Mountain bike elétrica: esforço do ciclista ou da máquina?

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Mountain bike elétrica: esforço do ciclista ou da máquina?

Para manter o fator humano presente nas corridas de e-mountain bike, as regras são claras: não é possível recarregar nem trocar a bateria

Foto: Pixabay

Fotos de divulgação

O ano de 2020 viu nascer a primeira Copa do Mundo de e-mountain bike Cross Country e também a primeira competição de e-MTB do Brasil. Dando a largada no principado de Mônaco, em março, a competição mundial que alia a habilidade dos ciclistas com a tecnologia dos motores elétricos de suas bicicletas acabou tendo suas etapas seguintes canceladas por causa da pandemia, mas foi o suficiente para fazer história e lançar o debate: corrida e-MTB é para valer?

A World E-Bike Series, entidade que desde 2019 organiza corridas de bicicletas elétricas pela Europa e que organizou a Copa do Mundo 2020, acredita que sim. Tanto que investiu em um circuito que deveria durar o ano todo: depois de iniciar em Mônaco (com vitórias de Jérôme Gilloux, do E-Team Moustache, e de Nathalie Schneitter, do Trek), a competição deveria partir para etapas na Suíça, Itália e encerrar na Espanha. O ciclista francês acabou terminando as seis voltas do circuito da primeira etapa em um tempo de 51 minutos e 39 segundos.

O debate sobre o uso de novas tecnologias no esporte não tem nada de novo. O caso mais célebre é o do árbitro assistente de vídeo (VAR, na sigla em inglês), que permite verificar as decisões do juiz de futebol usando diferentes câmeras – e que desperta paixão e ódio entre os torcedores. Mas a discussão é antiga e remonta aos anos 50, quando pesquisadores americanos desenvolveram os primeiros programas de computador inteligentes o suficiente para jogar damas – culminando com a vitória de um computador sobre uma campeã de damas, Marion Tinsley, em 1994.

Regras diferentes
Para manter o fator humano presente nas corridas de e-mountain bike, as regras são claras: não é possível recarregar nem trocar a bateria. A regra acaba fazendo com que os competidores tenham que se esforçar não apenas fisicamente, mas também elaborar uma estratégia para o uso da bateria no circuito, mais ou menos como fazem os pilotos de Fórmula 1 com seus pneus e pit-stops.

A França, que tem o seu próprio campeonato nacional de e-Mountain Bike, conseguiu inclusive atrair nomes consagrados da modalidade sem motor, como Julien Absalon ou Miguel Martinez, dois campeões olímpicos de Cross Country. Absalon, que foi o primeiro campeão na modalidade elétrica, em 2018, explicou com toda franqueza à revista francesa L’Express por que resolveu entrar na competição: “Mesmo que eu não tenha mais objetivos em termos de performance, eu continuo a me divertir muito com qualquer tipo de bicicleta, por isso também participo de qualquer competição e-bike. É uma nova maneira de praticar. A gente faz o mesmo esforço, mas acaba indo mais longe, descobre novos horizontes, e enfrenta mais desníveis em um mesmo intervalo de tempo”. 

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Mas apesar de começar a atrair o interesse de grandes atletas e também de um público crescente, o e-MTB ainda pena para conseguir suporte financeiro. Enquanto o primeiro campeonato francês, realizado em 2018, atraiu 60 corredores, a edição de 2019 teve apenas 25. Sinal de que ainda há um longo caminho a percorrer para convencer todos os fãs de ciclismo de que a ajuda dos motores é bem-vinda no esporte.

Marcas começam a se interessar
Algumas marcas começam a se aproximar: Absalon é patrocinado pelos motores Bosch e a fabricante de mountain bikes Moustasche. Mas nada disso ainda torna a modalidade viável financeiramente. O dinheiro não deverá ser um entrave para a evolução do esporte, segundo Éric Jacoté, vice-presidente de mountain bikes da Federação Francesa, em entrevista bem-humorada à Agência France Press: “Não temos nenhum problema financeiro: já é difícil pagar o nosso circuito normal, não pretendemos fazer dinheiro com o circuito elétrico”.

O Brasil também teve sua primeira prova de e-mountain bike em 2020, durante o XCO Series Brasil Ride, que ocorreu em março, em Amparo (SP), com bicicletas Specialized, patrocinadora do evento. Com categorias masculina e feminina a partir dos 16 anos, a competição brasileira também teve regras para garantir o esforço humano: os motores foram limitados a 250 watts e a assistência ao motor foi de no máximo 25km/h. Os pilotos também não puderam recarregar a bateria durante a prova.