Bike teste: Checkpoint SL5, a gravel de carbono de R$ 20.499 da Trek

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Bike teste: Checkpoint SL5, a gravel de carbono de R$ 20.499 da Trek

O modelo de carbono equipado com grupo Shimano 105 e freios a disco hidráulicos impressiona pela versatilidade e espírito aventureiro

A gravel de carbono da Trek pesa 10,1kg e vem equipada com o grupo Shimano 105

Texto de Gabriel Vargas
Fotos e vídeo Isabela Vargas
Especial para o Bikemagazine

Em meio à onda de lançamento de bikes gravel que vivemos, a Checkpoint chegou ao mercado brasileiro, em março de 2018, como a primeira oferta da Trek para o segmento. No Brasil, a bike vai enfrentar uma concorrência crescente, o preço alto para o consumidor final e, com certeza, vai encarar ainda a desconfiança do público em relação às gravel. Mas, se existe um modelo que está apto a expandir os horizontes, tanto no sentido literal quanto figurado, a Checkpoint SL 5 certamente é uma das melhores candidatas.

Com um quadro de carbono que guarda muitas semelhanças com a Boone e a Domane, respectivamente a ciclocross e a endurance da marca de Waterloo, a bike incorpora inovações, soluções convenientes, características marcantes e alguns inconvenientes. O modelo que testamos, no tamanho 56, pesou 10,1 kg em nossa balança e tem preço sugerido de R$ 20.499.

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Quadro e garfo
De acordo com a Trek, o quadro em fibra de carbono OCLV 500 pesa 1.240 gramas no tamanho 56, mais os 470 gramas para o garfo inteiramente construído em fibra de carbono com espiga cônica. São valores muito interessantes, especialmente levando em consideração os vários extras que o pacote apresenta. Para uma comparação, a versão em alumínio da Checkpoint possui quadro de 1.570 gramas, além dos 600 gramas para o garfo feito em carbono e alumínio. Há espaço para pneus até 700*45c.

O sistema IsoSpeed garante conforto na traseira; o quadro aceita pneus com até 45mm de largura

O conjunto de quadro e garfo é cheio de adereços úteis às diversas aventuras para qual a bike é proposta. Na região do canote temos uma versão do sistema desacoplador IsoSpeed, que permite uma pequena faixa de movimento na área. Ao contrário da Domane, a Checkpoint não possui o IsoSpeed frontal.

O quadro acomoda 3 suportes para garrafas; destaque para a proteção contra impactos na parte inferior do downtube

O quadro também apresenta diversas furações para acessórios. São três suportes de caramanhola, sendo um na parte de baixo do tubo inferior, talvez muito exposto à sujeira para levar água, mas excelente para uma garrafa porta-ferramentas.

Nos quadros de tamanho 56 e acima, há ainda espaço para um terceiro suporte de caramanhola dentro do triângulo principal – sim, totalizando quatro suportes para garrafas! Há também furações padrão para bagageiros na traseira e no garfo, para tool box no tubo superior e a bike é compatível com o sistema próprio de paralamas da Bontrager.

Detalhe da gancheira traseira deslizante que permite ajuste de até 15mm

Um detalhe curioso da bike é a gancheira traseira ajustável. São 15mm de movimento horizontal, que permite o ajuste do comportamento da bike e viabiliza até mesmo a conversão para singlespeed. Esse ajuste pode ser muito útil para viagens com a bike carregada com alforges ou aventuras de longa duração em terreno traiçoeiro, situações na qual a estabilidade extra e a previsibilidade das reações da bike torna o pedal mais seguro, confortável e menos desgastante.

O quadro tem cabeamento interno pelo tubo inferior e nos seatstays para câmbios e freio traseiro, movimento central press-fit BB90, eixos passantes de 12mm, suportes para disco flat-mount, além da interessante adição de um guia de corrente (para evitar quedas as partir da coroa menor), proteção para o quadro na parte inferior do quadro e uma bem acabada proteção metálica contra “chainsuck” no chainstay, próximo à coroa.

Componentes
A Checkpoint SL 5 vem equipada com um grupo Shimano 105 5800 de 11 velocidades, freios a disco hidráulicos e câmbio traseiro de cage longo. As coroas são compactas, 50×34, enquanto que o cassete é um Ultegra HG700 11-34 (possivelmente pelo fato da Shimano não oferecer essa escalonagem em uma linha inferior).

Os pneus foram bem em diferentes tipo de piso em todas as condições

A bike rola sobre as rodas não especificadas da Bontrager, calçadas com pneus Kenda Flintridge Pro 700*35c para o mercado brasileiro. No modelo internacional, a bike vem com Schwalbe G-One.

Os demais componentes são todos Bontrager: o selim é o consagrado Montrose, enquanto que a frente é equipada com o guidão RL IsoZone VR-CF, acabado com a fita de guidão de EVA 2.5 mm.

O guidão Bontrager RL RL IsoZone VR-CF tem excelente ergonomia

A mesa inclui suporte integrado para computador e luzes, embora essa peça não tenha acompanhado o modelo que recebemos para avaliação.

O que gostamos
Antes de tudo, que bike bonita! O visual é discreto, com cores sóbrias e elegantes. A discreta transição das partes pintadas em tom sobre tom (o modelo testado é na cor Cobra Blood – sangue de cobra – de acordo com o site da Trek) para as partes em carbono unidirecional envernizado é um devaneio para os olhos. Há também uma versão na cor cinza que é espetacular.

A Checkpoint é uma bike apta a encarar diversos terrenos

Ao rodar no asfalto, inicialmente, a primeira e mais saliente impressão é o tremendo conforto e os modos sutis de direção nessa bike. Em “ritmo de cruzeiro”, a bike rola bem no asfalto, mas não espere vida fácil para acompanhar um ciclista em uma legítima bike de estrada. Ao entrar nas estradas de terra, esperávamos algum tipo de revelação surpreendente, como percebemos com a Dinâmica Guará, mas nada disso. A bike segue exatamente como vinha no asfalto, suave, fluida, apenas com mais trepidações e solavancos. Mas não muitos!

Realmente, os engenheiros da Trek acertaram a mão com o IsoSpeed. Auxiliado pela traseira levemente arqueada, o sistema desacoplador funciona de forma imperceptível, mas funciona – basta colocar o dedo na junção das peças para perceber que há movimento ali. Com a pressão certa nos pneus, a bike perdoa as imperfeições do asfalto e da terra de forma surpreendente. Imagine um dos dias de teste, no qual rodei aproximadamente 100km em cinco horas, com muitos trechos de estrada de terra boa, estrada de terra ruim, trilhas leves e até alguns trechinhos mais técnicos – e muita, muita subida pelo caminho. A percepção do conforto na parte traseira da bike não ficou muito diferente de uma mountain bike intermediária de alumínio.

O selim Bontrager Montrose contribuiu para a ótima sensação de conforto geral

Embora não tenhamos realizado testes com a bike completamente paramentada com acessórios, a visão de todas aquelas furações e possibilidades parecia convidar para uma aventura épica de vários dias, um bikepacking pelo interior ou coisa do tipo. Algo muito ajudado pelos excelentes componentes Bontrager, como o selim Montrose (que é o favorito de muitos bike-fitters, e agora é um dos meus favoritos também) ou o interessante guidão com uma curvatura “semiclássica”, muito agradável em todas as posições.

A Checkpoint SL 5 mostrou-se muito capaz nas mais diversas situações. Com ela, fiz alguns treinos sérios, objetivando determinadas metas de esforço; e também fiz vários pedais de pura aventura e desbravamento, descobrindo lugares que eu não conhecia na minha região. Pude ir muito mais longe do que iria com uma mountain bike, pois a bike rende bem mais em trechos de asfalto entre trilhas e até mesmo nos trechos de terra com piso bem liso e regular.

A sensação geral é de muita neutralidade. Como percebi após vários quilômetros em meio ao mato, a Checkpoint não é uma bike que exige a atenção do ciclista. Ela dá margem para percebermos a natureza, a estrada, a aventura; a bike em si, embora funcione impecavelmente em seu propósito, parece reagir pouco, sem dizer muito sobre o piso e sem resistir nem um pouco a qualquer input do ciclista. É muito parecida com a sensação de rodar com as Trek Domane mais recentes – a bike cumpre muito bem seu papel, mas o faz sem muito alarde. Como uma opção para viagens, longas aventuras e bikepacking, isso pode ser bastante pontual.

O que não gostamos
Toda essa característica de neutralidade é também um ponto negativo. A bike passa a sensação de ser meio apagada, um meio-termo em quase tudo. Assim como ela não é uma bike de estrada nem uma mountain bike, ela também não é rígida, mas nunca se mostrou mole; ela não é arisca, mas também não é excessivamente estável; ela não é pesada, mas também não surpreende muito na hora de pedalar forte. Ela tem a traseira muito confortável, mas a dianteira fica um pouco a desejar.

Especificamente, encontramos problemas na relação de marchas, nas rodas e nos pneus. Com 1:1 como a opção mais leve de marcha (34-34), esteja certo que faltará marcha na hora de encarar uma aventura mais puxada ou ao se deparar com as subidas mais duras. Gostaríamos de ver coroas 48-32, por exemplo, o que seria uma solução muito interessante e bem dentro da proposta gravel. As rodas, embora bastante robustas (pois aguentaram o abuso irrestrito que impomos à bike durante os testes), pareceram um pouco pesadas – talvez sejam elas que deixam a bike com uma sensação de lentidão na hora de arrancar ou subir com mais agilidade. E por fim, os pneus são muito estreitos para as típicas estradas de terra duras e esburacadas que temos por aqui.

Veredito
Um quadro excelente, cheio de características interessantes e soluções convenientes para as aventuras. A bike é versátil e tem muita qualidade, mas a configuração peca em alguns pontos. Evidentemente, é muito difícil ter unanimidade nesse segmento, pois as amplas possibilidades de uso e configuração são justamente uma das características das gravel. De toda forma, coroas e pneus podem ser substituídos conforme a necessidade do ciclista, de acordo com o uso desejado.

O preço é alto, especialmente por oferecer o já desatualizado conjunto Shimano 105 5800, o que deixará a bike em situação difícil perante as concorrentes. Dificilmente é a bike que poderíamos sugerir como uma opção para uso urbano ou para quem pretende fazer uma viagem intercontinental. Mas, sem dúvida, a Trek Checkpoint SL 5 é o par perfeito para quem procura aventuras, viagens, contato com a natureza e diversão sem restrições de piso e terreno.