Avaliamos a Sense Vortex Disc; uma aero com freios a disco e R$ 19 mil

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Avaliamos a Sense Vortex Disc; uma aero com freios a disco e R$ 19 mil

Colocamos a bike aero da Sense no asfalto para descobrir se o mercado das nacionais está realmente mais veloz

O modelo é o mesmo Hypervox, produzido pela sul-africana Swift

Do Bikemagazine
Texto e fotos de Gabriel Vargas

A Sense Vortex Disc foi uma das estrelas no lançamento da linha 2019. A novidade atraiu muita curiosidade por ser um dos modelos de estrada mais avançados oferecidos entre os fabricantes nacionais.

Com quadro de linhas modernas, rodas de carbono e o grupo completo Ultegra, a Vortex Disc promete performance e cria expectativas sobre as características e qualidades do conjunto. Colocamos o novo modelo em teste para saber se a bike corresponde ao esperado e se está apta a enfrentar a concorrência das importadas de sua categoria.

A Vortex tem duas versões: freios tradicionais e com discos Shimano Ultegra

A Vortex está disponível em duas versões. O modelo testado tem preço sugerido de R$ 18.990, contra R$ 17.990 da versão com freios convencionais. É curiosa a pequena diferença de preço entre as versões com e sem disco, algo diferente do que é visto em relação às importadas, que geralmente custam muito mais na versão com disco. A diferença de peso entre as duas bikes é de 400 gramas (7,5kg contra 7,9kg, segundo informações da marca). Em nossa balança, aferimos exatamente 8kg para o modelo tamanho L da Sense Vortex Disc, sem pedais.

As linhas elegantes da Vortex são um dos pontos fortes do quadro

Não é nenhum segredo que, sob a bonita pintura da Sense, a Vortex é na verdade uma Swift Hypervox, inclusive com os mesmos tipos de fibra de carbono (Toray T800/900) e mesma laminação no processo de fabricação. Empresa de origem sul-africana, a Swift é especializada no emprego avançado de fibra de carbono e está por trás da engenharia de todos os modelos da carbono da Sense. Vale lembrar que a empresa brasileira com sede em Minas Gerais adquiriu a Swift em abril deste ano em uma operação estimada  em US$ 20 milhões, segundo o jornal O Estado de São Paulo (veja notícia).

A Hypervox, lançada em 2016, foi muito elogiada na imprensa especializada internacional como uma bike com ótima geometria e boas características de performance. A bike foi usada pelo sul-africano Henri Schoeman na conquista da medalha de bronze na prova de triathlon, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, e também do título mundial em 2018 do WTS, em Abu Dhabi.

Detalhe da traseira com os stays que favorecem a rigidez

Este pedigree foi confirmado quando colocamos a bike no asfalto. E mais: basta um pouco de pesquisa sobre a Hypervox e logo temos algumas informações que ajudam muito a entender o projeto original que resultou na Sense Vortex. O quadro é extremamente funcional, focado exclusivamente em desempenho; suas características estruturais são prioridade no projeto, em detrimento das qualidades aerodinâmicas. Assim, o quadro é “meio” aero, pois alguns tubos, especialmente na traseira, foram projetados pensando primeiro no equilíbrio ideal de rigidez, e não nos fluxos de ar.

Características e componentes
O quadro tem eixos passantes 12×142 mm, movimento central BB386 e tem suporte para freios tipo flat-mount, o padrão mais moderno para bikes de estrada. Os conduítes dos câmbios entram pelo quadro por uma janela do lado esquerdo na junção do tubo inferior com o tubo da direção, uma solução elegante que deve reduzir um pouco o arrasto aerodinâmico.

Detalhe da caixa do movimento central

O canote aero é fixado ao quadro por meio de uma abraçadeira integrada de cunha interna, assim como visto em outras bikes modernas de alto padrão. O garfo tem espiga cônica e é inteiro de carbono.

A frente, com guidão e mesa Ritchey WCS

O guidão e mesa são da linha WCS da Ritchey, que embora sejam excepcionais em qualidade, não combinam com a proposta aerodinâmica da bicicleta. O selim é o Fizik Arione R5 Versus EVO com trilhos de alumínio e de visual futurista. O modelo deve ser ótimo para quem gosta de selins com abertura central. Pessoalmente, lido muito mal com selins desse tipo, e a canaleta longitudinal que atravessa o selim de ponta a ponta foi uma pequena tortura nos testes.

O confiável grupo Shimano Ultegra R8020 2×11 velocidades e coroas 52×36

A Vortex está equipada com o grupo completo Shimano Ultegra R8020, que é a versão com discos hidráulicos do R8000, e vem com a configuração de relação 52-36 para as coroas e 11-28 para o cassete. Como era de se esperar, o funcionamento do sistema é impecável e sem surpresas, com destaque para as rápidas e firmes trocas de marcha no câmbio dianteiro. A Shimano conseguiu tornar a ergonomia do STI mais semelhante aos modelos para freios mecânicos, embora não tão esguia.

Detalhe do canote, fixado com uma cunha no interior do top tube

O uso do freio a disco no pelotão e nos treinos de estrada era um dos pontos de maior curiosidade do modelo. Infelizmente, a bike enviada para os testes apresentava ar no sistema hidráulico, o que prejudicou a sensibilidade nos momentos mais críticos. Com discos de 160mm na frente e 140mm atrás, os freios foram bem-vindos em alguns treinos em percursos mais técnicos, com descidas acentuadas e curvas fechadas, mas fizeram pouca diferença na estrada aberta, como era esperado.

O belo selim com a abertura pode não agradar a todos

O sistema acrescenta quase meio quilo se comparado à Vortex com freios no aro, mas é uma vantagem se pensarmos que a frenagem em rodas de carbono deixa um pouco a desejar em algumas situações. A decisão entre uma versão e outra, como sempre, é pessoal e depende das necessidades específicas de cada ciclista. A diferença de R$ 1 mil significa que a versão Disc é apenas 5,5% mais cara do que a convencional, o que poderá interessar a muitos compradores do modelo.

O par de rodas Sentec Carbon Aero 60 é o maior destaque entre as especificações da Vortex, mas isso não significa necessariamente uma grande qualidade. A Sentec é a marca de componentes da própria Sense, e os aros de carbono de perfil alto – 60mm – são montados com os excelentes raios Sapim CX-Ray e pesam 1.900 gramas o par. O valor de mercado de rodas como essa é alto, e giram ao redor dos R$ 6 mil, o que inicialmente torna sua inclusão como item de série na Vortex um pulo-do-gato para a Sense. Porém, a escolha por um modelo de perfil tão alto é bastante discutível, como veremos adiante. Para completar o conjunto, as rodas estão calçadas com pneus Schwalbe One Performance 700x25c.

Durante os testes
Apresentada oficialmente no evento de lançamento da marca em agosto (veja matéria), a Sense não tinha muitos exemplares Vortex Disc para avaliação da imprensa. Rodamos 10 dias na região de Campinas (SP) e tivemos que, lamentavelmente, interromper o teste e retornar a bike que seria exposta em um feira em São Paulo.

As primeiras saídas com a Vortex não revelaram muito sobre seu comportamento, pois havia muito vento lateral naqueles dias e a principal preocupação durante os treinos era manter a bike em linha reta. Não importa o quanto as rodas de carbono são bonitas e deixam a bike com uma aparência matadora, o vento lateral exige mãos firmes e atenção constante e redobrada, ainda mais para um ciclista de 60kg. Nos primeiros testes, em estrada aberta e apenas com pequenos aclives, a Vortex mostrou apenas de maneira tímida suas características.

Detalhe do freio a disco dianteiro e do aro de carbono de 60mm de altura

Finalmente, vieram os treinos mais longos em dias de clima mais calmo. O percurso incluía pequenas serras, falsos-planos velozes e asfalto bom e razoável. A bike insistiu em não impressionar. Era notável a facilidade em manter o ritmo nos planos, falsos-planos e aclives leves, e a sensação é de que a Vortex estava fazendo seu trabalho sem muito alarde. Em nenhum momento tive alguma sensação de grande empolgação, nenhum “uau”. Mas a velocidade estava sempre presente, o ritmo sempre era mais fácil de ser sustentado.

Algo estava deixando a desejar em sprints e nas subidas íngremes. E a suspeita recaiu sobre as rodas Sentec. Por conta dos discos e eixos, não tivemos a oportunidade de testar a bike com um par de rodas já conhecido, como é procedimento padrão em nossos testes. Isso tornou difícil, em um primeiro momento, de entender o que é característica do quadro e o que é característica da roda. Com o passar dos quilômetros, começou a ficar mais claro que as rodas estavam roubando um pouco daquilo que a bike poderia oferecer de melhor. O peso delas aparece sem perdão ao encarar rampas íngremes e, durante os sprints, não tive a sensação de que os aros são exatamente firmes como uma rocha. A impressão de que algo estava cedendo sob a bike era sutil, mas perceptível em arrancadas acima dos 800 ou 900 Watts, mesmo para um ciclista leve.

Foi num treino em pelotão, em ritmo forte, com curvas fechadas e alguns trechos de alto esforço puxando na ponta que a Sense Vortex finalmente mostrou o seu melhor lado. A dirigibilidade da bike é sensacional para esse cenário. A Vortex é arisca e segue o rumo que for indicado pelo ciclista, mesmo quando já parece estar no limite em curvas. Os pneus Schwalbe One passaram confiança e responderam bem a uma tocada agressiva, mas sem dúvida o maior destaque vai para a geometria da bike e a rigidez da parte frontal do quadro. Fiz algumas curvas bem conhecidas em trajetórias mais apertadas que o habitual, sem sustos – só um pouco a mais de emoção. Se era necessário tirar de lado, seja no plano ou em curva, ou jogar a bike com o corpo no espaço apertado do pelotão, bastava pensar e mal era necessário agir – a bike ia. Uma legítima bike de competição.

É difícil avaliar por sensações o quanto uma bike divulgada como “aero” é realmente veloz. Nos momentos em que ela foi levada ao limite (do ciclista, claro) no plano, sob esforço constante e com vento neutro, a impressão é de que realmente havia algo a mais que a bike estava permitindo em termos de ritmo. A Sense Vortex Disc é uma pura bike de competição, como dito, e comprometida com a performance. Ela apresenta uma ou outra solução voltada para o conforto, como algum cuidado no formato dos seatstays, e só. No geral, é uma bike dura, mas não demasiadamente. A melhor palavra que poderia definir suas características de conforto é “seca”.

Veredito
Em poucas palavras, dá para afirmar que a bike tem um quadro realmente voltado para a performance, com excelentes características de condução e conforto discreto. O modelo é montado com ótimos componentes em geral, mas com uma escolha de rodas questionável. Elas são atrativas, sem dúvida, mas a bike perde versatilidade e brilho em algumas situações, o que “matou” a Vortex um pouco. Rodas de 30 a 40 mm certamente deixariam a bike mais ligeira e mais fácil de conduzir no dia-a-dia, em qualquer condição e terreno. A impressão é de que o pessoal da Sense quis roubar a cena no mercado com essas rodas, mas elas acabaram roubando um pouco da agilidade, rigidez, conforto e versatilidade da Vortex.

Os cabos entram pelo lado esquerdo do quadro

Na faixa de preço entre R$ 16 mil e R$ 19 mil, a Vortex Disc disputa o mercado com bikes respeitáveis, com preço um pouco abaixo da Specialized Tarmac SL6 com Shimano 105 e rodas de alumínio, custa a metade de uma Trek Madone SLR 6 Disc, que tem rodas Bontrager de carbono de perfil alto e grupo Ultegra com discos hidráulicos. Por outro lado, A Vortex Disc tem o mesmo preço sugerido da Audax Ventus S23 com quadro aero, rodas de carbono Cole C40 e grupo eletrônico Ultegra Di2. É um segmento interessante, com opções variadas que atendem a diferentes gostos e expectativas. Com quadro de qualidade mais do que comprovada e uma geometria muito acertada para competir e andar forte no pelotão, a Sense Vortex Disc é uma opção que não pode ser descartada.