Confira nossa avaliação do quadro gravel Absolute Allroad

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Confira nossa avaliação do quadro gravel Absolute Allroad

Veja os detalhes e - os desafios - na montagem de uma bicicleta gravel com componentes econômicos

O quadro Absolute Allroad é fabricado em alumínio e tem preço sugerido de R$ 1.699


Do Bikemagazine
Texto e fotos: Gabriel Vargas

Disclaimer: Esta é uma avaliação somente do conjunto de quadro e garfo. Os componentes serão mencionados com comentários ao final do texto.

O quadro Allroad é um recente lançamento da Absolute para atender a demanda crescente do mercado de gravel. Este não é o primeiro quadro gravel da Absolute, marca que é distribuída no Brasil pela importadora Isapa. Em 2020, uma versão do Allroad chegou no mercado brasileiro, embora bem diferente do atual.

O conjunto de quadro e garfo Allroad, que teve preço sugerido de R$ 1.699 no lançamento, chega em um segmento de quadros avulsos de (relativo) baixo custo. Quem procurar mais informações sobre o produto no site oficial  vai encontrar a página “CONHEÇA O PRODUTO” que não existe.

Nesta lista dos quadros gravel de baixo custo podemos considerar o conjunto da Show Gravel (cerca de R$ 1 mil para quadro e garfo) e o novíssimo KSW Gravel (aproximadamente R$ 1.200 também quadro e garfo). Enquanto a Show Gravel e a KSW são marcas que fabricam seus quadros e garfos no Brasil, ambas no estado de São Paulo, o Absolute é um quadro fabricado na China.

O quadro é fabricado em alumínio, com uma construção de aparência bastante robusta. O garfo é feito em alumínio, mas com a espiga em aço. Desde o primeiro contato com o conjunto desmontado, ficou muito evidente o quanto o material parece ser bastante reforçado, talvez até sobredimensionado. Impossível dizer se é mais ou menos resistente às pancadas que os concorrentes, mas eu apostaria minhas fichas no Absolute nesse quesito já que o kit de quadro/garfo de 3,062 kg convence pelo peso e robustez.

O conjunto quadro/garfo de alumínio pesa um total de 3,062kg para o tamanho large

O espaço para pneus de até 50mm é acima da média para a categoria, permitindo a instalação de pneus de MTB na medida 2.0 ou talvez até 2.1. Os tubos do quadro têm formatos distintos, com o tubo inferior de seção quadrada; o tubo superior é quadrado na frente mas bem achatado próximo ao tubo do selim, que, por sua vez, aumenta o diâmetro próximo ao movimento central.

As gancheiras e as soldas são bem trabalhadas. Os conduítes passam por dentro do tubo inferior e saem logo abaixo do movimento central, mas ficam expostos no chainstay.

A pintura fosca é agradável aos olhos e com bom acabamento, mas tive que lixar o excesso de tinta nas gancheiras do garfo, pois dificultava a instalação da roda dianteira. Faltou capricho neste detalhe.

O conjunto aceita pneus até 50 mm ou 2.0 polegadas

Faltam suportes para acessórios, e isso é, pelo menos em meu uso, o maior ponto negativo do Allroad. O quadro possui apenas a tradicional furação para duas caramanholas dentro do triângulo principal do quadro. Faltam algumas opções típicas do segmento gravel: furação extra sob o tubo inferior (downtube), e sobre o tubo superior (top tube). Furações no garfo também seriam bem vindas para aqueles que pretendem realizar aventuras em múltiplos dias. É possível realizar adaptações, utilizando bolsas com velcro ou algum sistema com presilhas, mas não são soluções tão estáveis e robustas. Esse descuido (ou economia na fabricação) é lamentável, dado que a versatilidade e capacidade provida pelos suportes são características fundamentais do ciclismo de aventura e gravel.

Felizmente, não há nada diferente em termos de medidas de canote, movimento central, e a caixa de direção é a velha e boa semi integrada de 44 mm, um dos tipos menos propensos a problemas. Como dito acima, o quadro pesa 1.995g e o garfo 1.067 gramas para o tamanho large.

O quadro tem construção bastante robusta, com tubos de formatos variados

Em comentários e troca de informações e opiniões com outros ciclistas, notei que a “vida real” do ciclista gravel no Brasil não necessariamente atende às expectativas mais óbvias, em termos de equipamentos. Analisando o Absolute Allroad 2022, há quatro aspectos que levantaram debates: o suporte para freios flatmount, as gancheiras 10×135 / 9×100 (de blocagem), a espiga reta (não cônica/tapered) e a geometria muito compacta (sloping) do quadro. Cada um desses pontos merece uma discussão à parte, a seguir:

Freios flatmount

Um sondagem em fóruns e comentários de redes sociais, observei que muitos usuários prefeririam suportes do tipo IS (padrão bem antigo) ou Postmount (padrão usado nas MTB). Os freios se mostraram um dos nós na montagem da bike, já que tornou-se muito difícil encontrar freios a disco mecânicos compatíveis com STI e também compatíveis com os suportes IS ou Postmount. Os Avid BB5 ou BB7 road são caros e raríssimos; os Shimano BR317, que equipavam algumas bikes que já testamos no Bikemagazine, como a Dinâmica Guará e a Sense Criterium, praticamente não existem mais no mercado.

Freios hidráulicos tornam a montagem muito mais cara, e freios mecânicos flatmount seriam, então, a solução ideal. Um padrão mais moderno e apto a um futuro upgrade para hidráulico. Para minha surpresa, os flatmount mecânicos são igualmente raros.

Suporte para freios flatmount e a gancheira traseira

A solução mais popular entre os graveleiros brasileiros em montagens de menor custo (mas em quadros com suporte IS ou Postmount, como o Show Gravel) é o uso de freios mecânicos de mountain bike, como o Shimano Tourney. Porém, a puxada de cabo da manete do STI (ou qualquer outra manete de freio para guidão drop) é semelhante aos antigos cantilevers, e totalmente diferente das manetes de mountain bike, que utilizam a taxa de puxada de v-brakes. O resultado é um freio fraco, difícil de regular, insuficiente e até inseguro.

Logo, argumento que, raro por raro, melhor ficar com a solução mais adequada, mais moderna com melhor potencial futuro, que é o flatmount. Como veremos adiante, a bike foi montada com freios Nutt S6T totalmente mecânicos.

Espiga reta feita em aço

Confesso que senti uma ponta de frustração quando encostamos um ímã na espiga e notamos que era de aço. Vários gramas a mais por ali. Pessoalmente, não me importo com o fato da espiga não ser cônica, pois entendo que seria inviável fazer uma espiga tapered de aço. Mas a espiga não poderia ser de alumínio?

Suspeito que isso faz parte do superdimensionamento do Allroad. Seja lá quem projetou o quadro, todas as escolhas e cálculos parecem levar a o conjunto mais resistente e confiável o possível. Talvez para aguentar uma viagem de volta ao mundo? Creio que não, a menos que tenham esquecido completamente das furações para bagageiros extras e acessórios (ver adiante). Suponho, então, que seja apenas uma garantia de que, não importa o uso e o peso de quem está em cima, o equipamento vai aguentar. Talvez seja mais barato colocar 300 a 500 gramas a mais de alumínio e aço do que realizar eventuais trocas por garantia ou coisa do tipo. Ao menos, a espiga de aço é totalmente pintada com uma camada protetora contra corrosão e muito bem acabada.

É importante observar que quem quiser fazer um upgrade para garfo de carbono, normalmente tapered, poderá utilizar uma caixa de direção especial para essa aplicação, com o rolamento inferior externo. Há que ficar atento, porém, às medidas de comprimento de garfo (levando em consideração a caixa de direção com rolamento externo) para evitar alterações dos ângulos da geometria.

Eixos 10×135 e 9x100mm

Alguns comentários até mencionaram a ausência do suporte a eixo passantes (thru axle). Além de encarecer a produção do quadro e o produto final, pois exige gancheiras mais elaboradas e a inclusão dos eixos, as rodas mais acessíveis do mercado desse tipo custam mais de R$ 2 mil! Por outro lado, é possível encontrar rodas de mountain bike com eixos de blocagem por menos de R$ 500, como o caso das Vzan Extreme utilizadas nesta montagem.
Eixos passantes são excelentes para garantir a instalação correta da roda e o posicionamento dos rotores em relação aos freios, mas a um preço muito superior e inviável a muitos projetos de custo reduzido.

Detalhe do freio dianteiro Nutt S6T de acionamento mecânico

Geometria

As medidas e ângulos do Absolute Allroad são um dos maiores pontos fortes do modelo em relação aos quadros concorrentes. O Allroad tem um projeto de dimensionamento muito maduro e bem elaborado. Com um reach (comprimento efetivo do quadro) relativamente curto e stack (altura efetiva) bem acentuado, temos um enorme diferencial no mercado brasileiro, pois infelizmente as bikes de alumínio das marcas nacionais sofrem de geometrias com a frente sempre muito baixa, exigindo uso de muitos espaçadores e mesas apontando para cima, prejudicando a estética do conjunto e dificultando a vida dos bike-fitters.

Nesse quadro, o ângulo de direção de 71 graus em todos os tamanhos é bastante convencional para um modelo gravel ou adventure, o que é um bom ponto de partida. O comprimento do tubo da direção cresce coerentemente com os tamanhos e resulta em valores de stack muito bons para a proposta do quadro. Já o ângulo do tubo do selim, com 73,5 também em todos os tamanhos, é outra surpresa boa, rompendo com a tendência antiquada dos tubos muito recuados nos tamanhos maiores em alguns quadros nacionais de estrada e gravel.

O comprimento do tubo superior também é bastante coerente ao longo dos tamanhos e soa bem correto, tendendo a alcances adequados. Isso provavelmente vai mitigar o problema que vemos de pessoas precisando usar mesas super curtas em suas bikes (que, ao contrário das mountain bikes modernas, não são projetadas para isso). Em resumo, a Absolute Allroad, em qualquer tamanho, é um quadro razoavelmente curto e com a frente alta, ideal para o uso pelo público geral que busca uma bike que atenda bem aos ajustes para o corpo do ciclista.

O comprimento do tubo do selim é o ponto negativo da geometria da nova Allroad. O quadro ficou com um sloping muito acentuado, visualmente similar às mountain bikes. Isso torna o triângulo principal do quadro muito compacto e apertado, e com certeza vai dificultar o uso de acessórios para bikepacking, por exemplo, e talvez até o uso de caramanholas extra-grandes. Visualmente, o resultado é bastante questionável. Pessoalmente, gostaria de uns 4 a 6 centímetros a mais no tubo do selim no meu quadro tamanho L. Há um lado positivo, porém: o canote bastante exposto flexiona com mais facilidade, o que ajuda consideravelmente a mitigar pequenos impactos e vibrações, mesmo com um canote de alumínio.

Impressões durante as pedaladas

Entre todas as bikes que já pedalei na vida, nenhuma foi tão discreta quanto o Absolute Allroad. Mas isso não é algo ruim: o quadro e o garfo simplesmente funcionam e realizam seu trabalho quietos, sem nenhum grande destaque, mas também sem nenhum defeito. Seria pejorativo dizer que a Allroad é apática, sem sal. Mas, de fato, em todos os quilômetros com ela, a impressão foi exatamente essa: eu esquecia que ela existia. O funcionamento dos componentes ou a calibragem dos pneus chamaram minha atenção. A paisagem, os lugares em que passei, as estradas novas que conheci, chamaram minha atenção. Mas o quadro e o garfo, não! Eu tinha que ativamente lembrar que estava avaliando um produto para tentar entender suas características, peculiaridades, defeitos. Embora o quadro e garfo apenas quisessem cumprir seus papéis com eficiência, sem louros e sem protestos.

No geral, o conjunto se comporta muito bem, muito dentro do esperado – talvez seja esse o ponto: não há surpresas. A pilotagem da bike é estável e previsível, segura. Trechos velozes no cascalho são encarados com tranquilidade. O Allroad gosta de curvas amplas em alta velocidade, mas se sai muito bem em trechos mais técnicos e travados, ou curvas fechadas em baixas velocidades. Sua característica estável dificulta um pouco atacar curvas acentuadas de maneira agressiva, mas isso é perfeitamente esperado para uma gravel que não foi projetada para competições. O que se perde em agilidade, ainda que isso não seja tão perceptível, é compensado em confiança sobre o guidão.

Um parênteses sobre competições: no mês de agosto corri o GP Ravelli na categoria gravel com esta bike. Eram 32km de estradões com poucos participantes e acabei vencendo. A experiência pode ser conferida aqui

Na categoria gravel do GP Ravelli – Foto de Wladimir Togumi

A rigidez do conjunto todo, ao pedalar forte (inclusive em pé) é excelente, mas ao contrário de uma bike de estrada de competição, não é algo que você irá notar de imediato. Com uma pressão adequada nos pneus e com todo o canote exposto, o rodar é sempre confortável e agradável, mas ao mesmo tempo firme e assertivo. Mesmo com as pastilhas de freio ajustadas bem rente aos rotores, nunca ouvi um raspão ao pedalar em pé – posso dizer que é a primeira bike com disco de estrada ou gravel, de qualquer material, de qualquer preço, que mostrou tamanha rigidez lateral no garfo.

Há, porém, algo que foi muito notável, embora inevitável. Com pouco mais de 12kg, a bike é pesada. Porém, nessa faixa de preço, seja para o kit quadro/garfo ou para a bike inteira, seria bastante difícil obter algo muito mais leve que isso.

Componentes utilizados

Sendo um projeto de relativo baixo custo, foram utilizadas peças que estavam guardadas, compradas usadas ou “garimpadas” em lojas e na internet. O ponto de partida foi o par de rodas Vzan Extreme (com eixos de blocagem), que eu já possuía e que custou cerca de R$ 300. Eu não estava interessado em investir em torno de R$ 2 mil para ter um novo par de rodas com eixo passantes, então foi vital para o projeto o fato do quadro Absolute Allroad ser para eixo de blocagem comum, 10×135 atrás e 9×100 adiante.

O ponto de partida para a montagem foi o par de rodas Vzan Extreme

Outro componente importante no projeto eram os freios Nutt S6T, totalmente mecânicos (a marca oferece um famoso modelo semi-hidráulico que, dizem, é bem ruim). Graças aos pistões de acionamento duplo, o freio tem um bom funcionamento, mas a sapata original é sofrível e prejudica a qualidade do sistema.

Em seguida, utilizei STI e câmbio dianteiro Shimano Sora R3000 9V, junto ao câmbio traseiro Shimano Alivio RD-M4000, exatamente o mesmo setup que já conhecíamos desde nossa avaliação da gravel Dinâmica Guará. Porém, na Absolute, os câmbios movem corrente KMC X9 sobre um cassete Sunrace. Tenho utilizado tanto a versão 11-34 quanto 11-36 dentes, que possuem escalonamento totalmente diferente entre eles ao longo do bloco. O pedivela fica a cargo de um Shimano FC-RS200 montado com coroas 46-34 dentes. No eixo do movimento central movimento central usei uma caixa de ponta quadrada Absolute de 110.5mm.

O pedivela Shimano FC-RS200 montado com coroas 46-34 (2×9 velocidades)

O sloping acentuado do quadro exigia um canote bem longo, então reaproveitei um modelo de alumínio de 450mm que fora utilizado em uma mountain bike. Posteriormente, troquei por um Toseek de carbono de 400mm sem recuo (zero setback) por questões de fit e para reduzir um pouco o peso da bike.

Mesa e guidão eram peças que utilizei no passado em outras bikes de estrada. A tendência no gravel é utilizar guidões com flare (ângulo aberto na pega inferior, os “drops”) para melhor controle e conforto, mas por enquanto meu Pro PLT está atendendo bem. Também foram reaproveitados da “caixinha” de peças o selim San Marco Aspide, os pedais Shimano M520, os suportes de caramanhola BTwin e a abraçadeira de canote Absolute.

Detalhe do cockpit com trocadores Shimano Sora R300 de 9 velocidades

A bike rola atualmente sobre os bons pneus WTB Venture 700×40, montados com tubeless. Nas fotos que ilustram esse review, o quadro Allroad estava ainda equipado com pneus Levorin Cyclocross 700×42 – pesados e arrastados, mas suficientes para desfrutar da bike em passeios, deslocamentos e aventuras menores.

Agradecimentos a Cycle Station de Campinas (SP) pelo apoio durante a aquisição e montagem deste produto.

PONTOS FORTES:

  • Espaço para pneus até 50mm;
  • Geometria adequada para a proposta (especialmente comprimento do quadro e altura da frente);
  • Garfo bastante rígido lateralmente;
  • Conjunto bem robusto;
  • Suporte para freios flatmount

PONTOS FRACOS:

  • Faltam suportes adicionais no quadro e no garfo;
  • Sloping do tubo superior (caimento) muito acentuado;
  • Peso total do conjunto razoavelmente acima do esperado
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