Testamos o u2e, o medidor de potência nacional

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Testamos o u2e, o medidor de potência nacional

Desenvolvido e fabricado no Brasil, o u2e tem preço atrativo e realiza leituras de potência consistentes e confiáveis ao longo dos treinos

Do Bikemagazine
Texto de Gabriel Vargas
Fotos e artes de Gabriel Vargas

O que é: medidor de potência unilateral instalado no braço do pedivela esquerdo para estrada ou MTB, com bateria interna recarregável e compatível com ANT+ e Bluetooth LE.

Vantagens: menor custo do mercado; boa qualidade de fabricação; consistência e repetibilidade dos dados ao longo do tempo; produto nacional; garantia de 1 ano; compatível com bikes de estrada e também mountain bikes.

Desvantagens: necessário enviar o braço do pedivela para instalação; existe somente na versão unilateral; potência ao pedalar em pé um pouco fora do erro padrão; app para atualizações e configurações ainda não foi lançado.

Detalhe do medidor de potência 

Anos atrás, medidores de potência eram muito caros, existiam poucos fabricantes e eram um acessório difícil de se ver por aí. No final dos anos 2000 e início dos anos 2010, poderíamos encontrar no mercado apenas alguns poucos modelos de pedivela, cubo e talvez pedais. Atualmente, os medidores de potência continuam caros, mas se tornaram bem mais comuns e as opções de fabricantes são amplas.

Medidores de potência servem para mensurar com precisão e de maneira direta o trabalho que o ciclista está realizando. Enquanto a frequência cardíaca representa a resposta do corpo ao esforço e a velocidade é altamente influenciada por fatores como terreno, piso, vento, etc o medidor de potência sempre sabe exatamente o quanto, quando e como o esforço está sendo produzido e aplicado, independentemente de influências externas. É muito útil para avaliar com profundidade a performance em treinos e provas e para dar referências sólidas para o treinamento.

Quem acompanha esse universo certamente irá se surpreender com a notícia: temos um medidor de potência nacional, desenvolvido no Brasil e fabricado em Campinas, no interior paulista. E como veremos adiante, tivemos a oportunidade de testar uma unidade e a avaliação é bastante positiva. O preço na data da publicação é R$ 2.200, instalado em um braço de pedivela que o comprador já possua. Em uma pesquisa rápida, vemos que este é aproximadamente metade do custo de outras opções consideradas mais acessíveis no mercado.

O u2e – pode ser pronunciado tanto “u-dois-ê” como “you-square” – é fruto do trabalho dedicado e cuidadoso de Hermano Guimarães, engenheiro formado pela Unicamp e que trouxe a experiência de quase 18 anos trabalhando  com sensores eletrônicos para testes e softwares de captura de dados. Em 2018, insatisfeito com uma unidade do medidor Stages, Hermano começou a cogitar como seria produzir seu próprio medidor de potência. Após muita pesquisa e trabalho nas horas vagas, seu primeiro protótipo funcional foi à estrada em março de 2020, e começou a ser comercializado um ano mais tarde.

Produto nacional
Segundo Hermano, “a ideia sempre foi nacionalizar ao máximo, e tornar acessível”. Em visita ao seu laboratório de desenvolvimento, o engenheiro explicou que os componentes eletrônicos são importados separadamente, e em seguida a placa de circuito é montada no Brasil, onde também é feita carcaça de plástico que reveste o componente, impressa em 3D. A placa poderia chegar ao Brasil já montada na China, mas isso elevaria os custos e reduziria o grau de nacionalidade do produto, que certamente é um diferencial do u2e.

Uma grande vantagem de ter um medidor de potência nacional é o suporte e garantia muito mais ágeis em relação aos produtos importados, ainda mais em um componente que carrega eletrônica e exige uma calibração cuidadosa que só pode ser realizada na fábrica. Essa vantagem é algo que muitos ciclistas brasileiros já experimentaram com o rolo smart Cyclotronics, fabricado no Paraná, e que permite manutenção com agilidade e suporte local.

Características
O u2e é um medidor de potência acoplado ao braço esquerdo do pedivela – exatamente como nas versões unilaterais de Stages, 4iiii, Specialized (também fabricados pela 4iiii), Pioneer, Shimano, entre outros. No caso do u2e há somente a opção unilateral disponível, por enquanto.

Hermano nos explicou que um dos diferenciais do u2e é o uso de um sensor giroscópico fabricado pela Bosch para detectar movimento e cadência. Além do u2e, o excelente medidor italiano Favero Assioma é outro que também utiliza esse tipo de sensor. Outros medidores utilizam acelerômetros ou até mesmo sensores magnéticos com ímãs no quadro.

Os giroscópios permitem uma aferição mais precisa e confiável dos movimentos, mas consomem mais energia. Por esse motivo, a bateria do u2e (e também do Favero Assioma) duram aproximadamente 50 horas, enquanto outros medidores duram o dobro ou até mais. A menor autonomia da bateria também é explicada pela maior taxa de atualização na leitura dos dados, o que contribui muito para a qualidade da aferição da potência e sua confiabilidade, mas exige maior trabalho dos componentes eletrônicos e consumo de bateria. Uma troca muito bem-vinda, porém, já que as 50 horas entre cargas são mais do que suficientes para o dia a dia dos treinos.

Além de medir o movimento, outra etapa fundamental no funcionamento do medidor de potência é a deformação da peça – no caso o braço do pedivela. Para alcançar a precisão necessária, Hermano utiliza quatro strain-gauges (componentes que “sentem” mínimas deformações em uma superfície) meticulosamente aderidos ao pedivela. Esses dados de deformação são captados pelos componentes eletrônicos e, em seguida, são interpretados pelo algoritmo interno do medidor.

O algoritmo – parte de um software interno que lida com os dados e converte em algo útil a ser enviado para nosso GPS – também é fruto do olhar atencioso de Hermano. Segundo o engenheiro, o algoritmo é uma peça-chave para alcançar um produto confiável, com aferições consistentes de potência independente das condições de uso e temperatura.

O medidor de potência u2e possui compensação automática de temperatura, proteção contra água IPX67, bateria interna recarregável de origem alemã da marca Varta e carregamento via conector magnético (incluso). A carga da bateria em % é exibida na tela do GPS, no momento da calibração (zero-offset).

O LED do u2e apaga-se ao atingir carga total, quando conectado ao carregador magnético. Observe o pedal Powertap P1, também utilizado como referência na avaliação

Preço e instalação
A escassez global de componentes para ciclismo tem refletido diretamente na maneira com que o u2e é vendido. O processo padrão passa pelo envio do braço do pedivela do cliente para Campinas (SP), onde o medidor de potência é instalado em um prazo de aproximadamente 7 dias, configurado e calibrado individualmente. Em seguida, a peça é despachada de volta ao comprador.

Hermano nos explicou que o ideal seria obter mais peças novas para ter medidores de potência para pronta-entrega, mas tem sido quase impossível encontrar os braços de pedivela entre importadores e distribuidores, pelo menos por enquanto.

O medidor pode ser instalado em pedivelas para bikes de estrada e MTB, mas é necessário verificar a compatibilidade – nem todos os pedivelas aceitam o sensor de potência. O preço atual é de R$ 2.200,00, valor que pode ser parcelado em até 10 vezes.

Avaliação – método
Durante os testes, utilizamos o u2e instalado em um braço de pedivela Shimano 105 R-7000 simultaneamente com outros dois medidores de potência: primeiro, com um pedal PowerTap P1 (bilateral, mas corrigido de acordo com o equilíbrio esquerda/direita); em seguida, com um pedal Favero Assioma Uno (unilateral). Ambos os medidores utilizados como referência são bastante reconhecidos no mercado e bem avaliados.

Os dados dos medidores de potência foram registrados em um Garmin Edge 520 e um Bryton Rider 320. Ambas unidades GPS foram validadas anteriormente registrando dados de um mesmo medidor de potência, resultando sempre em valores absolutamente idênticos para potência.

Os medidores foram usados simultaneamente durante quatro semanas, totalizando aproximadamente 35 horas e mais de 900 quilômetros, incluindo diversidade de horários de treinos, temperaturas, níveis de umidade do ar, chuva leve, diferentes esforços e ritmos de treino, e também diferentes terrenos e superfícies (desde asfalto bom a estradas muito esburacadas e alguns trechos de terra). Todos os medidores eram calibrados no GPS (zero-offset) antes de cada treino. Não foram realizados testes no rolo.

u2e em teste comparativo junto ao pedal Favero Assioma

Avaliação – impressões durante o uso e análise dos dados

u2e vs Powertap P1
Os primeiros treinos foram feitos utilizando simultaneamente o u2e com o Powertap P1. Como o P1 é bilateral, a diferença de potência entre as pernas foi levada em consideração na avaliação (ver mais no quadro ao final do texto), corrigindo os dados de acordo com a contribuição da perna esquerda para a potência total. A proximidade entre os valores de potência ao pedalar sentado, em qualquer faixa de potência ou cadência é extremamente satisfatória. Em trechos contínuos de pedalada sentado, a diferença entre eles ficou abaixo de 0,5%. Como exemplo, observe abaixo o recorte de um trecho de subida leve:

Curiosamente, foram notadas discrepâncias variadas ao pedalar em pé com uma movimentação mais solta e fluida, mobilizando mais os tornozelos. Ao pedalar em pé com uma postura mais travada, sem flexionar tanto os tornozelos, a discrepância aparentemente se torna um pouco menor, embora ainda exista. É bastante conhecido que os pedais Powertap P1 tendem a superestimar a potência em algumas situações, como no momento da troca de marchas ou na transição da pedalada sentada para em pé. Inclusive, é aceitável dizer que o P1 mede “a mais” ao pedalar em pé continuamente.

Para tirar a prova, precisaríamos de um terceiro medidor de potência que pudesse ser utilizado junto com o u2e. Para isso, utilizamos um pedal Favero Assioma Uno no lugar do P1.

u2e vs Favero Assioma Uno
O Assioma é reconhecido como uma das melhores opções em medidores de potência atualmente, por sua confiabilidade, precisão e versatilidade. Novamente, o u2e e o Favero também mostraram dados bastante próximos – quase idênticos – ao pedalar sentado, assim como ocorreu com o Powertap P1.

Como era esperado, após tal proximidade na leitura entre o u2e e o Assioma, a potência média final dos treinos sempre foi muito próxima, adequadamente dentro da faixa de erro esperada entre medidores de potência de qualidade consolidados no mercado. Como exemplo, veja os dados do último dia de avaliação:

Um fator extremamente favorável ao u2e é a consistência da aferição da potência ao longo do tempo, seja ao longo do treino ou entre os treinos. Explico: se um ciclista está aplicando 200W, é esperado que um medidor de potência tenha uma faixa de erro, normalmente até 2%. Isso significa que, para esses 200W “reais”, o medidor irá aferir algo entre 196 a 204w. Por outro lado, é altamente desejável que o medidor tenha boa repetibilidade em suas leituras. Mesmo que ele meça, digamos, 204w ao aplicar os “reais” 200W, o ideal é que ele mostre 204W no começo do treino, 204W no final do treino, 204W amanhã, 204W com calor ou com chuva, 204W em treino ou prova. Ainda assim, existe uma outra margem de erro para esse fator de consistência, que idealmente é mínima. A partir dos dados, fica claro que o u2e é bastante confiável em suas leituras ao longo de um treino.

Pelo que notamos, o u2e também tem excelente repetibilidade das aferições ao longo dos dias e diferentes treinos, mesmo com mudanças de temperatura e em diversos cenários de terreno e esforço. Ponto extremamente positivo para o medidor nacional. Algo que não pudemos avaliar é a repetibilidade entre diferentes unidades do u2e – ou seja, o quão consistente são as leituras entre duas bikes diferentes, por exemplo. Hermano explicou que este é um aspecto em que o u2e recebeu bastante atenção e a fabricação quase artesanal permite um bom nível de controle sobre as unidades. Isso é um ótimo chamariz para quem pretende ter medidores de potência em múltiplas bikes.

O próximo passo foi reproduzir, com o Favero Assioma, as mesmas condições de pedalada em pé em subida que resultaram discrepâncias entre as potências no Powertap P1 e no u2e. O experimento foi realizado em diversos momentos. Como exemplo, temos um trecho de pedalada em pé com 1 minuto e 42 segundos de duração (todo o trecho visto na imagem abaixo) a 244W no Favero Assioma e 238W no u2e (potência média), uma diferença de aproximadamente 2,6%. Examinando mais detalhadamente, vemos que os primeiros 54 segundos do trecho foram idênticos, ambos aferindo 226W e cadência média 60 rpm. Já nos 48 segundos finais, o Assioma mediu 264W, enquanto o u2e mostrou 252W, 4,75% a menos. Nesse setor, a cadência média foi novamente idêntica, a 67 rpm.

Essas diferenças ocorrem pois a pedalada em pé envolve uma dinâmica de aplicação de força no pedal que dificulta a vida dos sensores de potência instalados no braço de pedivela, devido à torção imprevisível que pode ocorrer nesse tipo de componente. A variação da diferença entre 0 a quase 5% é explicada por um fator de correção existente no algoritmo do medidor de potência, definido após testes com diferentes ciclistas, de diferentes pesos e perfis de performance, além de experimentadas diferentes bikes. Embora o impacto para as médias finais do treino sejam muito pequenas, Hermano explicou que essas nuances podem ser – e serão – aperfeiçoadas em atualizações do firmware do u2e, à medida em que mais e mais testes e comparativos forem realizados.

De fato, em um exercício de metanálise, a diferença entre o Powertap P1 e o Favero Assioma na pedalada em pé é maior do que a diferença entre o u2e e o Assioma. Infelizmente, não tivemos acesso a outros medidores de potência embarcados na bike que poderiam ser usados simultaneamente (sendo pedivela Shimano, teoricamente, somente o cubo Powertap restaria como alternativa). Nem tivemos a oportunidade de colocar o Favero Assioma ou o Powertap P1 junto a outros medidores de braço, como o Stages ou o 4iiii, para traçar um perfil do erro entre os diversos sensores em diversos cenários.

Os testes foram encerrados com uma sólida sensação de satisfação com o produto. Como avaliador para a mídia especializada e aficionado por tecnologias do ciclismo e do treinamento, sei que uma relação linear e perfeita entre medidores de potência é ilusão. As margens de erro (ou precisão, como divulgadas pelos fabricantes) fazem referência a uma média geral, mas certamente as diferentes posições, níveis de potência, posição e tipo do medidor significam diferentes faixas de erro em diferentes momentos. Como consumidor, entendo que o custo-benefício e os outros pontos positivos do u2e diluem fortemente os 2,5% de diferença na média de potência na pedalada em pé na comparação com o Favero. Como treinador e atleta, preciso observar, por exemplo, um teste de performance em subida caso o atleta opte por pedalar um pouco mais ou pouco menos em pé e como isso afetaria uma comparação entre testes. Obviamente isso varia individualmente – alguns pedalam muito em pé, outros quase nunca – mas após a “revelação” da inconsistência nas leituras do meu velho Powertap P1 (que acontece até quando mudo de marcha), não acredito que isso seja fator para preocupação com o u2e.

Considerações finais
Ao fim da avaliação, ficou muito claro que o u2e é uma ótima opção para quem procura um medidor de potência com níveis de confiabilidade mais que suficientes para levar o treinamento a sério. O que é mais importante: treino após treino, as leituras de potência estavam alinhadas em significativa proximidade ao Favero Assioma, que é uma das melhores opções em termos de medidores de potência de pedal, e ao PowerTap P1 (salvo pelo problema da leitura ao pedalar em pé, mas que se mostrou mais grave no P1 do que no u2e, se utilizarmos o Assioma como referência absoluta). O algoritmo nunca permitiu erros de leitura ou picos de potência, e a usabilidade (especialmente em termos de duração e meio de recarga da bateria) é muito satisfatória. Apenas gostaria que o cabo do carregador fosse mais comprido.

Do lado positivo, além do principal, que são os dados confiáveis, temos também a vantagem do preço bem menor em comparação às outras opções no mercado, inclusive para medidores do mesmo tipo. Em rápida pesquisa, vemos que um u2e custa mil Reais a menos que um Stages, por exemplo. O fato de ser equipamento com tal nível de tecnologia e qualidade fabricado no Brasil também é um atrativo não só pelo prestígio, mas também pela garantia de 1 ano e pela proximidade em caso de suporte ou necessidade de manutenção.

Por outro lado, interessados em um medidor de potência u2e terão que passar pelo prazo e processo da instalação (lojas parceiras podem ter braços de pedivela sobressalentes, sob consulta). Além disso, há apenas a opção unilateral (veja mais abaixo). A inexistência de um app próprio para calibração, configurações e atualizações não chega a ser um problema, mas fomos informados de que há um aplicativo em desenvolvimento.

Sobre o uso de medidor de potência unilateral:
Para reduzir preços e viabilizar compatibilidade, muitos medidores de potência são oferecidos na versão unilateral (como o Vector 3s, Favero Assioma Uno, Specialized Power Crank, etc) ou só existem na versão unilateral (4iii clássico, versões anteriores do Stages etc).

Em um medidor de potência unilateral, somente a força de uma das pernas é aferida – geralmente a esquerda – e o resultado é duplicado, resultando na potência total. Medidores bilaterais somam a potência de ambas pernas para chegar ao total.

Algumas pessoas possuem grande discrepância de força entre as pernas, que pode ser linear ao longo das diversas intensidades, o que é raro, ou ter o desequilíbrio mais aparente somente em baixas ou altas intensidades, o que é mais comum. Nesse caso, a potência pode ficar ligeiramente superestimada ou subestimada em relação a um medidor bilateral em alguns casos.

Se você está adquirindo seu primeiro medidor de potência ou já usa um medidor unilateral, não se preocupe com esse fator. Se você já possui um medidor bilateral e passará a usar um unilateral, verifique como ocorre a diferença do equilíbrio entre esquerda e direita e procure entender como – e se – isso afetará seus dados de potência.

Para saber mais, acesse http://u2e.com.br/