Exclusivo: entrevista com Vitor Zucco, que disputará o Mundial na Sub 23

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Exclusivo: entrevista com Vitor Zucco, que disputará o Mundial na Sub 23

Atual campeão brasileiro da Elite e da Sub 23, ciclista que hoje vive nos Estados Unidos fala sobre suas expectativas para a disputa, a rotina de treinos e suas experiências no pelotão

Vitor Zucco vai disputar a prova de estrada na categoria Sub 23 Foto: Fernando Sousa

Por Ana Nasquewitz 
Especial para o Bikemagazine, de Harrogate

Nesta terça-feira (24 de setembro) chuvosa em Harrogate, com direito a atrasos na largada do contrarrelógio da elite feminina e a algumas quedas, fizemos uma entrevista exclusiva com Vitor Zucco, atual campeão brasileiro de ciclismo de estrada na Elite e na sub-23. Vitor tem 21 anos, disputa seu primeiro mundial (ele correrá a prova de estrada na Sub 23, na sexta-feira) e falou sobre seu início no ciclismo, sua rotina de treinos, o que ele espera da prova e quais são seus planos para o futuro. Confira:

Como foi seu início no ciclismo? E quando surgiu a ideia de se mudar para os EUA?
Fui nadador até os meus 17 anos, e quando eu tinha 16 anos minha família decidiu pela nossa mudança para lá, por conta da natação.Quando parei de nadar fiquei um tempo pensando em qual caminho seguir, e como meu pai pedalava decidi pegar a bicicleta e começar a rodar.

Como é sua rotina nos EUA?
Corro por uma equipe sub-23 e lá eles têm uma regra: todos os corredores devem buscar alguma forma de ensino superior. Decidi me mudar para Boston, onde fica a equipe, para facilitar a logística das viagens, e meus pais voltaram para o Chile. Como o país é muito grande passamos muito tempo na van, viajando pelo país em busca das melhores competições. Este ano fizemos duas viagens para a Europa, algumas para o Canadá e várias dentro dos EUA.

Como são seus treinos? O que você faz durante a base e durante a temporada?
Nos meses de novembro e dezembro faço base e rodo de 700 a 800 km por semana, quase sempre. Você só consegue uma boa base fazendo essa distância, porque durante a temporada corremos muito, então esse volume diminui e entramos em algo mais específico. Como corro muito não é algo que precise de muita intensidade – durante a semana faço de 20 a 25 horas de treino. Durante a temporada faço bastante pliometria e alongamento, e fora de temporada trabalhamos bastante academia e treino um pouco mais, de 28 a 30 horas por semana. As competições são frequentes, especialmente na Europa – são cargas muito grandes. Na primeira vez foram 17 dias de viagem e 12 dias de competição, muitas provas clássicas, e na segunda vinda foram 20 dias de viagem e 12 dias de competição. Nesse volume de competições o trabalho de base faz muita diferença. O psicológico também é muito importante. No ano passado me falavam: “você não pode parar”. Você pode cair, pode acontecer qualquer coisa, mas você vai terminar a prova, não importa que você termine 20 minutos atrás ou esteja para ganhar. Porque uma vez que você começa a não terminar a prova, você entra nesse ciclo e sempre acha uma desculpa para não terminar a prova. E como um ciclista de formação (Junior, Sub 23), você tem que correr o máximo que pode, ganhar essa experiência, colocar o seu corpo em diferentes situações, porque nenhuma corrida é igual e em toda corrida que você faz você aprende uma coisa diferente. Essa é a maior diferença para os europeus, o atleta europeu Sub 23 corre 50 dias a mais por ano, que é uma coisa bastante significativa.

Vitor Zucco, o novo campeão brasileiro Elite e Sub 23 Foto: Divulgação

Como foi ganhar o campeonato brasileiro? Em que momento você percebeu que ganharia a prova?
Eu não sabia o que esperar porque era a minha primeira vez correndo no Brasil. Fui com a minha cabeça pra ganhar a elite, pra ganhar tudo. No momento em que se juntaram 6, 7 na frente, faltando 45, 50 km para o final, vi que só tinha mais um Sub e a minha ideia, quando eu arranquei, não era para eu ir sozinho. Eu pensei: eu arranco na subida, levo um grupo menor, com mais entendimento. Chegando em cima tinha uma galera gritando “vai que dá, vai que dá!”, olhei pra trás, devia ter uns 5 segundos mais ou menos de vantagem, logo depois tinha uma descida mais ou menos técnica. Coloquei a cabeça pra baixo, vi que dava pra abrir uma boa distância e foi o que eu fiz, e saindo na reta da linha de chegada abaixei a cabeça e dei tudo que tinha. Quando veio a moto do meu lado já estava com uns 30, 40 segundos de vantagem. Nessa hora você acredita em si mesmo e vai que vai, não pensei que ganharia até estarem faltando uns 2, 3 km para terminar a prova. No dia da prova tinha bastante vento, o que fez bastante diferença.

Quais diferenças você percebeu entre as competições internacionais que você disputa e a prova do campeonato brasileiro?
Acho que a prova do brasileiro foi super difícil e tive bastante sorte, porque os outros competidores não sabiam quem eu era. O ciclismo brasileiro não tem a exposição do ciclismo europeu, onde muitas vezes não é sobre ser mais forte, e sim o tipo de percurso. Não é que os ciclistas na Europa sejam mais fortes, mas falta a experiência de ter mais ciclistas em um nível mais alto, mais atletas lutando na frente, estradas menores para praticar o ciclismo. Acredito que muitos atletas sofrem quando vão para a Europa, tanto vindos do Brasil como dos Estados Unidos. Eu diria que ganhar uma corrida em qualquer lugar é difícil, mas aqui é mais difícil – lá é muito mais fácil alcançar um top 15, e aqui você tem de 30 a 40 corredores em um nível para ganhar a corrida, e todo mundo sabe disso. A disputa por estar na frente, com menos espaço nas estradas, é que dá um toque a mais para o ciclismo europeu.

Zucco na vitória solo no Brasileiro 2019 Foto: Dani Prandi/Bikemagazine

O que você tem a dizer sobre o ciclismo brasileiro?
O ciclismo começa pela formação de base e o Brasil não tem formação de base. Atletas como eu e o Vinicius (Vinicius Rangel, que vai disputar o Mundial na Junior) temos que trabalhar muito por sermos brasileiros, muitas vezes as portas não se fecham mas também não se abrem e muitas vezes você bate com a cara na porta. A gente quer entrar, tem esse sonho e só precisa dessa oportunidade, e é uma coisa que no Brasil não temos – você tem que sair. A melhor dica que me deram foi depois do meu primeiro mundial Junior. Eu tinha decidido ficar nos EUA e correr por uma equipe americana, e me disseram: se você quer ser ciclista você tem que ir para a Europa e sofrer – foi a melhor dica que me deram até hoje. Entrei em uma equipe belga, batalhei e dei tudo o que eu tinha. Você vai avançando, vai crescendo e portas vão se abrindo, mas estando sozinho, sendo brasileiro e não sendo de uma família de ciclismo é muito mais difícil conseguir essas oportunidades.

A relação com o Márcio May (que disputou três Jogos Olímpicos) te ajudou?
Sim, eu o conheço desde os meus 6 anos e ele foi uma pessoa com a qual eu sempre contei para tirar uma dúvida, e também quando precisei abrir alguma porta ele sempre foi a primeira pessoa a me ajudar.

O que você pensa sobre as novas tecnologias de treino, como medidor de potência, rolo smart indoor etc?
Eu utilizo medidor de potência há três anos e penso que o ciclismo não tem muitos segredos – você tem que sair pra rodar e sofrer. A frequência cardíaca não é a melhor linha para seguir. Medir a potência é um investimento a ser feito se você quer chegar um pouco mais longe, mas não essencial. Ter alguém com a experiência de quando é demais, quando trazer o volume mais para baixo, ter treinos mais focados, ajuda muito. Hoje olho meu treino e não vejo nada muito científico por trás dele. Mas acima de tudo o mais importante é ter confiança no que você está fazendo, ter confiança no seu técnico, e não sempre estar olhando para fora e ver o que os outros estão fazendo, porque não necessariamente o que eles fazem é o melhor para você.

Você se considera a nova geração do futuro brasileiro?
A única pressão que eu me coloco é a minha, comigo mesmo, dentro da prova. Não presto muita atenção nessas coisas e meu foco é como eu estou dentro da prova, tento não pensar nesses fatores. Nunca me achei um exemplo pra ninguém, nunca senti um peso sobre isso.

Falando sobre o mundial, o circuito favorece seu estilo? O que você espera da prova?
Eu sei que na minha prova os primeiros 100 quilômetros serão mais ou menos simples, é bastante plano, só uma estrada. Eu tenho isso de sempre querer estar atacando e arrancando, mas será um dia para estar um pouco mais calmo nas primeiras horas. A prova não está na minha zona de conforto, e foi algo que tive que fazer no brasileiro também – ficar ali, acalmar e aguardar até mais próximo do final. Quando chegarmos na primeira subida será muito difícil, embora ainda longe da chegada – penso que será um dos momentos críticos e devemos estar na frente porque depois da subida a descida não é logo em seguida, ficamos uns 10 km ali em cima, daí começa a pegar bastante ar e quem estiver atrás vai sofrer muito e pode começar a cortar. Entrando aqui no circuito de Harrogate será mais caótico e com mais ataques, porque estaremos dentro dos últimos 50 quilômetros, os atletas começarão a se movimentar mais. Na prova pode acontecer qualquer coisa, não tem um favorito, mas temos que ficar de olho na formação de grupos grandes, especialmente longe da chegada, não podemos deixar um grupo de 15 a 20 atletas saírem, mas temos que ter calma e entender que se saírem apenas cinco, devemos esperar que eles voltem e quando chegarmos perto da chegada, é a hora de se mexer um pouco mais.

Quais são seus objetivos para o futuro?
Pro Tour é um sonho que eu tenho, sei que ainda está um pouco distante e que tenho que trabalhar muito ainda, mas sei que não é inalcançável. Quero voltar para a Europa no ano que vem – não está fácil, mas estou batalhando para isso.  Atualmente muitos atletas têm managers, mas eu não tenho – tentei com alguns mas nenhum me transmitiu a confiança que eu gostaria, então hoje em dia sou apenas eu e os contatos que eu tenho, sempre com apoio do Márcio (May), do Murilo Fischer e do Antonio Silvestre, que tem me ajudado desde o começo.

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