Quando o cicloturismo se transforma em profissão

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Quando o cicloturismo se transforma em profissão

Conheça a trajetória de Carolina Ceravolo, que após uma cicloviagem pela América Central e do Sul, hoje trabalha pedalando em empresa de cicloturismo

Carolina na cicloviagem pela América Central e do Sul

Dani Prandi/Do Bikemagazine
Fotos de divulgação

Há cinco anos Carolina Ceravolo Alves de Oliveira acreditou que poderia levar a vida pedalando. Largou o emprego em uma grande empresa de advocacia em São Paulo porque queria viver da bicicleta e, hoje, aos 36 anos, é uma profissional do cicloturismo, contratada para acompanhar cicloviagens promovidas pela TDA Global Cycling, do Canadá. Ela acaba de voltar de um cicloturismo pela América Central e contou sua história ao Bikemagazine.

“Comecei a cursar Direito e Filosofia mas vi que gostava mais da vida outdoor. Desisti do emprego e meus colegas fizeram uma vaquinha e me deram uma bicicleta. Sempre pedalei e minha vontade era fazer uma viagem longa de bicicleta”, lembra. Sua primeira aventura foi uma cicloviagem de São Paulo a Ubatuba, no litoral paulista. “Na época não estava pronta, mas viajar de bike era uma vontade.Vi que era possível, só precisava ter paciência e gostar de pedalar. A bike que eu ganhei desmontou inteira, mas eu entendi que não precisaria estar muito equipada para fazer as viagens. ”

Depois, mudou-se para o México, fez curso de mergulho e se formou como guia de natueza. Enquanto isso, pedalava e planejava novas cicloviagens. “A ideia nunca saiu da minha cabeça, então, há dois anos, com as férias chegando, comecei a pesquisar para fazer uma cicloviagem pela China. Os planos não deram certo, precisava de mais dinheiro, e um amigo sugeriu: Por que você não vai até o Brasil?”

A bicicleta que pedalou durante quatro meses

Com a sorte a favor, ganhou de uns conhecidos uma bicicleta que havia sido montada para cicloturismo, mais equipamentos, como alforges, barraca e bolsa térmica e, com o incentivo do marido, caiu na estrada. “Fiz a viagem do México a Boa Vista em quatro meses. Decidi tudo em dois, três dias. Para a China eu tinha pesquisado muito, para o Brasil apenas olhei o mapa e tracei uma rota”, conta.

“Como não estava pedalando muito, no primeiro dia, depois de 90 quilômetros, quase tive uma desidratação. Tive que voltar porque os aros quebraram e fui no mecânico que tinha preparado a bike para consertar. Aproveitei para pegar uma camiseta do Brasil do meu marido porque todo mundo estava achando que eu era americana”, continua.

De volta à estrada, seguiu o rumo de Belize, depois atravessou a Guatemala. “Meu plano era cruzar Honduras pelo Pacífico e não passar em El Salvador, mas depois que vi no mapa que o percurso seria muito montanhoso, mudei de ideia. Passei por Belize em quatro dias, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, onde fiquei sete dias, e cheguei no Panamá.”

“No Panamá tive uma experiência bem ruim, foi quando sentei e chorei. Eles são bem grosseiros, não dão informação, não tem cultura de bike, começou a chover, caí tentando escapar de um carro no trânsito pesado. Durante a viagem, quando chegava o final da tarde, começava a procurar lugar para dormir, um lugar seguro para montar a barraca, geralmente no quintal da casa de alguém. Na Cidade do Panamá foi surreal, não consegui sair da cidade, fui parar na periferia e não achei nenhum lugar para acampar. Pedi ajuda na polícia e nos bombeiros, perguntei se poderia passar a noite ali, mas não permitiram. Encontrei um estacionamento e foi ali que fiquei. Naquela hora bateu a vontade de voltar pra casa, mas meu marido deu uma força, dizendo que era só um dia ruim.”

Resolveu, então, sair do Panamá o mais rápido possível e o jeito foi pegar um voo para Medellin, na Colômbia. “Renovei meu ânimo, os colombianos são da cultura da bike, há muitas ciclovias, fui muito bem recebida, acabei ficando 26 dias. Sempre tinha lugar pra dormir, me davam café, comida. Eu tinha dinheiro suficiente para a viagem, nunca pedi nada, mas sentia que eles gostavam de ajudar.”

Novos amigos pelo caminho

O próximo destino era a Venezuela e, com a crise política começando, a questão era saber se seria ou não perigoso demais passar por ali. “Pedi a Deus um sinal. Resolvi pedalar e, caso não me sentisse segura, iria de ônibus. Logo no primeiro dia parei para comer e um rapaz começou a conversar comigo. Daí apareceu uma moto com dois homens e um deles desceu com uma arma para me assaltar. Tentei argumentar, mas ele levou minha câmera, fone de ouvido e o fogãozinho. O rapaz que tinha parado para conversar tinha saído correndo e avisado a polícia. Quando a moto virou a esquina a polícia chegou e eles trocaram tiros. Nessa situação, o ladrão jogou minha câmera no chão, acho que para ficar com as mãos livres, e foi a única coisa que recuperei. Foi um sinal bem claro: não vale a pena pedalar na Venezuela.”

Mas sair da Venezuela e cruzar a fronteira do Brasil em Roraima não seria tão simples. “Não há ônibus regulares, levei oito dias para sair. Nos últimos cinco dias o dono de umas minas de ouro, que é brasileiro, me deixou ficar até eu conseguir carona. Cruzei finalmente a fronteira, minha ideia era seguir pedalando até Fortaleza (CE), mas desisti. Estava cansada, há quatro meses longe de casa, do meu marido. Resolvi encerrar ali”, continua.

A cicloturista em seu primeiro trabalho para empresa de cicloviagens

Depois da aventura, Carolina começou a procurar um novo trabalho. “Vi que queria continuar a pedalar todos os dias e me inscrevi em empresas que atuam com cicloturismo. Mandei meu currículo, e, baseado nessa viagem, uma delas me respondeu. Era a TDA, que faz cicloviagens do Canadá até a América do Sul. Eles me contrataram em março como assistente do líder para uma parte da viagem, na América Central, baseados na minha experiência. Encontrei o grupo na fronteira com o Arizona. É cicloturismo em grupo e a empresa cuida de toda a logística; alguns fazem o percurso inteiro, outros apenas alguns trechos.”

“O grupo que estava tinha em média umas 30 pessoas, a maioria canadenses, americanos, australianos, com níveis de preparação diferentes, muitos aposentados. Pedalávamos em média uns 100 km por dia, quem não aguentava tinha a opção de voltar para o hotel. A rotina é tomar café às 7h, sair e os participantes precisam estar de volta até 17h45. A gente se revezava para controlar o grupo, tinha um caminhão varredor para resgatar os retardatários, é tudo muito bem organizado.”

Depois da primeira experiência, Carolina já se prepara novas aventuras. “Estou planejando fazer uma nova cicloviagem sozinha, desta vez do Rio Grande do Sul até São Paulo.”

Com o grupo da pedalada com a empresa TDA Global Cycling

Carolina conta que o que mais ouviu durante sua trajetória como cicloturista foram questionamentos sobre ser mulher e o quão perigoso isso poderia ser viajando sozinha. “Fui muito questionada pelo fato de ser mulher e fazer essa viagem. Mas é preciso confiar em sua avaliação de risco, ver se aqui é perigoso, se ali não é, se posso confiar naquela pessoa ou não, mas isso é o que nós mulheres fazemos todo o tempo.”

“Avaliação de risco não é uma atividade de gênero, mas o fato de ser mulher faz a gente ficar mais teimosa, porque o tempo todo vai ter gente duvidando de sua capacidade, minha mãe, as pessoas que encontrava na rua, todo mundo me questionava, e o único jeito era ignorar. Se eu desse ouvidos para essas pessoas eu jamais teria feito essa viagem, realizado meu sonho, que é andar de bicicleta pelo mundo, jamais teria encontrado esse trabalho. Para conquistar meu sonho tive que confiar de que era capaz.”

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