Bikepacking, o mochilão de bicicleta

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Bikepacking, o mochilão de bicicleta

Conheça o conceito que une aventura e cicloturismo levando o mínimo possível e que tem atraído muitos adeptos mundo afora

O conceito “backpacking” ganha adeptos que unem clicloturismo e aventura

Marcos Adami/Do Bikemagazine
Fotos de Rodrigo Philipps
Publicada com autorização da revista Bike Action

Viajar de bicicleta é uma das formas mais divertidas e baratas de se conhecer o mundo. A bicicleta proporciona um contato íntimo com a natureza que outros meios não oferecem. Viagens com bicicleta podem ser feitas de várias formas, desde viagens curtas de um dia ou de finais de semana até longas viagens que duram anos e cruzam continentes inteiros.

Um conceito atual de se viajar de bicicleta é o bikepacking. O termo é uma alusão ao “backpacking”, ou seja, viajar de mochila com o mínimo necessário, também conhecido entre nós brasileiros como “mochilão”.

Embora não seja algo novo, o bikepacking tem ganhado muitos adeptos mundo afora.

Cavallari na viagem que deu origem ao livro “Transpatagônia, pumas não comem ciclistas” Foto: divulgação

No Brasil, um dos pioneiros da modalidade é o paulistano Guilherme Cavallari, escritor, aventureiro e autor dos famosos “Guias de Trilhas”, manuais de trekking, de mountain bike e de cicloturismo e também de livros que relatam suas experiências de viagens, como o “Transpatagônia, pumas não comem ciclistas” e “Highlands, por baixo do saiote escocês”.

“O bikepacking pode ser definido simplesmente como viajar e acampar de bicicleta. Mas com a evolução tecnológica não para, o bikepacking também evoluiu e hoje seria melhor definido como cicloturismo de aventura”, explica Cavallari.

De junho a outubro deste ano Cavallari vai pedalar na Mongólia, sozinho e totalmente autossuficiente, com uma mountain bike equipada para bikepacking. Serão 4 mil quilômetros cruzando desertos, vales e montanhas, sempre que possível longe do asfalto. “Vou contar com a população nômade para o reabastecimento, utilizar rotas normalmente percorridas por carros 4×4, cavalos e caravanas de camelos”, conta.

Bikepacking se diferencia do cicloturismo tradicional pela leveza e pouco volume de equipamento

Cicloturismo de aventura
O bikepacking se diferencia do cicloturismo tradicional – também chamado de bike touring – pela leveza e pouco volume de equipamento e também pela bicicleta, que deve ser capaz de encarar todo terreno. Mountain bikes e mais recentemente as bikes do tipo gravel são perfeitas para a modalidade.

Diferentemente do cicloturismo tradicional, em que a bagagem é transportada em alforges traseiros e/ou dianteiros, no bikepacking a bagagem é acomodada em bolsas que vão presas no quadro. Em geral utiliza-se uma bolsa de guidão grande, uma bolsa que se encaixa no interior do triângulo principal do quadro e uma bolsa gigante de selim, presa no canote. Alguns ciclistas ainda complementam com uma mochila de costas.

Uma das vantagens de se viajar desta forma é a possibilidade que o ciclista tem de se aventurar por caminhos mais selvagens. Atravessar riachos, subir encostas, percorrer trilhas não pedaláveis e saltar cercas de arame ficam muito mais fáceis quando se viaja com pouco peso e volume.

Outro diferencial importante em relação ao cicloturismo tradicional é a capacidade de autossuficiência. Em geral o bikepacker viaja com provisões para dois ou três dias. Leva também seu próprio material de camping, composto por equipamentos ultraleves e que permitem pernoitar e preparar a própria comida junto à natureza.

É o caso do gaúcho radicado em Santa Catarina, Matias Tartiere, que pedalou no Cânion Espraiado, em Urubici (SC), com equipamentos suficientes para dormir e se alimentar de forma autônoma. Foram cerca de 44km de pedalada e Tartiere usou uma Soul  Spry com relação 2×10 velocidades.

Adeptos do bikepacking precisam de uma bicicleta off road, que suporte qualquer terreno

Equipamentos
A escolha do equipamento correto é fundamental para o sucesso de qualquer viagem. Diferente do cicloturismo convencional em que muitos viajantes optam por bicicletas do tipo híbrido ou as do tipo “touring”, os adeptos do bikepacking precisam de uma bicicleta off road, que suporte qualquer terreno e que encare trilhas sem sofrer. As mountain bikes e os recentes modelos gravel são perfeitas para isto. É importante, porém, que as bicicletas sejam robustas e tecnologicamente descomplicadas. Bikes de competição com quadros de carbono, freios hidráulicos, câmbios eletrônicos e suspensões complicadas podem ser um problema em caso de pane mecânica em regiões remotas. Quanto menos eletrônica embarcada, melhor. Bikes com quadros de alumínio, cromo, titânio ou mesmo aço são perfeitas. É desejável que a bike tenha pelo menos dois suportes de caramanhola para o transporte de água. Alguns suportes acomodam garrafas de até 1,5 litro e são perfeitos para lugares com poucas fontes naturais.

No mercado nacional já existem várias marcas que oferecem bolsas de quadro, de guidão e de selim específicas para a atividade. A bolsa de guidão, por exemplo, pode ser improvisada a partir de um saco estanque. Igualmente, bolsas de quadro podem ser fabricadas artesanalmente em pequenas oficinas de reparo de couro e sapatarias. Também é desejável uma mochila que não passe dos 30 litros.

O material de camping deve ser o mais leve e compacto possível. Uma boa alternativa para a barracas pode ser o bivaque (uma espécie de saco de dormir protegido por um pequeno toldo) ou uma rede de descanso com uma cobertura. Dá para ter material de acampamento com menos de 2kg. O material de cozinha também deve ser superleve e compacto, com um pequeno fogareiro (ou espiriteira), panela e/ou caneca de alumínio ou titânio.

Também é necessário equipamento de iluminação, material de higiene pessoal e de primeiros-socorros, ferramentas para a bike, além do vestuário técnico para pedalar e roupas casuais. O ideal é separar e distribuir os itens pelas bolsas seguindo alguma lógica. Exemplo: na bolsa de guidão vai o material de acampar, na bolsa de selim vão as ferramentas e kit de reparos de pneus, na bolsa do quadro o material de cozinha e alimentos, e na mochila de costas as roupas e demais artigos pessoais.

Para quem quer saber mais e ingressar no universo do bikepacking, o próprio Guilherme Cavallari ministra cursos em sua pousada em Gonçalves (MG), na Serra da Mantiqueira. Os cursos são para pequenos grupos de até 8 pessoas e realizados nos feriados prolongados. As informações estão no site www.kalapalo.com.br/agenda

Viajar de bicicleta e acampar são maneiras divertidas e baratas de se conhecer o mundo

Bikepacking competitivo

Sempre tem aqueles que gostam de competir e no bikepacking não é diferente. Existem diversas provas no mundo dedicadas a este perfil de ciclista. São disputas no estilo ITT (Individual Time Trail), em que cada ciclista tem que percorrer um determinado trajeto, em geral grandes percursos de até 4 mil quilômetros, sozinho, sem ajuda externa, no menor tempo possível.

No percurso da Tuscany Trail, na Toscana, Itália Foto: Divulgação

As principais competições para adeptos do bikepacking no mundo:

AMÉRICAS
Inca Divide
– A prova realizada no mês de julho no Peru, percorre 1.800km em 12 dias e soma 31 mil metros de ascensão total. São apenas 50 vagas e no ano passado recebeu participantes de 11 países, incluindo brasileiros. Pode ser disputada em solo ou duplas (bikingman.com).

Iditarod – É a versão para bicicletas fat bike da famosa corrida de trenós puxados por cães no Alasca. O percurso de 1.600km acompanha uma antiga trilha da época da corrida do ouro. Tudo isto no inverno e com temperaturas de até 30º C negativos (www.iditarodtrailinvitational.com).

Tour Divide – Uma das mais tradicionais provas de bikepacking do mundo, com 4.418km de extensão e largada em Banff, no Canadá, e término em Antelope Wells, no estado do Novo México, nos EUA. O trajeto percorre as Montanhas Rochosas e acumula mais de 60 mil metros de subidas (http://tourdivide.org).

Arizona Trail (AZT) – O trajeto de 1.207km atravessa o Arizona quase todo por single track. Em um trecho do Grand Canyon os competidores têm que carregar a bike por 38km (http://topofusion.com/azt/race.php).

Colorado Trail Race – Similar à AZT, a trilha de 804km e 23 mil metros de ascensão cruza o estado norte-americano do Colorado de ponta a ponta (www.climbingdreams.net/ctr).

EUROPA
Bikepacking Trans Germany – A corrida de 1.647km começa em Basel, na Suíça. O roteiro segue pelo vale do Rio Reno até o Mar do Norte, perto da divisa com a Dinamarca (http://btg.voidpointer.de/de/index.html).

1000 Mile – A prova de 1.600km é disputada na República Tcheca (http://1000miles.tv/).

Transcontinental – A prova de 4 mil km é a mais longa da Europa, com largada em Geraardsbergen, na Bélgica, e término em Çanakkale, na Turquia. Não existe uma rota fixa a ser seguida e sim pontos obrigatórios de de checagem obrigatórios (www.transcontinental.cc).

Highland Trail 550 – O trajeto de quase 900km atravessa praticamente toda a região das Highlands, na Escócia, e passa pela Ben Nevis, a montanha mais alta da Grã-Bretanha (www.highlandtrail.net).

Rovaniemi 300 – No inverno da Finlândia, nas florestas da Lapônia, no extremo Norte da Europa, o ciclista pode optar por percursos de 300km, 150km ou 66km (www.rovaniemi150.com/rov300).

The Navad 1000 – Percorre as trilhas, montanhas, lagos e vilarejos no Sul da Suíça. São 1.000km de extensão com 31 mil metros de ascensão, desde Romanshorn até Montreux (www.navad1000.ch/Hallo).

Italy Divide – O percurso de 850km com 20 mil metros de subidas acumuladas vai de Torbole, às margens do Lago di Garda, até Roma. O trajeto passa por cidades como Bolonha, Florença, Viterbo e faz um tour por uma das regiões mais lindas da Itália (www.italydivide.it).

Tuscany Trail – A prova percorre uma das regiões mais lindas de toda a Europa. São 560km com 11 mil acumulados, a maior parte longe do asfalto (www.tuscanytrail.it/it).

OUTROS CONTINENTES
Monaro Cloudride
– Com início e chegada em Camberra, na Áustrália, a prova tem 1.000km de extensão e 18 mil metros de (www.cloudride1000.com).

Kiwi Brevet – A prova de 1.100km é disputada nas estradas de terra e trilhas da a Ilha Sul, na Nova Zelândia (kiwibrevet.blogspot.com).

Holyland MTB Challenge – A corrida de 1.400km é disputada em Israel e vai do Monte Hérmon, próximo à fronteira do Líbano, até Eilat, no Mar Vermelho. O percurso passa por lugares históricos e bíblicos como o Mar da Galileia, Monte Carmel, deserto do Negev, além de Tel Aviv e Jerusalém (holylandmtbchallenge.com).

The Japanese Odissey – A corrida começa na capital Tóquio e vai até Osaka por um ziguezague pelas montanhas e áreas rurais cobrindo quase todo o país em 14 dias (www.japanese-odyssey.com).