Pedalamos mais de mil km com a road nacional Oggi Cadenza 500

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Pedalamos mais de mil km com a road nacional Oggi Cadenza 500

Confira o resultado do bike teste de longa duração com a confortável e equilibrada estradeira nacional com quadro de carbono

O quadro é eficiente e confortável, mas o ângulo recuado do tubo do seat tube pode complicar o fit

Do Bikemagazine
Texto e fotos de Gabriel Vargas

Nosso teste com a Oggi Cadenza totalizou 1.240 quilômetros, incluindo treinos bem longos com muitas subidas, alguns treinos fortes em pelotões e três provas em diferentes tipos de circuito. Esse período reflete bem o que a bike é: apta para encarar distâncias e os treinos do dia-a-dia sem reclamar, mas com as qualidades necessárias para competições.

Com quadro e garfo de carbono e grupo Shimano 105, a Oggi Cadenza enquadra-se perfeitamente no segmento das bikes intermediárias, no contexto brasileiro. Comercializada entre R$ 9 mil e R$ 10 mil, a bike tem a dura missão de competir com as importadas de alumínio, que estão na mesma faixa de preço e geralmente apresentam configuração de componentes similar. Como veremos, a Oggi Cadenza 500 tem bom custo-benefício, com qualidades distintivas que agradaram bastante, mas com alguns “poréns” em sua configuração.

Quadro e garfo

O quadro tem linhas fluidas e a traseira arqueada ajuda no conforto

A Oggi Cadenza 500 tem quadro e garfo construídos inteiramente em fibra de carbono, com linhas suaves e tubos ovalados. A traseira é arqueada, algo que esteve em alta anos atrás, mas já está obsoleto. Visualmente, não há nada muito chamativo, além da bela pintura preta e rosa. Os cabos são roteados internamente e o movimento central é no padrão press-fit BB86. A frente é alta, especialmente no modelo testado, tamanho 57, e o garfo com espiga cônica acompanha as linhas da bike.

O quadro é sensivelmente confortável e perdoa bastante o asfalto abrasivo ou quebradiço. O rodar é muito agradável e talvez este seja o grande destaque da bike. Em asfalto ruim, a impressão é que alguns buracos e trincas no piso simplesmente deixaram de existir. A traseira arqueada e o formato dos tubos certamente são os responsáveis por essa característica.

Este conforto extra teve resultado interessante tanto nos treinos longos quanto em provas e pelotões em asfalto ruim. Nos treinos longos foi notável como a Cadenza ajudou a chegar mais inteiro mesmo após quatro ou cinco horas de selim; no pelotão, a bike poupou energia que seria desperdiçada com os solavancos, permitindo maior foco e esforço nos momentos cruciais.

A traseira arqueada com tubos achatados absorve vibrações e ajuda a dissipar pequenos impactos

Embora extremamente confortável, a Oggi Cadenza é uma plataforma firme e estável nas pedaladas em pé, e respondeu bem mesmo nos sprints mais explosivos, como é de se esperar para uma bike de carbono de entrada. Ela não tem a rigidez evidente da Sense Prologue, sua concorrente, mas provavelmente não se mostrará mole para a maioria de nós, ciclistas amadores. O quadro aceitou muito bem sprints acima dos 1.100 Watts e os mergulhos em curvas agressivas durante as provas de circuito, sem nunca mostrar qualquer sinal de arrasto ou perda. As mesmas impressões apareceram nas subidas longas, tanto nas mais roladas quanto nas mais íngremes e travadas.

A bike aceita muito bem uma tocada firme e constante e responde sem delongas se alguma arrancada súbita, como em um ataque ou ao contornar curvas com cotovelos, em serras. Essas características fazem dela uma boa escolha para quem procura uma bike que alia velocidade e conforto para o asfalto regular, sem necessariamente investir em um equipamento com preço muito alto ou muito sofisticado.

Sua condução é neutra, ligeiramente estável. É fácil de guiar, mas também não exige muito input no guidão para encarar as curvas mais radicais, como é comum nas bikes que não tem uma geometria muito agressiva. Por outro lado, o entre-eixos relativamente curto ajuda com a agilidade e a entrada em curvas. Podemos dizer que sua direção é equilibrada. Novamente, não é super ágil e arisca como uma BMC Teammachine ALR, nem vagarosa e superestável como a nova Specialized Allez Elite, citando algumas outras opções de preço semelhante.

A geometria

Detalhe da caixa de centro com movimento central PF BB86 e cabeamento interno

A bike está disponível em cinco tamanhos: 43, 48, 51, 54 e 57. Em termos de geometria, a bike se enquadra na categoria das Endurance, com quadro mais alto e não muito longo através dos tamanhos. Um dos trunfos da Cadenza é justamente a disponibilidade de um tamanho tão pequeno quanto o 43, e ao mesmo tempo a grande 57 que irá atender aos mais altos.

Um dos grandes “poréns” da Oggi Cadenza está atrás e acima do movimento central. O ângulo do tubo do canote do selim é extremamente recuado, com apenas 71,5 graus para o tamanho 57, testado. O quadro 54 possui 72 graus e o 51 avança apenas para 72,5. Para uma comparação, a maioria das bikes possui algo na casa dos 73 a quase 74 graus nesse mesmo ponto para quadros de tamanhos equivalentes. O resultado disso é uma bike com tubo superior longo, mas com reach reduzido (veja nossa reportagem sobre geometria).

Assim, a menos que o ciclista tenha um fêmur gigante, o selim precisa ficar ajustado todo à frente, inclusive sendo ideal a substituição do canote por um modelo sem recuo (zero setback). Como configurada originalmente, a bike curiosamente exige uma mesa curta, e o joelho acaba tocando o guidão ao pedalar em pé. Seria interessante saber como os bike fitters ao redor do Brasil tem lidado com essa questão ao trabalhar com esse modelo.

O grafismo e as cores atraíram atenções por onde passou

A Oggi Cadenza está disponível em três cores: preto e branco, vermelho e branco e preto e rosa. No modelo testado, a pintura é bonita, com um preto brilhante adornado por detalhes em rosa e cinza. Chega a ser surpreendente como a Oggi chamou a atenção em um treino no pelotão, com muitos comentários positivos sobre a beleza chamativa da bike.

Por outro lado, há inscrições pouco maduras em inglês questionável ao longo do quadro, como “Created for Road” e “Cadenza by Milan”, detalhes que depreciam o produto e podem despertar suspeitas sobre a origem do projeto.

Componentes

Detalhe do cockpit com componentes ITM Alcor 80

Guidão, mesa e canote são da linha Alcor 80, da marca italiana ITM. O canote e mesa são fáceis de ajustar e com visual condizente com a bike, mas o guidão é um dos detalhes que prejudicam. A parte superior tem diâmetro muito pequeno e torna a pega bastante desconfortável para as mãos. A fita de guidão ITM de pouca espessura não ajuda em nada.

Para completar, a curvatura dos drops do guidão deixa pouco espaço para as mãos. Foi necessário retirar a fita, girar o guidão e instalar os STI um pouco acima para minimizar o problema. O selim Prologo agradou bastante com sua densidade e formato. Para dar um toque especial, o selim tem detalhes na mesma cor do quadro.

O grupo completo Shimano 105 5800 com coroas compactas e cassete 11×28

Um dos destaques da bike é o conjunto completo Shimano 105 5800. O grupo é um velho conhecido de muitos ciclistas e é a escolha certa para um excelente custo-benefício. A relação é composta por coroas compactas 50×34 e cassete 11×28. Durante o teste, a mudança de marchas pareceu um pouco pesada, especialmente para o câmbio traseiro. Isso acontece, provavelmente, por causa da maneira pouco criteriosa com que os conduítes foram montados, deixando curvas torcidas e fechadas. Os conduítes incluem ajustes de tensão inline Shimano SM-CA50, de acionamento fácil e preciso.

Com aros de 30mm de perfil, as rodas Shimano RS-31 são firmes e ajudam a manter o ritmo no plano sem resultar em muitas pancadas ao ciclista, como é comum em rodas de alumínio de perfil alto. Mas pesam ligeiramente acima de 2kg o par, o que é uma penalização cruel para a bike quando comparada com rodas mais leves. Os pneus Kenda Kaliente Pro 23c não brilharam muito nos testes. Não são ruins, mas sua rolagem não se compara aos excelentes Valkyrie, da própria Kenda (confira o teste). Chegamos a utilizar pneus 700×28 na bike – o quadro tem espaço para isto – mas essa margem poderá variar de acordo com a largura dos aros utilizados.

Após os testes

As rodas Shimano RS31 são robustas e firmes, mas um pouco pesadas, com mais de 2kg o par

O destaque do conjunto vai para para o conforto, que ajudou muito a manter o ritmo e trajetória em retas e curvas sobre asfalto ruim. Mesmo após acostumar-se com a Oggi Cadenza, ela continuou a surpreender com o excelente conforto treino após treino. A traseira arqueada faz desaparecer toda sorte de pequenos impactos e vibrações. Mesmo assim, a bike não chega a filtrar todas as sensações do piso, mantendo alguma conexão entre o ciclista e o contato dos pneus com o asfalto (o que é muito importante em uma tocada mais agressiva, curvas velozes etc).

A bike tem comportamento estável e previsível em curvas, sem grandes surpresas e sem “briga” com o guidão, mas com agilidade suficiente para andar no pelotão compacto. A Cadenza demonstrou rigidez adequada, mesmo que esse não seja um aspecto considerado como destaque do quadro. Se faltou velocidade durante os testes, certamente foi por falta de pernas e não por alguma deficiência da bike. A Oggi Cadenza completa (sem pedais) pesou 8,6 kg, razoável para o preço – mas que pode emagrecer quase meio quilo com uma seleção de rodas e cockpit mais refinados, ainda que de alumínio.

Com excelente quadro e o equilibrado grupo Shimano 105, a Oggi Cadenza merecerá alguns upgrades, de acordo com as preferências do ciclista. Um guidão com melhor ergonomia e contato irá favorecer amplamente a relação com a bike, sem dúvidas, e é bastante provável que muitos ciclistas necessitem de um canote sem setback para alcançar o ajuste adequado. Rodas mais leves e melhores pneus também seriam ótimos upgrades (como sempre!) e tornarão todo o conjunto mais vivo e ativo.

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