Entrevista: Fabio Takayanagi, o pai do Shimano Fest

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Entrevista: Fabio Takayanagi, o pai do Shimano Fest

Presidente da Shimano para a América Latina revela preocupação com o avanço da concorrência no mountain bike

Fabio Takayanagi – Foto de Eduardo Rodrigues

Marcos Adami / Do Bikemagazine
Foto de divulgação

Para muitos pode ser surpresa o fato de um brasileiro ser um dos principais executivos da Shimano mundial. Fabio Takayanagi está fora do Brasil há 16 anos e pede desculpas pelo português enferrujado. “Cheguei hoje do Japão, às 4h40 da madrugada.” Em vez de cansaço, Fabio trazia um sincero sorriso de quem reencontra um filho que não via há dois anos por conta da pandemia. Fabio é o pai do Shimano Fest, que celebra 12 anos de vida neste fim de semana.

Fabio Takayanagi, de 54 anos, é nascido em São Paulo e criado no Japão. Foi ali que ingressou na empresa e em 2007 iniciou as operações na América Latina pelo Brasil. Na realidade o português do executivo que comanda as operações na América Latina é perfeito e sem sotaque algum. O brasileiro Takayanagi trabalhou em várias países e foi diretor da Shimano Shangai, na China.

Todos os anos ele visita o querido filho Shimano Fest. O evento criado cresceu com mais vigor depois que se aproximou mais do público no Memorial da América Latina.

O festival nasceu a partir de uma corrida de short track, nos primórdios do XCC no Brasil. A primeira edição teve foco na competição e teve público de 1.200 pessoas.

Público na 12ª edição do Shimano Fest Foto: Cesar Delong

O filho de Takayanagi cresceu rapidamente depois da chegada de profissionais da comunicação e da aproximação do grande público. Enquanto feiras semelhantes cobram R$ 50 só para estacionar fora a facada do ingresso, o festival sempre foi grátis e procurou facilitar o acesso de ciclistas. O camisa arco-íris Henrique Avancini já correu ali. Marcio Ravelli faz a pista e organiza a prova com os principais nomes do Brasil. Na feira, ciclistas de renome circulam pelo corredor.

O Memorial da América Latina, ao lado do Terminal Barra Funda, com ônibus, trens, metrôs e alguma malha cicloviária, é perfeito. O festival chegou a ser realizado na Argentina, mas foi descontinuado.

Hoje, o filho brasileiro de Takayanagi é um adolescente forte e saudável. A edição deste ano bateu recorde de lojistas e marcas e são esperados 50 mil visitantes.

Os homens da feira abandonada
Nesta edição vieram até “os homens da feira abandonada”, empresários que organizavam uma feira concorrente – às vezes no mesmo dia do evento da Shimano – mas que entenderam as vantagens de estar junto ao grande público que adorou e superlotou o evento idealizado por Takayanagi.

Para ele, o festival é importante para passar a ideia do que ele chama de “cidadania”, onde o ciclista tem seu espaço e respeito dentro do atual sistema de mobilidade que foi pensado, criado e (ainda) é dominado por carros. A bicicleta como opção de transporte sempre esteve na pauta do festival.

A Shimano nasceu na cidade de Sakai, na província de Osaka, em 1921. A região é famosa pela arte de manipular o metal desde a era medieval. “Dominamos a tecnologia de trabalhar metais”, orgulha-se.

A empresa é parte daquilo que ficou conhecido como “milagre econômico japonês”, com empresas nipônicas dominando o mercado mundial de instrumentos musicais, motocicletas, câmara fotográficas, automóveis, SUV’s, eletrônicos, relógios e, claro, componentes para bicicletas.

A marca é de longe a mais conhecida e respeitada no mercado de componentes. “Se é Shimano é bom”, é o senso comum. A Shimano domina o ciclismo de estrada de alta performance e os carros azuis de suporte neutro estão nos principais eventos do mundo.

Mas no mountain bike a coisa é bem diferente. A ousadia da concorrência abocanhou um enorme naco do segmento de alta gama. Atletas de ponta do MTB migraram rapidamente para a novidade do câmbio mecânico de “uma coroa só”, de 11 velocidades. A Shimano insistia no câmbio eletrônico, ainda com  a eficiente, mas superada, relação 2×10 marchas.

A cautela da Shimano custou caro e a empresa perdeu muito espaço no cross country olímpico. A relação de uma coroa só de 12 velocidades e cassete de 10 dentes demorou demais e, com a chegada do grupo eletrônico sem fio da concorrência, a situação complicou ainda mais para a gigante de Sakai.

“Estamos preocupados sim, mas estamos trabalhando nisso”, disse com a segurança de quem confia na capacidade da empresa de combater tecnologia com mais tecnologia para não ficar para trás.

Shimano Fest completa 12 edições em 2022 Foto: Cesar Delong

Divisor de águas
A Shimano também atua no mercado de pesca. Segundo Takayanagi, o ciclismo representa 80% e a pesca 20% das atividades da empresa.

Mas o tamanho do mercado brasileiro é guardado a sete chaves e o executivo desconversa com risos quando indagado sobre números. A verdade é que o Brasil é relevante no mercado mundial, pois não se vendem somente produtos de alta gama. A marca tem produtos para todos os bolsos.

Há quem reclame da empresa por conta do abastecimento do nosso mercado.

“Pedimos centenas de alguns componentes e recebemos apenas cinco. Não vá estranhar se eu comprar no Aliexpress, pois sei que vou receber o produto em minha fábrica em 20 dias. Eu tentei primeiro com a Shimano aqui do Brasil. Minha fábrica não pode parar. Eu não posso falir”, contou-me um fabricante, muito bem-humorado apesar do gargalo.

“Existe uma fila. Respeitamos a ordem de chegada dos pedidos. Não há privilégios para ninguém”, garante Takayanagi.

No ano passado, a Shimano faturou 50% a mais que o normal dos anos pré-pandemia. “A pandemia foi um divisor de águas”, admite.

Mas o momento não está fácil. A pandemia e, mais recentemente, a guerra na Europa afetaram profundamente a cadeia produtiva com consequências diretas nos preços. Muitas fábricas e portos fecharam na pandemia, o frete marítimo disparou e inflação também. “Os preços de matéria-prima e energia estão bem elevados”, diz.

Sobre as rusgas militares entre China e Taiwan, Takayanagi é bem cauteloso, como a Shimano. “A guerra é um risco real, mas acho difícil a China passar dos limites”, diz com um discreto olhar de preocupação.