Novo recorde: 10.160 km de Norte a Sul do Brasil em 50 dias

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Novo recorde: 10.160 km de Norte a Sul do Brasil em 50 dias

Arquiteto paulista Fernando Zogaib, de 42 anos, estabelece novo recorde no trajeto de 10.160 quilômetros e termina travessia em 50 dias, sete dias a menos que a marca anterior

Fernando Zogaib completou trajeto de 10.160 km em 50 dias

Marcos Adami/Do Bikemagazine
Fotos: arquivo pessoal

O paulista Fernando Zogaib estabeleceu um novo recorde da travessia Norte-Sul do Brasil. O arquiteto de 42 anos que vive em Valinhos (SP) completou o trajeto de 10.160 quilômetros entre Uiramutã (RR) e Chuí (RS) em 50 dias e quebrou o recorde anterior de 57 dias estabelecido em 2015 pelo paulistano Marcelo Fiorentino Soares, o “Mixirica.

“O Mixirica foi super fair play comigo. Liguei para ele para tirar dúvidas sobre o percurso e ele foi muito solícito. Acho muito bonito esta atitude entre nós atletas”, contou Zogaib, que começou a viagem no dia 25 de dezembro de 2019 e terminou a façanha no dia 12 de fevereiro. “Mixirica pedalou em média 182km por dia, eu fiz um média diária de 203km”, disse em entrevista ao Bikemagazine. O próximo passo é homologar o feito junto ao Ranking Brasil.

A bike usada na travessia Norte-Sul do Brasil levou 7 quilos de bagagem

Habituado a competições, longas viagens e treinos de até 150km por dia, a ideia da cicloviagem começou quando Zogaib soube do recorde de Mixirica. “Eu sempre pedalei. Sou competidor de mountain bike e sempre fui cicloturista. Desde os 16 anos eu viajo de bicicleta. Comecei fazendo incursões por Minas Gerais , fiz a Estrada Real duas vezes e já fui para Fortaleza (CE) pedalando pelas praias. Como estava competindo e tinha um bom volume de treinos, vi que era a hora. Fechei o escritório e fui para Roraima”, conta o ciclista que pedalou com recursos próprios, sem nenhum patrocínio.

PERRENGUES E DORES
Zogaib foi de avião até Boa Vista (RR) e de lá viajou de ônibus 320km por 10 horas, até a fronteira com a Guiana.
No dia de Natal, a viagem começou e com ela os primeiros perrengues. Antes mesmo de cumprir os 150km em estrada de terra no meio da reserva Raposa Serra do Sol, a gancheira do câmbio quebrou e Zogaib fez improviso e não pode mais usar a engrenagem de 32 dentes no restante da viagem. O jeito foi pedalar mais de 10 mil quilômetros com o máximo de 28 dentes.

Com 1.500km de estrada, durante um embarque no Rio Amazonas, o câmbio traseiro (um Ultegra Di2 de 11 velocidades) se quebrou após a bike ter sido jogada para o interior do barco. A solução foi comprar um câmbio traseiro SLX de mountain bike e um trocador Rapid Fire e fazer a adaptação em Santarém (PA). “O câmbio eletrônico dianteiro estava normal e segui a viagem assim, com um sistema híbrido”, lembra com bom humor o ciclista.

O trecho no Norte foi de muita dificuldade física, com muito sol, calor de 40 graus, vento contra e cruzado e altimetria desafiadora.

Zogaib na cicloviagem: superação

O maior perigo, segundo Zogaib, são as grandes cidades. “Em Belém (PA) achei que fosse morrer, no estado do Rio de Janeiro eu quase morri. É horrível pedalar nas estradas da região dos Lagos. É terrível andar nos acostamentos com buracos e crateras, ainda mais sob chuva. Considero que o pior da viagem foram os trechos da BR-101, 70km antes de Aracaju (SE), que deu vontade até de chorar. O jeito era rezar e pedir proteção divina”, explica.

Além dos perigos da estrada, no primeiro mês o atleta teve que conviver com dores no corpo todo. “Senti muitas dores. Nos joelhos, tendões, pernas, costas, na lombar. Senti muita dor e sofrimento. Eu passava o dia pedalando e sonhando em comprar um saco de gelo à noite. Depois de um mês na estrada, as dores sumiram e o corpo se adaptou por completo. Dá para ver isto na minha média diária pelo Strava. Quando as dores cessaram, aí minha viagem começou de verdade e ficou legal. As últimas semanas foram uma delícia. Por pouco não estico minha viagem até Montevidéu”.

A BMC Team Machine SLR 02, ano 2016

“A bike foi um tanque de guerra.  Foi divertido e inacreditável o que ela aguentou”

Uma das muitas travessias de barco

EQUIPAMENTO
Depois de pesquisar sobre o roteiro, Zogaib percebeu que 92% de todo o trajeto seria em asfalto e decidiu viajar com a bike de estrada que tinha em casa e que já havia pedalado 36 mil quilômetros. A bike é uma clássica estradeira e, a princípio, nada apropriada para a aventura que começou em estradas de terra no interior da Amazônia.

A BMC Team Machine SLR 02, ano 2016, com quadro de carbono no tamanho 48cm e câmbio eletrônico Shimano Ultegra Di2 de 11 velocidades surpreendeu o ciclista pela robustez. “A bike foi um tanque de guerra. Peguei buracos, pulei valetas, puxei bobs. Foi divertido e inacreditável o que ela aguentou”, conta.

As alterações feitas por Zogaib foram a instalação de um pedivela Shimano Ultegra 6800 (coroas 53×39), cassete 11×32 (que virou 11×28 após a quebra da gancheira), corrente nova, rodas Shimano RS11, pneus Continental GatorSkin de 25mm, bagageiro traseiro (fixado no canote) e bolsa dianteira fixada no guidão. Em Guaecá, no litoral Norte de São Paulo, o bagageiro traseiro foi removido e prosseguiu até Chuí só com o bagageiro dianteiro.

A bagagem pesava um total de 7kg e basicamente se resumia a duas trocas de roupas e algumas ferramentas. Dois bretelles, duas camisas, dois pares de meias e um par de manguitos, além de um canivete multiferramentas, uma chave de raios, um powerlink, quatro raios de reserva, 60ml de lubrificante (que durou a viagem toda!), além de duas bombas, quatro câmaras de ar e material para remendo.

Zogaib trocou o pneu traseiro em Fortaleza e o dianteiro durou a viagem toda, com apenas três furos na viagem. Foram 23 furos no total.

“Com 4.800km de viagem, passando por Fortaleza, eu comecei a ter vários furos seguidos na traseira. Furou cinco vezes seguidas, então troquei o pneu traseiro, mas não resolveu, pois as estradas da região têm muita limalha de pneus que provocam furos”.

Em Aracaju (SE) a bike passou por uma manutenção na relação e nos rolamentos de rodas, movimento central e direção. “Conhecidos que me acompanhavam pelo Strava me ofereceram ajuda e substituí a coroa maior e a corrente”.

Pausa em um dos muitos lugares do caminho

AÇAÍ E COMIDA GRÁTIS
Zogaib se hospedou em pequenas pousadas e hotéis e fazia as refeições nos restaurantes de beira de estrada.

“Ganhei muito almoço, pois muita gente se oferecia para pagar. Ganhei também água, frutas e acho que tomei açaí para a minha vida inteira. O bom e puro açaí da Amazônia”. Mesmo assim perdeu dez quilos durante a viagem.
A rotina na estrada era levantar cedo e sair para a jornada por volta das 7h30 todos os dias.

“Um dos complicadores era o café da manhã, pois muitas vezes começava a ser servido um pouco tarde e não havia onde comprar suprimentos para o dia. Os dias eram longos e muito quentes. Teve dias de pedalar 280km, então para o dia render, o macete era fazer a refeição o mais rápido possível.”

A preparação física ficou por conta de longos treinos, em torno de 1.400 a 2 mil quilômetros por mês, volume habitual do ciclista. “Não treinei especificamente para a viagem, mas me preocupei em estar bem, já que iria pedalar por semana a distância que pedalava por mês”, conta.

A chegada em Chuí, no extremo Sul do Brasil no dia 12 de fevereiro

Agora Zogaib tem outros objetivos e já pensa na Race Across America e outros desafios. “A Race Across America é um sonho de infância e agora está na mira. Só preciso de um apoiador. Vi que agora levo jeito para a coisa e quero desafios ultradistance”, conta.

Trajeto da cicloviagem

Confira mais detalhes e fotos nos perfis
www.strava.com/athletes/919005
www.instagram.com/fzogaib/?hl=pt-br