos por duas situações: chuva forte e bateria esgotada. Mas podemos dizer que entendemos bem este curioso projeto da Caloi, uma bike pioneira no Brasil.

Com preço sugerido de R$12.999,00, é um modelo que realmente precisa atender às necessidades e demandas de um nicho muito específico. Nessa faixa de preço, é possível encontrar excelentes opções de bikes convencionais com quadro em fibra de carbono e especificações superiores. A base da E-Vibe é a Caloi Elite convencional, que é uma bike honesta, de excelente custo-benefício e configuração sólida, mas que custa menos da metade do preço da versão elétrica.

Embora projetado para uso urbano, o sistema Steps E6000 funcionou perfeitamente nas trilhas

Um dos pontos de maior curiosidade da bike é o uso do sistema de assistência elétrica Shimano Steps E6000. Esse sistema é voltado para bikes de uso urbano, passeio, trekking e cicloturismo. Não há nada nas informações divulgadas pela Shimano que indique seu possível uso no fora-de-estrada. Portanto, a primeira impressão é de que a Caloi correu riscos nesse setor. Mas, surpreendentemente, não tivemos absolutamente nenhum problema em quase 200 km de testes em diferentes pisos e terrenos.

A versão do sistema Steps para mountain bike é o conjunto E8000, muito mais sofisticado e caro. Além da construção extremamente robusta para suportar às condições mais extremas de pilotagem, conta com motor mais forte (maior torque, apesar da mesma potência máxima) e um câmbio traseiro XT Di2 integrado ao “cérebro” eletrônico do conjunto. Sem dúvidas, é uma alternativa muito mais cara e totalmente fora do escopo do projeto da Caloi Elite.

O motor ajuda o ciclista de acordo com a força empregada nos pedais

O motor, instalado em um receptáculo especial no centro do quadro (na área do movimento central), disponibiliza até 250 watts de auxílio, sempre de acordo com a força empregada no pedal. Pouco esforço resulta em pouco auxílio. Se forçamos mais a pedalada, o motor entrega maior potência.

Há três modos disponíveis de ação do motor. O primeiro é o Eco, entregando aproximadamente 70w com grande autonomia (~120 km). A impressão é de que esse auxílio faz pouco mais do que compensar o peso extra do conjunto elétrico. O segundo modo é o Normal, mais recomendado para a maioria das situações. Com autonomia (~70 km) e potência (150 w) intermediárias, ainda exige esforço nas subidas e trilhas. Já o modo High é quando temos toda a potência disponível, mas a autonomia chega a ser metade do modo Eco. Nesse modo, a bike responde com muita agilidade e permite encarar praticamente qualquer subida com relativa facilidade.

Há ainda o modo OFF, em que pedalamos como uma bike convencional e um modo Walking, em que o motor é acionado com pouca potência independente do pedal, para auxiliar na hora de empurrar a bike em trechos difíceis. Muito conveniente!

O display é grande e exibe inúmeras informações

Todas as informações de bateria, potência e autonomia (constantemente atualizadas de acordo com o uso) são exibidas em um computador montado no guidão. O display é grande e com leitura fácil, e também são exibidas informações úteis como velocidade, distância e tempo decorridos, hora etc. Porém, foi necessário um pouco de criatividade ao inverter seu suporte para instalar um GPS Garmin na mesa da bike. O computador, que não aparenta ser nada robusto, acaba ficando um pouco exposto e passível de ser danificado em caso de quedas ou impactos diretos.

Comandos do sistema Steps ficam à mão

Todos os comandos relacionados ao acionamento do motor e informações da tela são feitos por um controle instalado ao lado esquerdo do guidão. Mesmo sem o passador de câmbio dianteiro, foi difícil ajustar a posição o controle do sistema Steps em relação à manete de freio e à trava de guidão da suspensão.

O motor em ação
A sensação ao pedalar é de que somos muito mais fortes, ou com se estivéssemos pedalando uma bike com peso nulo. A interferência do motor é razoavelmente natural e suas respostas às variações de esforço são incrivelmente rápidas. Como é definido por legislação, há um corte a 25km/h, momento no qual o motor deixa de funcionar. Nas trilhas técnicas e subidas duras esse limite é pouco percebido, mas torna-se um pouco chato em trechos mais velozes, pois o motor entra e sai de ação conforme ultrapassamos e retornamos ao limite. Nesses casos, o melhor é reduzir o auxílio, desligar o motor ou decidir por andar mais devagar.

Outra impressão muito evidente ao pedalar a bike é o peso do conjunto elétrico. O motor pesa pouco mais de 3 kg, e a bateria pouco mais de 2,6kg. Além disso, há o peso extra do suporte da bateria e da fiação. Isso torna muito difícil a tarefa de retirar a bike do chão via bunny-hop ou mesmo “puxando no taquinho”. Com isso, muitos obstáculos de menor dificuldade abordados em velocidade (especialmente cavas em estradões e raízes nas trilhas) ficaram de brinde para a roda traseira. Felizmente, a montagem central do motor pareceu não afetar o controle da bike, que se comportou sem surpresas nos single tracks, ao transpor obstáculos e descer grandes degraus e barrancos íngremes.

O quadro de alumínio aparenta robustez

Quadro e suspensão
O quadro de alumínio 6061 tem soldas aparentes e bem acabadas, com tubulação de aparência robusta. O grafismo dividiu opiniões: a pintura preta com detalhes em cinza é bonita, mas os detalhes excessivos em vermelho parecem exagerados.

Embora não seja da leva de quadros com visual mais clean e moderno, a passagem interna dos cabos de aço e elétricos e mangueira de freio nos tubos inferiores e superiores é interessante – mas tudo fica exposto, não tão bem acabado na traseira. O grafismo é pouco inspirado. A geometria é equilibrada, voltada para o conforto, mas com uma pegada esportiva light que agradará a uma ampla gama de praticantes. Como a Caloi falha em divulgar dados mais técnicos dos seus produtos, ficamos sem saber detalhes da geometria, tampouco podemos comparar com a Elite convencional.

Notamos dois problemas no quadro: primeiro, a furação para o único suporte de caramanhola é muito alto e dificultou o uso de uma garrafa de 750 ml no modelo testado (tamanho L). Segundo, a bike é oferecida em apenas dois tamanhos: M e L, equivalente ao 17 e 19”, respectivamente.

A suspensão RockShox 30 Silver Solo Air com 100 mm de curso surpreendeu positivamente. Embora não seja sofisticada, essa suspensão a ar aparentou ser muito adequada ao modelo e chega a ser um dos destaques do conjunto. Durante os testes, optei por um ajuste mais macio e sensível, utilizando a trava no guidão sempre que necessário.

O conjunto Shimano Deore de 10 velocidades funcionou sem falhas

Componentes
A bike vem equipada com mesa e canote FSA Overdrive, que agregam valor e conferem um visual caprichado à bike. O guidão é oferecido pela própria Caloi. Os pontos de contato são fracos: selim e manopla não agradaram e certamente merecem um upgrade de acordo com as preferências do ciclista. Infelizmente, o modelo que recebemos veio com canote de selim serrado – alguém provavelmente não conseguiu baixar o selim o quanto queria – portanto utilizamos outro canote (e selim, vide fotos) durante o teste.

As rodas são construídas com aros Caloi P71 fabricados pela Vzan e cubos Shimano M6000 Center Lock. Embora não sejam superdimensionadas, como é de se esperar em e-bikes, as rodas resistiram aos abusos sem maiores problemas. Os pneus Continental X-King Performance 2.2 agradaram, especialmente no piso duro e no cascalho. Em algumas situações mais extremas na lama, porém, deixou um pouco a desejar em tração – algo crítico sob condições de muito torque com a força das pernas aliadas à ajuda do motor.

Os freios M6000 também apresentaram performance adequada

Câmbios e freios
A transmissão é baseada no grupo Shimano Deore M6000 de 10 velocidades. As mudanças de marcha foram precisas e nunca falharam, mesmo sob grande esforço (das pernas e do motor). Graças à ajuda do motor, o cassete 11-42 e a coroa de 38 dentes permitem boa desenvoltura em absolutamente qualquer terreno, mesmo nas rampas mais íngremes.

O pedivela que acompanha o sistema E6000 não possui coroa narrow-wide específica para 1x, pois não foi originalmente projetado para o uso aplicado na E-Vibe. Surpreendentemente, não tivemos nenhuma queda de corrente mesmo ao deixar o clutch do câmbio traseiro propositalmente aberto em trilhas com muitos impactos. Ou seja: embora voltado ao uso urbano, o conjunto E6000 deu conta do recado impecavelmente.

A frenagem fica por conta dos discos hidráulicos Shimano MT500, equivalentes aos Deore, com rotores de 160 mm. O funcionamento dos freios foi consistente e confiável, sem surpresas.

Os pneus Continental X-King passam confiança nas estradas de terra

Conclusões
Em geral, o conjunto surpreendeu positivamente. Sendo uma bike voltada para estradas de terras e trilhas leves, a solução da Caloi em utilizar o sistema elétrico urbano E6000 foi bastante efetiva para permitir um modelo com custo viável. O sistema lidou muito bem com todas as situações de teste sem jamais falhar em qualquer sentido, o que superou as expectativas.

A potência do motor e a duração da bateria são adequados para passeios e pedaladas em estradas de terra e trilhas leves e moderadas, por percursos com até 70 ou 80km. Nos percursos mais longos, a tarefa de monitorar e gerenciar o consumo da bateria é interessante e desafiador, encorajando o ciclista a reduzir o uso do motor, o que é positivo. As subidas são suavizadas e as trilhas travadas são sempre muito divertidas, seja subindo ou descendo.

O quadro e os componentes saíram-se bem em todos os terrenos percorridos. Nenhum componente da bike deixou a desejar durante o teste, dispensando sugestões de upgrades mais urgentes, exceto o selim e manoplas. No contexto do uso recomendado da bike e seu possível público-alvo, as especificações atendem tranquilamente às demandas.

Pontos positivos: Quadro e componentes em geral equilibrados e funcionais; confiabilidade e eficiência do sistema STEP E6000; suspensão RockShox a ar e pneus Continental X-King.

Pontos negativos: Disposição dos comandos no guidão; ciclocomputador integrado aparenta fragilidade; grafismo pode não agradar a todos.

Público-alvo: Entendemos que a Caloi Elite E-Vibe dá a oportunidade a alguns praticantes de encarar percursos, distâncias e a acompanhar outras pessoas que, sem a assistência, não seria possível. Não há demérito nisso – não fosse pelo preço da bike, poderíamos até dizer que ela permite que qualquer pessoa chegue a qualquer lugar.

Entre ficar nos mesmos percursos fáceis e curtos de sempre (ou mesmo no sofá) e se atrever a ir longe com a segurança e o auxílio de um motor, sem dúvida muitas pessoas optarão pela segunda alternativa.​

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