Mercado global de bicicletas: a bolha estourou

HomeDestaque

Mercado global de bicicletas: a bolha estourou

Com quedas recordes, o recente balanço divulgado pela Shimano e as dificuldades das marcas europeias, setor enfrenta excesso de estoque

Mercado global de bicicletas sofre com a queda nas vendas

Marcos Adami/Do Bikemagazine
Foto de divulgação

No dia 12 de janeiro participei da coletiva da Abraciclo, a associação brasileira que reúne o segmento de bicicletas, e perguntei ao vice-presidente Fernando Rocha se vivemos um momento de bolha no mercado global de bicicletas.

Rocha, que também atua na Caloi como diretor de operações, respondeu que temos sim um excesso de estoque há algum tempo. Trocar a palavra bolha por excesso de estoque assusta menos. De lá para cá o mercado de bicicletas – mundial, insisto – só desceu a serra e segundo o executivo o mercado vai se reorganizar nos próximos 6 ou 9 meses. Assim seja.

As quedas recordes nas vendas do setor já podem ser sentidas e o balanço de 2023 divulgado pela Shimano é desanimador. O maior fabricante de componentes de bicicletas do mundo registrou queda de 55% nos lucros e 24% a menos nas vendas. O recall de pedivelas Ultegra tem seu peso nestes números.

Na Europa, houve demissões na italiana Bianchi e o recente anúncio da fabricante suíça BMC, que, com quedas nas vendas e estoque alto, pediu permissão ao governo do cantão de Solothurn, sua sede, para aplicar uma redução de horas de seus trabalhadores. A fabricante quer usar a medida citando um período de recessão no setor, algo que seria permitido pela regulamentação local, para evitar demissões.

Na Grã-Bretanha, a marca de roupas de ciclismo Rapha registrou perdas financeiras pelo sexto ano consecutivo. No balanço mais recente, de 2023, a grife registrou um prejuízo de £ 12 milhões (US$ 14,6 milhões). A alemã Canyon anunciou queda de 6% nos lucros e o maior fabricante de bicicletas do mundo – a Giant – admitiu demanda fraca na Europa e EUA e superestoque.

Em meados de janeiro, a suíça Scott Sports SA recebeu um aporte de US$ 176 milhões da empresa sul-coreana Youngone Corp, acionista majoritária desde 2015. No varejo online lá fora, a gigante Chain Reaction Cycles (CRC/Wiggle) é uma das primeiras baixas da bolha e desde outubro pena para se manter em atividade. As marcas Lapierre, Raleigh e Haibike também precisaram de um pix de 250 milhões de euros da empresa-mãe KKR para se manterem respirando.

Olhos atentos na Shimano Fest
No Brasil, basta ir até uma bike shop para conhecer a realidade da bolha. Tem muito encalhe.

Quem visitou em agosto passado o Shimano Fest com olhos atentos notou que as coisas já não iam bem. Foi sucesso de público como sempre, mas deu para notar que o mercado vive uma dura realidade. Sem grandes inovações tecnológicas para 2024, a maioria das bikes ganhou apenas “novo grafismo”. Quem tem uma boa bike 2020/21/22/23 está bem montado e pagar 10 mil ou 20 mil – ou mais – para pegar uma bike de outra de cor não funcionou desta vez.

A última edição do Shimano Fest, em São Paulo – Foto de Felipe Almeida

No estande da Caloi/Cannondale era notável a tal quebra de “Supply Chain”, a linha de suprimento de matéria-prima e componentes, que teve início com a explosão de vendas no período pandêmico (2020-2021) e culminou com falta a de bikes ao ponto de no estande da Cannondale só haver duas ou três super road bikes que custavam um par de rins cada. Até pouco tempo a Shimano pedia mais de 300 dias úteis para entregar componentes. Não sei se melhorou.

A bolha das seminovas
O ano virou e 2024 começou cruel no mundo todo. Não é privilégio brasileiro. Basta uma busca para ver preços incríveis e caindo.

Quando perguntei a Rocha o que o lojista com encalhe de seminovas deve fazer ele respondeu de bate-pronto: O varejo vai ter que fazer promoções para vender. O lojista precisa acreditar no mercado e na redução de juros.

Enquanto a redução de juros não chega o negócio é fazer promoções. No site da Caloi por exemplo, as promoções de Natal duraram até metade de janeiro, com descontos de até R$ 8,5 mil em determinado modelo elétrico.

Marcas importadas de grife também baixaram seus preços, digo, também entraram na onda dos descontos e tem modelo de estrada que caiu de R$ 125 mil para R$ 105 mil. Este cenário complica bastante a vida de quem tem dezenas ou centenas de bicicletas nesta situação.

A conta é simples: quando o próprio fabricante faz promoções agressivas e baixa o preço do modelo novo, todo o mercado de seminovas é pressionado para baixo. No mercado de automóveis o processo é idêntico. Quando a Tesla oferece desconto de US$ 5 mil ou US$ 10 mil em alguns modelos, automaticamente todos os seminovos deste modelo caem pelas tabelas.

Com promoções agressivas no mercado das bicicletas zero quilômetro, o mercado de usadas tem que se adaptar para sobreviver, afinal, se a diferença de preço entre a nova e a seminova for muito pequena, o comprador certamente vai optar pela segurança de adquirir uma bike zero em uma loja, com opções de parcelamento, com nota fiscal e garantia (às vezes vitalícia) e primeira revisão grátis na maioria das vezes.

No mercado de seminovas, o fenômeno abrange bicicletas de todas as faixas de preço, mas as bikes de alto valor depreciam sensivelmente mais rápido que as demais. As e-bikes no geral idem.

Basta uma olhada em sites de usadas para ver como tem anunciantes e vendedores equivocadamente praticando preços do auge  auge pandêmico.

Este mercado, como qualquer outro, tem altos e baixos e não é a primeira vez que o mundo vê uma bolha neste setor. A primeira crise de super estoque que se tem notícia data de 1896 na Grã-Bretanha, que viveu um boom de bicicleta na década de 1890 com dezenas de novos fabricantes e comerciantes que entravam no negócio em franca expansão, mas que se saturou naturalmente e, em 1901, mais de 40 empresas do setor haviam falido.

De toda forma o mundo continua girando e novos produtos são apresentados todos os anos. Neste final de semana (17 e 18 de fevereiro), por exemplo, a brasileira Sense vai fazer o evento de lançamento 24/25.

No setor de vestuário, a novidade faz parte do business. “As pessoas gostam de coisas novas e algumas lojas compraram demais na pandemia e ficaram com estoque antigo de modelos já ultrapassados.  É importante liquidar as coisas antigas para pegar as novas. Acho que o mercado já está melhorando e já passamos o pior da fase do excesso de estoque”, diz Márcio May, da Márcio May Sports, que produz roupas para ciclismo.

Por fim, o próprio Fernando Rocha dá a receita: “É um ano de cautela, mas o lojista tem que acreditar no mercado”.

O momento é oportuno para comprar ou trocar a bike para um modelo superior. Com poucos cliques dá para achar bikes novas (2022/2023) pela metade do preço. Vale também uma visita direta no cantinho das promoções nos sites das marcas. Fica a dica.