Filippo Ganna e o segredo da coroa única com 24 velocidades na CRI

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Filippo Ganna e o segredo da coroa única com 24 velocidades na CRI

Cubo "mágico" traseiro Classified Powershift duplica o número de marchas; equipamento foi usado pela Ineos-Grenadiers na crono da 7ª etapa do Giro d'Italia

A bike do norte-americano Magnus Sheffield (Ineos-Grenadiers) na primeira crono do Giro d’Italia – Foto LaPresse

Por Marcos Adami – Bikemagazine
Foto de divulgação LaPresse

O italiano Filippo Ganna (Ineos Grenadiers) disputou a crono individual da sétima etapa do Giro d’Italia com uma Pinarello Bolide TT equipada com grupo Shimano Dura-Ace de coroa única, mas com 24 velocidades.

O responsável pelo milagre da multiplicação das marchas é o cubo traseiro de duas velocidades Classified, marca que remete a uma brincadeira com a palavra “classified”, confidencial em português. Afinal, o cubo traseiro Powershift oculta um mecanismo que altera entre uma relação longa para trechos planos e mistos e outra relação mais curta para subidas. Na prática, elimina a necessidade do câmbio dianteiro e os eventuais e indesejados riscos da queda de corrente e outros incidentes. O sistema foi concebido só para bicicletas com frenagem a disco.

O cubo traseiro Powershift, da belgo-holandesa Classified

O “cubo mágico” da Powershift foi escolhido pela Ineos-Grenadiers especialmente para o percurso de 40,6km da sétima etapa entre Foligno e Perugia. O trajeto tinha os 33km iniciais bem planos, mas nos últimos quilômetros o terreno inclinava até chegar a 16% de pendência. Algumas equipes equiparam suas bikes com coroa única. Ganna por exemplo, girava uma coroa única de 60 dentes e cassete 11×34, mas optou pelo cubo Classified para usufruir de uma transmissão mais leve na parte exigente final.

Ganna em ação na crono individual da sétima etapa com 40,6km em Perugia – Foto LaPresse

Apesar do produto da Classified não ser novidade, foi a primeira vez que foi usado em uma etapa decisiva de um Gran Tour. Na bike de Filippo Ganna, o cubo Powershift foi instalado em uma roda Princeton Carbonworks. O britânico Geraint Thomas e o norte-americano Magnus Sheffield também correram com cubos Powershift.

“É uma opção em que estamos trabalhando há seis meses”, disse Zak Dempster, diretor esportivo da Ineos-Grenadiers.

A novidade não garantiu a vitória de Top Ganna, que ocupou o hot seat por muito tempo e acompanhou de perto a vitória de Pogacar, que pedalou sua Colnago TT1 com a curiosa combinação de coroas 60×46 com cassete 11×34 e superou o italiano em 17 segundos.

Segundo o serviço Velon, Ganna e Pogacar entregaram 430 Watts em média, com 94 rpm de cadência média. Entretanto, a diferença de desempenho pode ser vista na velocidade média e na velocidade máxima. Pogacar cravou a máxima de 60,9 km/h e Ganna 57km/h. Pogacar registrou 32,3km/h de velocidade média e Ganna 29,7km/h. No fim, pode ter faltado marchas para Top Ganna no longos trechos planos.

Vantagens e desvantagens
Lançado em 2019 pela empresa belgo-holandesa Classified, o Powershift tem vários adeptos entre profissionais da estrada e do off-road. Em 2023, a linha cresceu e o cubo ganhou versões para mountain bike, triathlon, TT e gravel, modalidade em que o produto ganhou muitos adeptos, afinal, um componente que duplica o número de marchas é sempre bem-vindo. A Classified montou a primeira equipe de fábrica na modalidade gravel em parceria com a Ridley que disputa as principais provas do calendário da modalidade, inclusive o mundial UCI. Outra estrela que adotou o cubo Powershift é o belga Victor Campanaerts, que disputou em 2023 as Clássicas da Primavera com o Powershift.

O sistema completo Classified Powershift pesa 519 gramas

O cubo traseiro pesa 493 gramas com um robusto eixo passante de 12mm completo de 72 gramas e que pode receber em sua ponta adaptadores para várias medidas. A alavanca da blocagem funciona também como receptor wifi do comando que aciona o mecanismo da troca de marcha. O pequeno botão responsável pelo acionamento do mecanismo no cubo traseiro pesa 14 gramas. O sistema completo pesa 519 gramas. O cassete utilizado é o mesmo da bike e não faz parte do sistema.

Um dos que elogiaram o componente foi o britânico Geraint Thomas, que completou a crono na 10ª colocação, a 2min de Pogacar. “Funcionou muito bem. Sem problemas com isto”, disse.

O eixo passante completo pesa 72 gramas

O sistema funciona com uma coroa de no mínimo 40 dentes e o Powershift já equipa bikes novas de linha.

Uma das vantagens óbvias do Powershift é a eliminação do câmbio dianteiro, que reduz peso e contribui para melhor aerodinâmica em relação às bicicletas com duas coroas. Outra vantagem é a rapidez da troca de marchas do cubo que é de apenas 150 milissegundos e a mudança pode ser feita sob esforço de até 1.000 Watts.

Outro ponto positivo é que a coroa única funciona mais centralizada e evita que a corrente trabalhe torcida, que reduz a fricção. Outros atrativos são a amplitude da desmultiplicação, que chega até 530%, e o cubo vedado contra intempéries.

Detalhe do pequeno trocador que comando as trocas do cubo traseiro

Um dos fatores que pode ainda estar contribuindo para a tímida adesão ao cubo Powershift no pelotão ProTour é o peso, de mais de meio quilo, considerável especialmente para as etapas de subida.

Uma versão mais leve e a adesão das grandes marcas e fabricantes poderia abrir caminho mais rápido para as   monocoroas num futuro próximo.

Na crono individual da 14ª etapa (sábado, 18 de maio) com 31km de predominância plana, os olhos estavam atentos à escolha de Ganna, que pedalou uma coroa de 64 dentes e manteve o cassete 11×34. Pogacar por sua vez adotou uma coroa única de 62 dentes com um cassete 11×32. Ao final, Pogacar venceu com 29 segundos de vantagem sobre Ganna (veja reportagem).

COMO FUNCIONA


Mais informações no site oficial www.classified-cycling.cc/en