Henrique Avancini anuncia despedida: hora de virar a página

HomeMountain bikeDestaque

Henrique Avancini anuncia despedida: hora de virar a página

Bicampeão mundial de MTB marathon diz que tomou a decisão de deixar o pelotão profissional mas segue no comando de sua equipe

Avancini na coletiva do Shimano Fest Foto: Cesar Delong

Marcos Adami/Do Bikemagazine
Fotos de divulgação 

Henrique Avancini vai virar a página. Nesta terça-feira (22 de agosto) o atleta emocionou quem acompanhou o anúncio de que está se retirando das competições. Avancini, aos 34 anos, contou que tomou a decisão de parar antes de conquistar o bicampeonato mundial de marathon, no começo de agosto, na Escócia. “Chegou o momento de virar a página”, disse, com os olhos marejados de quem combateu o bom combate e apresentou ao mundo o melhor do mountain bike brasileiro.

“Dentro de mim, havia uma confiança muito grande. Não sabia de onde. Não era de resultados prévios, mas tive a sensação de que a vida ia me dar esse título. Logo, comecei a refletir não só sobre o campeonato, mas o que eu faria depois se fosse campeão mundial. Refleti e tomei a decisão sem falar a ninguém. Se eu vencesse, seria suficiente para dizer o que eu tentei dizer a carreira inteira. Se eu buscasse muito mais além, seria mais para satisfazer meu ego do que compartilhar uma coisa que eu acredito ser genuína. Foi assim que eu competi: acreditando muito que seria campeão mundial e, se isso acontecesse, seria o final da carreira”, contou.

Avancini diz que resolveu respeitar o seu instinto e não ser tão racional ao tomar a decisão. “O objetivo é manter os projetos em andamento”, afirmou, garantindo a continuidade da equipe que leva o seu nome.

“Vejo que a minha jornada como atleta nasceu muito da fé do que um cara conseguiria fazer, do poder do indivíduo. E eu acabei assumindo um papel em que as pessoas colocaram uma responsabilidade em mim que eu sou a cara do esporte, a cara do mountain bike no Brasil. E eu acho que isso começa a ir contra tudo o que eu acredito. Vejo que podemos ir mais longe, dá para fazer coisas mais especiais do que aparentamos ser capazes”, completou Avancini.

Avancini no anúncio da despedida do MTB profissional Foto: Fabio Piva

Na coletiva de quinta-feira passada (17 de agosto), no Shimano Fest, notei que Avancini havia mudado. Não foi só o novo corte de cabelo que mudou. De cabeça raspada e sentado à frente de um backdrop pelo menos 20 marcas que apoiam a Henrique Avancini Racing, o bicampeão mundial de marathon conversou rapidamente com a imprensa.

A verdade é que Avancini amadureceu bem. O garoto de Petrópolis chegou onde brasileiro nenhum chegou em nossa história. Os dois títulos mundiais e seu longo currículo falam por si só. E a experiência no circuito mundial fez muito bem para ele, que já foi o segundo mountain biker mais bem pago do mundo e bateu guidão com os feras. “Eu tinha situação financeira do mais alto nível que dá para chegar neste esporte”, admite.

A medalha de ouro na Escócia foi sofrida. A falta de resultados expressivos na temporada, o gerenciamento da nova equipe, o desenvolvimento da nova bike em parceria com a Caloi, a queda em Araxá, a lesão no joelho e outros contratempos foram obstáculos superados e que valorizam ainda mais o título bi mundial que conquistou com apenas seis semanas de treinos específicos com o novo treinador, o alemão Björn Kafka, que tem entre seus clientes fortes atletas de mountain bike, alguns com títulos europeus, nacionais e mundiais de XCM.

“Na Escócia entreguei a melhor performance de minha carreira. Dei tudo de mim, extraí tudo que dava para extrair e isso me dá uma alegria, uma paz muito profunda, uma gratidão enorme”, comentou Avancini no anúncio da despedida.

Entendo o momento como uma nova e promissora fase. Avancini venceu o Mundial como atleta e como dono da equipe que leva seu nome. Na coletiva da Shimano Fest, exibia mais a postura de businessman do que a de um atleta que está correndo atrás de títulos. Agora entendo as evasivas quando perguntei sobre os planos para usar a nova camisa de campeão mundial.

Avancini admite que não tinha a noção do tamanho do desafio de ser dono de uma equipe deste porte. Aprendeu rápido pelo jeito. Para a Caloi o resultado não poderia ter sido melhor. Avancini colocou sua esquadra e a própria Caloi no pináculo do templo do mountain bike mundial. Vivam com isto os adversários e haters que infestam as redes sociais. Por incrível que pareça, teve gente que conseguiu achar defeito e até mesmo diminuir a importância do ouro de Avancini na prova mais importante de XCM da temporada.

Avancini na coletiva de imprensa no Shimano Fest Foto: Cesar Delong

Se tiver um torneio de bolinha de gude entre um brasileiro ou brasileira e um suíço, torcerei sempre para meu compatriota, nem o que o tal suíço seja o número 1 do mundo.

O grosso dos recursos da equipe Henrique Avancini Racing vem da Caloi e Avancini sabe que o esporte exige cada vez mais investimento em pesquisas e tecnologia, não só de materiais, mas também de métodos, análise de dados, telemetria etc.

Uma verdadeira revolução no ciclismo e no mountain bike está em andamento. “Basta ver os tempos de escalada nas principais subidas das principais voltas”, lembrou Avancini. O time Swiss Cycling, por exemplo, tem mais verba para pesquisas de rolagem de pneus do que o orçamento anual de grandes equipes. Avancini acredita que, para o próximo ciclo olímpico, as equipes terão forçosamente que ter um orçamento colossal para se manterem na ponta.

O Shimano Fest marcou o último grande encontro com os fãs antes de anunciar sua aposentadoria. Na tarde do último domingo (20 de agosto), a fila dava voltas no estande da Caloi para tirar uma foto ou simplesmente o cumprimentar e agradecer. Mas Avancini garante que ainda vai participar de três corridas este ano. “Teremos a chance de nos pedir da melhor forma, dentro das pistas.”

A decisão de deixar de competir oficialmente ocorreu pouco antes do título mundial. Para explicar aos fãs e a todos que o acompanham tudo o que ele passou nesse ano e o desejo de parar de competir, Avancini lançou o documentário “O Meu Motivo”.

CONFIRA 

LEIA MAIS
Reportagens com Henrique Avancini no Bikemagazine