Avaliamos em primeira mão a nova Cannnondale Scalpel HT Carbon

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Avaliamos em primeira mão a nova Cannnondale Scalpel HT Carbon

Confira como foi disputar uma ultramaratona de três dias em Santa Catarina com a nova hard tail da Cannondale

A nova Scalpel HT Carbon 2 é o principal lançamento da Cannondale para o XCO

Do Bikemagazine
Texto e fotos: Marcos Adami

Avaliamos em primeira mão o principal lançamento da Cannondale para o mountain bike no Brasil. Nosso teste da Scalpel HT Carbon 2 foi nos três dias da Riders Stage Race, em Balneário Camboriú (SC), num relevo bastante desafiador.

A bike, estrela do estande Cannondale/Caloi no Shimano Fest, estava disponível no Cannondale Test Ride do evento. Era um modelo na cor vermelho candy, com peso anunciado de 10,52kg para o tamanho MD e preço de venda ao consumidor de 49.799.

E como é disputar uma ultramaratona de três dias com 130km e quase 3.500 metros de ascensão total com uma bike desta faixa de preço?.

Fiz minha parte e treinei bastante e, claro, a experiência com a bike foi muito boa na corrida, perfeita, um canhão morro acima e morro abaixo.

Ouvi algumas vezes a frase “Caramba, R$ 50 mil? Se uma bike desse valor não for boa, tem coisa muito errada com ela”. A bike era admirada por onde passava. Quem conhece bicicleta sabe bem porque ela custa R$ 50 mil.

IT IS NOT ABOUT THE MONEY
“E quem compra uma bike deste nível de preço?”, perguntei uma vez a um proprietário de uma loja conceito de uma marca concorrente na Barra da Tijuca, no Rio. A resposta foi bem simples. “Compra quem gosta de bike boa. Gente que gosta de competir e precisa de um material top sempre vai dar um jeito de adquirir a melhor bike. Se não conseguir pagar à vista o cara parcela. Se não consegue comprar no Brasil, pede para um amigo trazer de fora, mas o aficionado sempre vai dar um jeito”, explicou o lojista.

A bike fez muito sucesso entre os lojistas que visitaram o estande da marca no Shimano Fest e faltou bicicleta para todo mundo. “Se eu tivesse hoje 100 bikes destas eu teria vendido todas”, garantiu-me o representante de um estado do Sul do Brasil.

A Pedalare, em Campinas, foi a primeira no interior paulista a receber a bike

A escassez de bicicletas e componentes ainda assola o mercado mundial e, pelo que levantei, vieram pouquíssimas Scalpel HT Carbon 2 para o Brasil. Para se ter uma ideia, existem somente duas destas bikes disponíveis (uma S e uma M) para todo o interior do estado de São Paulo, na bike shop Pedalare, em Campinas (SP).

Além da HT 2 Carbon, a Cannondale vai trazer para o Brasil os modelos de entrada Scalpel HT 3 e Scalpel HT 4 até o final do ano.

O NOVO NOME
O nome Scalpel era utilizado pela marca nas full suspension e as hard tail de alta gama da marca usavam a nomenclatura da FSi Carbon. “A nova bike evoluiu tanto na questão de amortecimento que a Cannondale deve adotar o nome Scalpel também para as hard tail”, contou um representante da marca.

Detalhe da junção do stay traseiro com o seat tube, deslocado para baixo

Visualmente, o novo quadro é facilmente identificado pela junção do stay traseiro com o seat tube, agora um pouco mais para baixo. O peso é de 890 gramas, segundo o fabricante, e tem garantia vitalícia.

O ajuste giratório da regulagem de compressão fica no ombro

A suspensão é a Lefty Ocho, com 110mm de curso, com trava manual no guidão, regulagem de compressão no ombro (foto acima) e regulagem de retorno na parte inferior, próximo da válvula para calibragem, e também é coberta por garantia vitalícia.

O cubo dianteiro com o sensor de roda e o ajuste de retorno (em vermelho)

GEOMETRIA
Mas não foi só a nomenclatura que mudou. A Scalpel HT 2 segue a nova tendência de mountain bikes para o cross country, com a frente um pouco mais comprida, ângulo da caixa de direção mais aberta (66,5 graus), ângulo de selim mais fechado (74,5 graus), traseira curta, guidão mais largo com mesa mais curta, stack de 61,2cm e reach 43, em uma combinação que favorece agilidade em baixa velocidade (subidas travadas e curvas fechadas em trilha) e estabilidade em alta velocidade (longas descidas).

Detalhe da Lefty Ocho com o ângulo de 66,5° na frente

As mudanças de geometria foram significativas em relação aos modelos FSi, com 2 graus na abertura do ângulo da caixa de direção e traseira mais curta.

Vale salientar que os ângulos mudam conforme o tamanho da bike, no que a Cannondale chama de “resposta proporcional”, que consiste em aumentar o comprimento do chainstay à medida que os quadros ficam maiores. A ideia é posicionar o ciclista exatamente sobre o ponto de tração.

FLEX
Quadros de carbono com zonas flexíveis que absorvem impactos e vibrações não são nenhuma novidade e cada fabricante batiza seu sistema com um nome de apelo comercial.

Detalhe da parte do chain stay responsável pelo microamortecimento

No novo quadro Scalpel HT, o microamortecimento é feito pela flexão da extremidade do chain stay, próximo ao eixo passante. O canote de selim integra a tecnologia de amortecimento e flexiona junto com o stay.

COMPONENTES
A Scalpel HT Carbon 2 vem equipada com o grupo Shimano XT de 12 velocidades, cassete 10×51, pedivela Hollowgram de alumínio com coroa de 34 dentes, rodas Stan’s No Tubes Crest MK4 montadas com raios DT Swiss Competition.

Pedivela Hollowgram, de alumínio, com coroa de 34 dentes

Na traseira vem com cubo Shimano SLX 12x148mm e cubo dianteiro Hollowgram Lefty com sensor de velocidade que se comunica com o App Cannondale, que por sua vez abre caminho para coletar dados para o Strava, por exemplo, e também emite avisos sobre o momento de manutenções na bike.

A suspensão é a Lefty Ocho de 110mm, com trava manual no guidão. Os freios a disco são Shimano XT com rotores de 160mm, guidão de carbono 1 Flat de 760mm de largura, canote de carbono C1 de 400mm e o selim é o Prologo Dimension NDR, com trilhos de Tirox.

A Lefty Ocho vista de frente

O conjunto é equilibrado e eficiente ao que se propõe, entretanto, loucos por baixo peso vão sentir falta de aros e pedivela de carbono. A verdade é que dá para reduzir bastante peso com alguns (e caros) upgrades.

NA CORRIDA
Depois da apresentação da bike, com detalhes das tecnologias e componentes empregados, fizemos uma rápido ajuste de SAG na suspensão e estava perfeita para meus 71,6kg no dia do prólogo. Bastou colocar o selim a 76cm para meu fit encaixar quase perfeitamente. Talvez uma mesa 1cm mais longa fosse ideal para mim, mas ficou bom.

Em ação na Etapa Rainha da Riders Stage Race  Foto: Rivo Biehl

Peguei a bike com a necessária desconfiança de um profissional de imprensa e bastou chegar na primeira rampa íngreme para sentir os benefícios da nova geometria do quadro.

Como anunciado pelo pessoal técnico da Cannondale, era notável a tração na roda traseira nas subidas muito íngremes (com 20% ou mais de inclinação) de pedras soltas. E, sim, dá para sentir o conjunto trabalhando na rodagem e não patinou morro acima nenhuma única vez. Claro, a bike sozinha não faz milagre, tem que ter o feeling de dosar o torque também.

A bike vem com pneus Schwalbe 29×2.25 – Racing Ralph atrás e Racing Day na frente – e deram conta do recado no terreno firme de praticamente todo o trajeto.

Detalhe do pneu traseiro Schwalbe Racing Ralph e do aro de alumínio Stan’s

“O ideal desta bike seria colocar tubeless. A bike iria perder peso e ficar ainda mais macia”, sugeriu um representante comercial da empresa.

Nas subidas, bastava travar a suspensão para vencer trechos mais íngremes em pé. Um outro toque e a trava liberava os 110mm de curso. Nas descidas, a Lefty Ocho trabalhava com uma perfeita leitura do terreno e o tal do “ângulo mais aberto da caixa de direção” ajudava nas curvas de mais velocidade. Os freios XT com rotores de 160mm foram perfeitos.

Detalhe da trava remota da suspensão

A verdade é que as descidas não me preocupavam. As subidas bastante. Quando vi a coroa 34 perguntei se era possível trocar por uma menor. “Estas bikes são voltadas para o público que compete, gente treinada”, foi a explicação do pessoal técnico da Cannondale. Faz sentido.

Na segunda e na terceira etapas ouvi estalos vindos da caixa de direção (ou seria o conjunto do canote e selim)? Relatei o problemas para o pessoal da Cannondale, que explicou:

“São bikes montadas há muito tempo e que levaram algum tempo até chegar em nossas mãos. A graxa da montagem já deve ter ressecado nos rolamentos e cabos”, explicaram. Também faz sentido e nada que a primeira revisão não resolva.

E para aqueles que se perguntam se andar em uma bike com suspensão somente de um lado não é esquisito, a resposta é um sonoro não. Nem se nota que estamos em uma bike com suspensão só do lado esquerdo. É absolutamente normal e até se esquece disso nos primeiros segundos da pedalada.

CONCORRENTES
Selecionamos algumas concorrentes diretas no Brasil:

A Scott Scale RC Team Issue vem com grupo eletrônico sem fio Sram Eagle GX AXS, RockShox SID Select RL Air, DT Swiss XR 1850 CL e peso anunciado de 10kg. O preço é de R$ 49.999.

A espanhola Orbea tem o modelo Alma M-Pro que é vendido por R$ 49.999 na BikePoint SC. A bike vem com Shimano XT de 12 velocidades, Fox 32 e rodas OC XC Team, da própria marca. O peso anunciado é de 11,05kg.

Pelos mesmos R$ 49.999, a brasileira Sense tem o modelo mais leve do comparativo, com 9,5kg anunciados. A Sense Impact Carbon Factory Team vem com XTR, Fox Float Factory Step Cast Kashima, componentes FSA, e rodas DT Swiss XRC 1200.

O modelo Procaliber 9.8 da Trek é o mais em conta deste comparativo. Por R$ 1 mil a menos, a bike de 10,2kg vem com o grupo XT de 12 velocidades, rodas Bontrager Kovee Elite 30 e suspensão Fox Performance 32 de 120mm. Importante lembrar que o quadro tem a tecnologia IsoSpeed de amortecimento de impactos.

Na casa Specialized, as hard tail desta faixa de preço não vieram para o Brasil em 2021 e 2022, mas estarão em nosso mercado em 2023, disse um vendedor.

A concorrente direta com a Scalpel seria o modelo Epic HT Pro, vendido nos EUA por US$ 5.800. A bike, com quadro de carbono FACT 11m, grupo eletrônico sem fio Sram XO1 Eagle AXS, suspensão RockShox Sid Brain de 100mm, e rodas de carbono Roval Control.

As mudanças foram muito positivas na geometria

CONCLUSÃO
A bike se saiu bem em nossa avaliação. Já avaliamos algumas concorrentes (Scott e Specialized) com geometria mais conservadora em competições e nossa Scalpel HT 2 Carbon se saiu muito bem.

A nova geometria ficou bem acertada, deixou a bike mais grudada no chão nas subidas e estável nas descidas. Vale lembrar que a bike tem garantia vitalícia para o quadro e para a suspensão. A bike será vendida em quatro tamanhos SM, MD, LG, XL.

E eu compraria a HT 2 Carbon? Sim, com certeza e faria alguns upgrades tão logo pudesse. A bike vale cada centavo.

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