Review: Confira a gravel nacional Dinâmica Guará

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Review: Confira a gravel nacional Dinâmica Guará

Bike feita a mão em São Paulo surpreende com conforto no asfalto e agilidade no off road; rodamos quase 300km em três semanas

A Guará em ação na estrada de terra; o termo gravel significa cascalho em inglês

Gabriel Vargas/Do Bikemagazine
Fotos de divulgação/Fernando Siqueira

Desenvolvida e fabricada em São Paulo, a Dinâmica Guará é um dos projetos mais interessantes no meio ciclístico brasileiro nos últimos tempos, desde a concepção, processo de produção, até o produto final. Entre treinos, deslocamentos e passeios, rodamos quase 300km em três semanas com um chamativo protótipo laranja-neon, em diferentes tipos de terreno e piso.

A empresa, criada em 2016 pelo engenheiro Vinicius Villas Boas, segue uma filosofia de construir produtos duráveis, confiáveis de maneira ecológica e sustentável. Além da Guará, tivemos a oportunidade de avaliar o modelo urbano Link. Confira a reportagem com mais detalhes sobre a Dinâmica Bicicletas.

A bike é destinada a uma ampla gama de usos. Embora seja uma gravel, é também uma bike muito adequada para o uso urbano, brevês e randonneurs, aventureiros, cicloturistas, ciclistas experientes ou iniciantes e até para quem gosta de uma trilha, mas não quer se envolver com suspensões e outras complicações do tipo.

A Guará é versátil e pode ser usada na cidade, para brevês e randonneurs, aventureiros e cicloturistas

O conceito gravel (literalmente, cascalho em inglês) nasceu há anos nos Estados Unidos, na mão de praticantes de ciclismo que queriam prosseguir quando o asfalto acabava, ou pedalar pelas inúmeras estradas não-pavimentadas, longe dos riscos das vias asfaltadas e engolindo muito mais quilômetros do que é viável em uma mountain bike.

Havia dúvidas se a modalidade pegaria no Brasil, já que é raro encontrar estradas perfeitas de cascalho. Mas antes que pudéssemos notar, vários praticantes em diversas regiões do Brasil iniciaram experimentos com bikes adaptadas e híbridas, mesclando quadros de uso urbano com guidões drop. Atualmente, há grupos em várias cidades que se reúnem em busca das estradas impossíveis para as road bikes. O leitor não precisa ter dúvidas sobre o movimento gravel no Brasil: embora não seja (ainda) algo extremamente popular, já há um grande número de adeptos.

A Dinâmica Guará está disponível a partir de R$ 4.890, com garantia vitalícia para quadro e garfo, um ano para componentes e três meses para os pneus. O quadro já inclui registro no sistema Bike Registrada. Há opção de 24 cores (foscas ou brilhantes) e a compra da bike é feita sob um processo que permite ampla personalização de componentes e outros detalhes. A Guará está disponível nos tamanhos 51, 54, 57, 60 e 63.

QUADRO E GARFO

O quadro é feito a mão com tubos de aço manganês ST52; o garfo é de alumínio 6061 T6

A Guará tem quadro construído com tubos de aço manganês de alta resistência ST52, cortados a laser e soldados a mão por processo TIG. O triângulo principal do quadro foi projetado para apresentar grande rigidez torsional, enquanto a traseira, especialmente os seat stays, foram dimensionados para uma ótima absorção e dissipação de pequenos impactos e vibrações. O garfo, por sua vez, é fabricado inteiramente em alumínio 6061-T6. Segundo o fabricante, o garfo foi projetado para alcançar equilíbrio entre rigidez, resistência e absorção de impactos e vibrações sem resultar num peso excessivo.

O quadro recebe um revestimento de alta resistência a corrosão tanto na parte externa quanto na parte interna chamado e-coat. Isso garante que o quadro estará protegido contra corrosão mesmo sob condições de alta umidade. O revestimento interno também permite uma maior tranquilidade em relação à oxidação por dentro dos tubos. Em seguida, tanto o quadro quanto o garfo recebem pintura eletrostática a pó de 3 camadas, entre base, cor e verniz.

Detalhe do cockpit com guidão Deda Zero e da fita de guidão em couro legítimo da SRD

Tudo no quadro é bastante convencional: movimento central de rosca, gancheira de câmbio do tipo mais comum encontrada para substituição (porém, nosso protótipo não possuía gancheira substituível), caixa de direção semi-integrada de 44mm, canote 31.8mm, suporte para freios a disco do padrão mais tradicional e uso de blocagens convencionais. A ideia é evitar padrões que possam elevar o custo do projeto e complicar a vida do proprietário na hora de repor peças, mesmo após anos de uso. O quadro possui furação para bagageiros e duas caramanholas. Não há furação no garfo ou sob o quadro para terceira caramanhola, mas o fabricante informou que furações adicionais serão oferecidas opcionalmente em breve.

OS COMPONENTES

Pedivela Sora 3300, câmbio Alivio RD-M4000, cassete 11×36 e protetor de quadro SRD em couro

A Guará foi nossa primeira experiência com o grupo Shimano Sora R3000, lançado em 2016. Os componentes apresentam design coerente às linhas superiores da marca, e estão longe de serem mal acabados e de aspecto grosseiro como os antigos Sora 3300 de anos atrás. A Shimano realmente realizou um bom trabalho em trazer mais dignidade ao seu velho conhecido grupo de entrada. O grupo possui 9 velocidades, o STI tem um acionamento muito semelhante ao atual Tiagra de 10 velocidades e o pedivela tem um bonito desenho integrado Hollowtech II.

Uma solução interessante apresentada pela Dinâmica é o uso do câmbio Shimano Alivio RD-M4000 nas mudanças traseiras, permitindo o uso de um cassete 11×36. Além disso, o câmbio traseiro com design Shadow lida melhor com os impactos, obstáculos e vegetação encontrados nas aventuras. Durante todo o período de testes, mesmo com a pancadaria das piores estradas que encaramos, não tivemos nenhum problema com o ajuste do câmbio e passagem das marchas.

A Guará vem equipada com freios a disco Shimano BR-R317 mecânicos e rotores de 160mm

Os freios a disco mecânicos Shimano BR-R317 são uma das poucas opções de entrada oficialmente disponível no Brasil específica para manetes STI e correspondem ao grupo Sora. Seu funcionamento é adequado o bastante para o uso urbano e estrada, mas faltou potência de frenagem em situações mais extremas, como em descidas íngremes em estradas de terra complicadas. Não chega a ser inseguro, claro, mas deixa a desejar em “agarre”. Além disso, os freios mecânicos perdem em modulação e sensibilidade no acionamento, o que também interfere na hora de uma tocada mais agressiva nas estradas, fora delas e até mesmo no trânsito. Os discos são de 160 mm.

Os pneus Continental SpeedRIDE 700x42c brilharam durante os nossos testes. O modelo faz parte da linha “trekking” da marca alemã, mas com o mesmo design semi-slick do modelo Cyclocross Speed para condições secas e duras. Porém, pneus de ciclocross não são muito largos (o limite em provas oficiais é 33 mm), e o SpeedRIDE apresenta generosos 42 mm de largura. Eles rolam incrivelmente bem no asfalto, sem vibração e com mínima resistência. E encaram curvas com firmeza e segurança. Na terra, os cravos baixos fazem seu trabalho e a tração é surpreendente e suficiente mesmo em terreno solto.

A versão básica da Guará é montada com rodas Vzan Extreme Pro Disc, guidão Zoom, mesa e canote Kode. O protótipo que testamos, porém, estava equipado com cockpit da marca italiana Deda (com o belo conjunto de guidão mesa Zero 1 e canote RSX01) e rodas Shimano RX05. Um detalhe especial fica a cargo do selim e fita de guidão da SRD – Sem Raça Definida. A fita de guidão com um toque artesanal no acabamento tem um contato excepcional com as mãos, mesmo sem luvas. O selim, feito a partir de uma base Velo, também agradou no contato e no aspecto visual único.

NO ASFALTO

O conforto da bike  no asfalto é um dos pontos altos

A primeira sensação ao sair com a Guará em uma estrada de asfalto foi a incrível facilidade que a bike apresentou para rolar no plano. Recebemos a orientação de manter a pressão máxima recomendada no pneu traseiro. Fiz o experimento (incrédulo), e para enorme surpresa, a bike simplesmente faz desaparecer a vibração causada pelo asfalto de superfície muito abrasiva e as imperfeições do processo de pavimentação. Os cravos baixos do pneus não são percebidos, e a bike desenvolve ritmo sem dificuldade.

A bike engole trincas, detritos, emendas e outros pequenos desprazeres asfálticos. Mas ela não os ignora – é possível saber o que se passa abaixo dos pneus, sem desconectar o ciclista do piso. Isso é importante na hora de manter uma tocada mais agressiva, especialmente em curvas. O conforto da bike é um dos seus pontos altos, sem dúvidas. Obviamente, como qualquer outra bike rígida, ela não perdoa buracos e grandes calombos no asfalto, levando os impactos ao ciclista. Basta ajustar a pressão dos pneus para obter ainda mais conforto e maciez.

A Guará sobe bem, apesar dos 12,5kg. Não é veloz, mas não passa a sensação de ser lenta morro acima. O quadro é muito firme ao pedalar em pé e não existe a impressão de estar arrastando uma âncora ao manter um ritmo constante nas subidas. Vindo de uma estradeira 5kg mais leve, a primeira lição foi “ter paciência nas subidas”. Mas honestamente, se não fosse pelos números na tela do GPS, eu não teria percebido os km/h a menos.

A geometria foi cuidadosamente planejada, e o resultado é muito interessante. A condução é afiada e com reações rápidas em baixa velocidade, mudando a direção no trânsito com agilidade. Em alta velocidade, acima dos 40km/h, a bike mostra-se mais estável e plantada. Para desviar de um obstáculo, não basta um “jogo de quadril”. É necessário um input firme e decidido no guidão. A bike tende a manter uma trajetória estável, mas mesmo assim não é ruim de curva: ela vira como se estivesse sobre trilhos. Esse comportamento demanda mais atenção e envolvimento na condução da bike, e ao mesmo tempo transmite maior sensação de segurança em velocidades moderadas, entre os 25 e 35km/h. Porém, em alguns momentos, desejei que a bike fosse mais arisca e solta, mais “telepática”. Durante um treino, precisei desviar de um olho de gato em meio a uma curva fechada e veloz e, ainda pouco acostumado com a bike, tive um pouco mais de trabalho com o guidão do que eu esperava.

FORA DO ASFALTO

A bike é pura diversão no off road

Várias das estradas asfaltadas que percorro no meu cotidiano de treinos terminam, entroncam ou são margeadas por convidativas vias de terra cobertas com um cascalho fino e claro, que geralmente levam a grandes fazendas da região. Ruins para andar com a bike de estrada, mas muito “sem-graça” para uma mountain bike. Ou seja, terreno perfeito para a Guará.

Esse tipo de piso, solto e regular, desperta o que há de melhor nessa bike. Os pneus seguem a trajetória com segurança, sempre rolando de maneira suave. Assim como no asfalto, o quadro dissipa as vibrações do cascalho e a condução da bike é encaixada, sem margem para movimentos vagos e perdidos. Desejei fortemente que essas estradas seguissem por quilômetros indefinidos, mas infelizmente elas sempre terminavam após poucos minutos de experiência prazerosa.

Encarar trilhas com a Guará é diversão pura. A bike convida o ciclista a testar suas habilidades e os limites do equipamento. Ao longo dos dias, encontramos alguns single-tracks com trechos de cascalho solto, areia fofa, lama e até rock-gardens. Ela se saiu muito bem no terreno seco, permitindo excelente controle em poças de areia e no cascalho solto. Mesmo com um bom grau de estabilidade, a pilotagem nesse tipo de terreno é responsiva e exige atenção, pois a direção retribui o ciclista com bastante feedback do terreno.

A bike passa fácil por trechos de lama

Trechos de lama viram um parque de diversões com a Guará, e até podemos brincar um pouco de ciclocross, inspirado pelas imagens das provas europeias. Os cravos baixos dos pneus não dão moleza, mas a geometria da bike ajuda bastante na hora de usar todo o corpo para manter o equilíbrio e a trajetória. A bike também se saiu bem nas pedras, transpondo obstáculos que a princípio pareciam um pouco demais para ela. Mas tudo, claro, exigindo um tanto de esforço e habilidade. Ao contrário de uma mountain bike, com a gravel é preciso se virar um bocado para transpor trechos relativamente simples. E essa é justamente uma das maiores diversões nesse tipo de bike.

O maior destaque da Guará no fora-de-estrada é a maneira com que ela transforma nossa relação com os caminhos alternativos. Qualquer trilha em meio a uma praça é tão excitante quanto um single track em uma MTB. O gramado ao lado do acostamento na estrada vira uma pequena aventura. Invadir aquela passarela isolada na estrada ao invés de pegar o retorno pela pista faz o ciclista se sentir em uma prova de ciclocross. Diversão pura.

As nossas velhas conhecidas estradas rurais de chão batido mostraram um outro lado da “vida real” de uma bike gravel. O piso duro, sempre esburacado, cheio de protuberâncias, pedras soltas e incrustadas na terra e até algumas eventuais raízes são um pouco demais para os 42mm dos pneus e a arquitetura rígida da bike. Nos trechos mais lentos, como as subidas, ela vai muito bem. Mas prepare-se para a pancadaria ao encarar as descidas. Durante os testes, encarei uma descida de serra de 4,5km em uma típica estrada rural em meio a velhas fazendas, com todo tipo de obstáculos (inclusive alguns bem orgânicos) no solo. Ciclistas mais experientes certamente poderiam soltar mais os freios e “voar” sobre os buracos, mas eu segurei um pouco mais as manetes. Resultado? os punhos doeram um bocado nos dias seguintes.

VEREDITO

Os 2 suportes de caramanhola e furações para bagageiros permitem vários usos

Após vários quilômetros, percebi que a Dinâmica Guará tem um temperamento “oito-oitenta”: faz desaparecer vibrações do asfalto, mas repentinamente mostra os impactos dos buracos; rola com incrível facilidade nos planos, mas exige paciência nas subidas; flutua como um tapete no cascalho, mas sacode os ossos na terra batida; é super ágil em baixa velocidade, mas torna-se fincada e estável em altas velocidades. No contexto, isso tudo é algo que dá personalidade e torna a bike viva, ativa, promovendo uma relação dinâmica entre o ciclista e a bicicleta. Algo muito especial, sem dúvida. O leitor pode chamar a Guará de qualquer coisa, menos de tediosa e comum.

Boas bikes construídas com a performance em mente pedem sempre mais: acelerar mais, curvar mais, forçar mais. A Guará é mais gentil, e parece pedir por mais constância, uma tocada mais fluida e contínua. Mas ela não quer parar nunca. Seguir sempre adiante, não importa o piso ou o tipo de estrada, realmente é algo que está no espírito dessa bike.

A Dinâmica Guará é uma bike artesanal, nascida sob os sonhos e cuidados meticulosos de um engenheiro visionário aqui mesmo, no nosso Brasil. Tem configuração simples, é pesadinha, não custa muito. E isso não importa para a Guará. Ela não é uma bike para quem procura máximo desempenho, status ou tecnologia de ponta. Talvez seja a geometria, o quadro de aço ou os excelentes pneus, difícil dizer. Mas essa bike tem algo que promove uma experiência genuína, original, altamente sensorial e tátil. E vai fazer muitos ciclistas sorrirem em grandes e pequenas aventuras por aí, exatamente como me fez sorrir durante todos os agradáveis dias e quilômetros percorridos durante o teste.

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